{"id":10003,"date":"2000-09-17T00:00:00","date_gmt":"2000-09-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:52:17","modified_gmt":"2017-09-13T19:52:17","slug":"serra-da-bocaina-na-trilha-de-um-velho-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/serra-da-bocaina-na-trilha-de-um-velho-paraiso\/","title":{"rendered":"Serra da Bocaina &#8211; Na trilha de um velho para\u00edso"},"content":{"rendered":"<p>Para os escravos fugidos, era um caminho para o c\u00e9u. Para os tropeiros do s\u00e9culo 17, a melhor rota para o Rio. Hoje, a Trilha do Ouro, na Serra da Bocaina, virou o para\u00edso de ecoturistas e aventureiros<\/p>\n<p>Havia uma pedra no meio do caminho. Uma s\u00f3, n\u00e3o. Muitas. Ali\u00e1s, o caminho surpreenderia o mais inspirado dos poetas. E \u00e9 todo ele cal\u00e7ado por pedras irregulares, de diversos tamanhos e formas. Foram justapostas, uma ao lado da outra, no final do s\u00e9culo 18, pelos escravos que as retiraram do fundo do rio Mambucaba. Para assent\u00e1-las, reza a lenda, os negros usaram \u00f3leo de baleia. Haja baleia! A rota tem aproximadamente 30 quil\u00f4metros de extens\u00e3o e serpenteia todo o Parque Nacional da Serra da Bocaina, na divisa dos Estados do Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, l\u00e1 nos confins do Vale do Para\u00edba, entre os magn\u00edficos cen\u00e1rios das serras da Mantiqueira e do Mar.<\/p>\n<p>Quase me esquecia de dizer: o caminho tem nome. V\u00e1rios: Estrada da Cesar\u00e9ia (nome de uma fortaleza de pedras constru\u00edda por Herodes no Mediterr\u00e2neo) ou Estrada da Independ\u00eancia (como a conhece o secret\u00e1rio estadual de Recupera\u00e7\u00e3o dos Bens Culturais, Emanuel Von Lauenstein Massarani) ou Trilha dos Mineiros. A denomina\u00e7\u00e3o em moda, por\u00e9m, \u00e9 Trilha do Ouro.<\/p>\n<p>N\u00e3o se surpreenda com a palavra \u2018moda\u2019. Pois o caminho, ainda hoje, \u00e9 usado, como nos tempos coloniais, para transporte em mulas de todo tipo de mercadoria, principalmente alimentos. S\u00f3 que, agora, os animais carregam as coloridas mochilas dos trilheiros que descobriram o parque e a trilha como ponto de refer\u00eancia para aventuras radicais &#8211; v\u00f4os de asa delta, rapel, trekkings &#8211; ou para um cada vez mais atual contato com a natureza.<\/p>\n<p>S\u00f3 na semana do Carnaval, havia umas 600 pessoas pela serra. &#8220;A maioria atra\u00edda pelas maravilhas da Trilha do Ouro&#8221;, diz Jos\u00e9 Milton de Magalh\u00e3es Serafim, dono de uma ag\u00eancia de turismo na pequena S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro que, pelo menos duas vezes por m\u00eas, leva grupos de 16 a 20 turistas para o desafio da Trilha.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Z\u00e9 Milton diz que sua hist\u00f3ria de vida foi inteiramente baseada no fato de ter crescido no meio das matas e cachoeiras da Bocaina. Desde que se entende por gente freq\u00fcenta o s\u00edtio dos av\u00f3s na serra &#8211; e de l\u00e1 fazia ponto de partida para diversas excurs\u00f5es pelos mais escondidos grot\u00f5es do lugar. J\u00e1 adulto, em 1991, participou do projeto Caminhan\u00e7as, que pretendia identificar e cadastrar os locais com potencial de ecoturismo da regi\u00e3o. O projeto era financiado pela organiza\u00e7\u00e3o norte-americana Ashoka e tinha como coordenador o professor Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Bachin.