Foto: Arquivo Pessoal
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Quanto tempo faz?
15, 20 anos.
Não sei.
(O mundo era menos escalafobético e viável.)
O que sei, rememoro e lhes digo.
Sentei nesta mesma cadeira, no canto esquerdo desta mesma varanda do mesmo apartamento no 15° andar. E olhei com o olhar tíbio e fatigado como o tenho agora, a imensidão do mar sem fim bem à minha frente. Um mar que a muitos maravilha; a outros, como eu, naquele dia e agora, apenas inquieta e sugere remotas lembranças.
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Única diferença.
Aquela era uma tarde chuvosa que se perdeu nos escaninhos do tempo, mas não da memória.
Na ocasião, o que pude distinguir no horizonte, que gradativamente se desfez em névoa, foi o passo tranquilo de um senhorzinho que andava pela faixa de areia alheio a tudo, aos grossos pingos de chuva e à solidão da praia deserta, dadas a circunstâncias.
O homem caminhava e… apenas caminhava.
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A cena me intrigou.
Não lembro o que escrevi naquela ocasião, mas sei que registrei em crônica neste mesmo Blog a aventura do andarilho.
O que ele pensava naquele preciso instante?
O que eu pensava ao testemunhar o intrépido passo naquele dia?
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O que penso agora?
3h04 da madrugada escura de um domingo qualquer.
E eu a perscrutar o vazio do horizonte, a ruminar recordações.
Vez ou outra, os faróis dos automóveis iluminam, ainda que brevemente em lampejos, os arredores da avenida litorânea e dão a letra: não sou o único acordado por aqui.
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No mais, vislumbro a fieira de pontos de luzes dos navios que, ordeiramente, se postam em fila à espera de atracar no porto de Santos.
É um cenário sombrio.
Lembro circunstancialmente da história do capitão que, ciente do seu dever, nunca abandonou o barco, fosse qual fosse o motivo.
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Só uma vez o fez.
Para um outro olhar e, assim, entender o mar de outra perspectiva.
Talvez seja este, da vida, o segredo e o mistério.
Boa semana!
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O que você acha?