<\/p>\n<p>&#8220;A id\u00e9ia era lan\u00e7ar um Guia de Trilhas Brasileiras por ocasi\u00e3o da ECO 92 realizada no Rio&#8221;, explica. &#8220;Mas, para mim, o mais importante foi a confirma\u00e7\u00e3o de que a Bocaina \u00e9 mesmo um patrim\u00f4nio da humanidade e que merece ser preservado para as futuras gera\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>A Trilha do Ouro \u00e9 outro dos entusiasmos de Z\u00e9 Milton, que sabe sua hist\u00f3ria de cor. Come\u00e7a na nascente do rio Mambucaba, no ponto mais alto da serra, e segue em dire\u00e7\u00e3o ao litoral sul do Rio. H\u00e1 hist\u00f3rias e est\u00f3rias sobre a trilha. Todas t\u00eam um fundo de verdade, diz o guia.<\/p>\n<p>Sua origem parece ser mesmo das picadas que os ind\u00edgenas abriam na floresta quando sa\u00edam para pescar. Pelo in\u00edcio do s\u00e9culo 17, tropeiros vindos de Minas Gerais fizeram desse caminho sua rota de com\u00e9rcio. Desciam a serra carregados de ouro e pedras preciosas para serem embarcados nos portos de Mambucaba e Parati, e subiam com peixe seco, cacha\u00e7a, farinha e outros mantimentos que eram comercializados no percurso de volta a Minas.<\/p>\n<p>Desse per\u00edodo, surge a vers\u00e3o que, depois dos nativos, os primeiros que percorreram a trilha foram os tropeiros que levavam ouro n\u00e3o-quintado pelo fisco portugu\u00eas. Por ser de dif\u00edcil acesso, e com v\u00e1rias travessias de rios que se transformavam em verdadeiros atoleiros, as caravanas driblavam as patrulhas e as barreiras (precursoras dos ped\u00e1gios) e chegavam ao Litoral.<\/p>\n<p>&#8220;Navios de diversas bandeiras esperavam os carregamentos de ouro contrabandeado nos portos de Parati e Mambucaba&#8221;, esclarece a historiadora K\u00e1tia Maria Abud, da Univeridade de S\u00e3o Paulo. A rota sobreviveu ao fim do ciclo do ouro, pois ent\u00e3o come\u00e7ou o ciclo do caf\u00e9 nesta regi\u00e3o do Vale do Para\u00edba &#8211; e a trilha ganhou import\u00e2ncia como principal rota comercial entre Rio e S\u00e3o Paulo. Imponentes fazendas se espalhavam pela regi\u00e3o e, como o movimento de tropeiros cresceu, agora em virtude do caf\u00e9, trechos do rio se tornaram intransit\u00e1veis para mulas e cavalos.<\/p>\n<p>Em alguns trechos da serra, chove em m\u00e9dia 300 dias por ano, o que dificulta o tr\u00e1fego de mercadorias. Como os ricos fazendeiros possu\u00edam levas e levas de escravos, \u00e9 f\u00e1cil concluir que o cal\u00e7amento pode, muito bem, ter sido conseq\u00fc\u00eancia desse per\u00edodo de apogeu e exageros.<\/p>\n<p>&#8220;Foram anos de opul\u00eancia e fartura para munic\u00edpios como Bananal, Arape\u00ed, S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro, Areias, Roseiras e Queluz&#8221;, assegura o secret\u00e1rio Massarani.<br \/>\nGrandes fazendas, sobrados e casar\u00f5es ainda hoje s\u00e3o marcos desse primeiro momento da cafeicultura no Pa\u00eds. Tempo dos bar\u00f5es, dos condes das cartolas e casacas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 os aspectos hist\u00f3ricos atraem os ecoturistas. A Trilha do Ouro est\u00e1 situada no Parque Nacional da Bocaina, com 110 mil hectares de Mata Atl\u00e2ntica, fauna e flora exuberantes. A paisagem natural re\u00fane desde uma enseada com praias arenosas (praias do Cachada\u00e7o e do Meio), uma ilha oce\u00e2nica (da Tesoura na regi\u00e3o de Trindade), despenhadeiros, grot\u00f5es e vales profundos, a campos de altitudes superiores a 1.800 metros. O mais alto \u00e9 o pico do Tira o Chap\u00e9u, com 2.088m, na divisa dos munic\u00edpios de S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro e Areias. H\u00e1 muitos rios (a principal bacia \u00e9 a do Mambucaba, afluente do Para\u00edba), que formam bel\u00edssimas cachoeiras de \u00e1guas frias e cristalinas.<\/p>\n<p>S\u00f3 para se chegar ao come\u00e7o da trilha passa-se por tr\u00eas exemplares de quedas d\u2019\u00e1gua: a de Santo Izidro (com mais de 80 metros), das Marrecas e das Posses. No segundo dia da trilha (que \u00e9 feita a p\u00e9 ou a cavalo), encontra-se a mais imponente cachoeira, a dos Veados, com 120 metros de altura divididos em tr\u00eas tombos de rara beleza.<\/p>\n<p>&#8220;Os turistas deslumbram-se com as manchas de pinheiros-do-Paran\u00e1 e do pinheiro bravo que dominam os campos nativos&#8221;, diz Jos\u00e9 In\u00e1cio Junior, o Z\u00e9 Pescocinho, que nasceu nos Campos de Bocaina e \u00e9 profundo conhecedor da regi\u00e3o. Desde 1971, ele faz o trajeto de S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro \u00e0 Bocaina levando turistas, bocaneiros (como s\u00e3o chamados os habitantes do parque) e cargas, as mais variadas.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, Pescocinho subia num velho Jeep a esburacada estrada de terra, onde s\u00f3 ve\u00edculos tra\u00e7\u00e3o 4&#215;4 transitam com facilidade. Mas depois adquiriu um velho Fusc\u00e3o, e virou atra\u00e7\u00e3o especial do caminho. Em sete dias, j\u00e1 chegou a percorrer 11 vezes o trajeto de ida e volta at\u00e9 a Bocaina. &#8220;Ningu\u00e9m acredita que eu fa\u00e7o o que fa\u00e7o com o meu carrinho. Vou aonde essas camionetas modernas n\u00e3o chegam. Quando tem muito barro, enrosco umas correntes nas rodas do \u2018bich\u00e3o\u2019 e vou em frente. Os mo\u00e7os da cidade adoram&#8221;.<\/p>\n<p>Pescocinho defende que a mata tem muita madeira nobre que precisa ser preservada. S\u00e3o as chamadas madeiras-de-lei, como canelas parda, preta e amarela, guatambu, louro, sucupira, imbuia, cedro e o jequitib\u00e1, s\u00f3 para dizer algumas. Por toda a trilha vislumbram-se v\u00e1rias esp\u00e9cies de micro-orqu\u00eddeas e brom\u00e9lias. &#8220;Quando d\u00e1 a florada, isso fica parecendo o para\u00edso&#8221;, encanta-se ainda hoje.<\/p>\n<p>Tanto para Pescocinho quanto para Z\u00e9 Milton, o turismo, longe de ser um mal, est\u00e1 beneficiando o Parque Nacional da Bocaina e chama a aten\u00e7\u00e3o das autoridades para a necessidade de uma pol\u00edtica de efetiva conserva\u00e7\u00e3o do local. O Ibama tem um posto de fiscaliza\u00e7\u00e3o na estrada que sai de S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro. Mas as sa\u00eddas para o lado de Arape\u00ed e do Rio est\u00e3o inteiramente desprotegidas. At\u00e9 os bocaneiros reclamam dessa falha.<\/p>\n<p>&#8220;Quem vem para c\u00e1 n\u00e3o tem o esp\u00edrito predador&#8221;, afirma Z\u00e9 Milton. &#8220;Venham de onde vierem &#8211; e vem gente de toda parte do mundo -, sabem que o parque, as cachoeiras, a trilha s\u00e3o, na verdade, uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus. Melhor ainda: eles est\u00e3o promovendo uma perfeita integra\u00e7\u00e3o com os caboclos que ficam mais conscientes, e j\u00e1 evitam de fazer queimadas e outros desmatamentos descomunais&#8221;.<\/p>\n<p>Como o Parque n\u00e3o tem infra-estrutura, muitas das 60 fam\u00edlias que vivem no local acabam dando pousada e alimenta\u00e7\u00e3o para os turistas. &#8220;\u00c9 uma coisa ainda rudimentar&#8221;, diz o guia. &#8220;Mas que est\u00e1 garantindo uma renda extra. \u00c9 uma ajuda e tanto, ainda mais que alguns alugam suas mulas para fazer a travessia da trilha levando mochilas, barracas e outras tralhas do pessoal&#8221;.<\/p>\n<p>O trajeto da Trilha do Ouro pode ser feito em dois dias, mas as ag\u00eancias de turismo locais optam pelo passeio de tr\u00eas dias. Para quem se aventurar por conta pr\u00f3pria, a rota possui \u00e1reas para camping selvagem. Mas o Ibama precisa dar autoriza\u00e7\u00e3o com anteced\u00eancia para o visitante.<\/p>\n<p>Explica-se o cuidado. N\u00e3o s\u00f3 a Reserva de Mata Atl\u00e2ntica est\u00e1 amea\u00e7ada: h\u00e1 v\u00e1rias esp\u00e9cies de animais em extin\u00e7\u00e3o. A lista \u00e9 consider\u00e1vel: su\u00e7uarana, mono-carvoeiro, jaguatirica, sagui-da-serra-escuro, gato do mato, tiriba, lontra, tamandu\u00e1-bandeira, macuco, gavi\u00e3o de penacho, gavi\u00e3o-pega-macaco, jacutinga, gavi\u00e3o-real, papagaio-de-peito-roxo, sabi\u00e1-cica, entre outros.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m fiscalizar a ca\u00e7a e a pesca &#8211; e ultimamente ganhou destaque a a\u00e7\u00e3o dos palmiteiros que est\u00e3o agindo indiscriminadamente e dando fim \u00e0 palmeira ju\u00e7ara, uma das plantas nativas que n\u00e3o se desenvolve sob cultivo planejado.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes, o pessoal do Ibama at\u00e9 acha ruim com a gente, de tanto que os turistas reclamam&#8221;, diz um dos guias do local que preferiu n\u00e3o se identificar. \u00c9 que l\u00e1 em cima eles topam com ca\u00e7adores e palmiteiros ou com alguma clareira nova no meio da mata, e ficam indignados. As autoridades precisam olhar para o parque com mais aten\u00e7\u00e3o. Afinal, bocaina quer dizer caminhos para os c\u00e9us&#8221;.<\/p>\n<p>Uma das tantas hist\u00f3rias da trilha atribui aos negros fugidos das fazendas a denomina\u00e7\u00e3o do lugar. Quando havia nuvens, n\u00e3o era poss\u00edvel enxergar o alto das montanhas, onde por vezes, de tanto frio, chegava at\u00e9 a nevar. Eles imaginavam que l\u00e1 em cima pisariam em nuvens e encontrariam a liberdade, o para\u00edso. E, decididamente, em tempo nenhum, liberdade e para\u00edso combinam com destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MAIS DO QUE UMA TRILHA, UM PEDA\u00c7O DE NOSSA HIST\u00d3RIA<\/p>\n<p>Para o secret\u00e1rio estadual de Recupera\u00e7\u00e3o de Bens Culturais, a Trilha do Ouro &#8211; ou Estrada da Independ\u00eancia, como ele a chama, precisa ser preservada e est\u00e1 inclu\u00edda no programa de sua pasta<\/p>\n<p>A Trilha do Ouro est\u00e1 inclu\u00edda no programa de preserva\u00e7\u00e3o da Secretaria Estadual de Recupera\u00e7\u00e3o dos Bens Culturais. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 do secret\u00e1rio Emannuel Von Lauenstain Massarani, que a chama de Estrada da Independ\u00eancia porque foi por esse caminho que a comitiva do pr\u00edncipe D. Pedro de Alc\u00e2ntara passou quando, a caminho de Santos, proclamou a Independ\u00eancia do Brasil no dia 7 de setembro de 1822. Inclusive, h\u00e1 documentos que comprovam que D. Pedro fez um pernoite na primeira, e mais poderosa, fazenda cafeeira da regi\u00e3o, a Pau D\u2019Alho.<\/p>\n<p>&#8220;Essa bel\u00edssima fazenda existe ainda hoje nos arredores de S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro e pertence \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo&#8221;, revela o secret\u00e1rio. &#8220;Recentemente o local passou por uma reforma parcial. Mas, pelo que representa em termos de Hist\u00f3ria, mereceria uma aten\u00e7\u00e3o redobrada. O patrim\u00f4nio, por\u00e9m, est\u00e1 sob guarda da Uni\u00e3o e nada podemos fazer, embora haja aqui na Secretaria o plano de transform\u00e1-la no Museu Nacional do Caf\u00e9&#8221;.<\/p>\n<p>Contam os registros hist\u00f3ricos que D. Pedro e sua trupe chegaram ao arraial de S\u00e3o Jos\u00e9, sob intensa chuva, na tarde do dia 17 de agosto. Foram recepcionados num trecho ao p\u00e9 da Serra, junto \u00e0s margens do rio Santo Ant\u00f4nio, pelo coronel Jo\u00e3o Ferreira que ofereceu sua fazenda para pouso e troca de animais. Na manh\u00e3 seguinte, o pr\u00edncipe e a comitiva partiram e foram acompanhados at\u00e9 o munic\u00edpio de Areias pelo coronel e o filho mais velho.<\/p>\n<p>Massarani diz que a Secretaria est\u00e1 empenhada em realizar um grande levantamento dos bens hist\u00f3ricos e culturais da regi\u00e3o do Vale. Para tanto, fechou conv\u00eanio com universidades locais e aproximadamente 50 estagi\u00e1rios j\u00e1 est\u00e3o em campo para pesquisa de toda a \u00e1rea que inclui, s\u00f3 no Estado de S\u00e3o Paulo, as cidades de Roseiras, Areias, S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro, Arape\u00ed e Bananal.<\/p>\n<p>Estrada da Independ\u00eancia ou Trilha do Ouro, tenha o nome que tiver, \u00e9 certo que esse peda\u00e7o da Hist\u00f3ria do Brasil precisa ser preservado &#8211; e, principalmente, valorizado como um leg\u00edtimo bem da nossa cultura, conclui o secret\u00e1rio Massarani.<\/p>\n<p>OOS ANFITRI\u00d5ES DA SERRA DA BOCAINA<\/p>\n<p>Os bocaneiros que moram no Parque Nacional t\u00eam recebido os turistas e n\u00e3o v\u00eaem outro modo de vida. Aqui, o depoimento de Sebasti\u00e3o de Lima<\/p>\n<p>&#8220;Minha fam\u00edlia est\u00e1 aqui antes da terra virar parque&#8221;. \u00c9 assim que Sebasti\u00e3o Henrique de Lima, o Ti\u00e3o das Mulas, de 32 anos, come\u00e7a a contar sua hist\u00f3ria e um pouco da hist\u00f3ria do Parque Nacional da Bocaina, onde mora desde que nasceu. Al\u00e9m de agricultor, Ti\u00e3o acomoda grupo de turistas em sua casa de paredes varadas \u00e0 beira do rio Mambucaba e candeia as mulas carregadas de mochilas at\u00e9 o fim da trilha. Ele se surpreende com as mo\u00e7as quando v\u00eaem os animais carregados para as quase quatro horas de trajeto.<\/p>\n<p>&#8220;Tadinhas das mulas, elas dizem. Mas n\u00e3o sei o porqu\u00ea. Os bichos est\u00e3o acostumados. Em mim, \u00e9 que ningu\u00e9m p\u00f5e arrepara.&#8221;<\/p>\n<p>Aqui, o seu depoimento.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tenho estudo, n\u00e3o, mo\u00e7o. Como vou viver fora daqui? Foi meu av\u00f4, que ainda hoje \u00e9 vivo e tem 77 anos, quem ajudou a erguer a Fazenda Central. Meus pais nasceram aqui, como eu e meus irm\u00e3os. Como meus filhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem como sair daqui, n\u00e3o. Para onde vou? S\u00e3o Jos\u00e9 (do Barreiro)? S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p>N\u00e3o temos nada a fazer por l\u00e1. Sempre fomos do ro\u00e7ado, da cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o entendo os homens do Ibama &#8211; pensam que n\u00f3s vamos destruir tudo: sujar a \u00e1gua dos rios, derrubar as \u00e1rvores, acabar com o palmito&#8230; N\u00f3s que vivemos aqui, e s\u00f3 sabemos viver do que essa terra nos d\u00e1. N\u00e3o tem cabimento.<\/p>\n<p>Eles ficam bravos, falam que n\u00e3o pode isso, n\u00e3o pode aquilo. E cascam multas na gente. N\u00e3o pode nem arar a terra que eles chegam mandando desfazer o que a gente fez.<\/p>\n<p>Eu mesmo, s\u00f3 porque levantei minha casinha l\u00e1 pelos lados do Vale dos Pinos, j\u00e1 levei 11 multas. Quando fiz a cozinha deram uma de R$ 2 mil. Depois aumentei os c\u00f4modos, veio outra de R$ 5 mil. Imagina se tenho como pagar essas danadas? Nem penso nisso.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o advogado disse que tenho direito de ficar aqui. Minha fam\u00edlia est\u00e1 aqui antes das terras virarem parque. Ent\u00e3o, podemos ficar e pronto. Para ser sincero, somos os primeiros a querer preservar a mata. S\u00f3 plantamos o que \u00e9 para a gente comer &#8211; e para alguma troca. A gente tamb\u00e9m faz um queijo e cuida do gado. \u00c9 pouco, mas d\u00e1 para ir levando. Nada que possa prejudicar o local onde a gente vive e onde os filhos da gente v\u00e3o viver. Ainda mais agora que estamos dando pouso e alimento para os turistas, a gente quer manter tudo nos conformes. \u00c9 um dinheirinho a mais que entra.<\/p>\n<p>At\u00e9 minha mulher Estelina gostou. N\u00e3o se importa de cozinhar para esse punhado de gente. A casa fica movimentada. Acaba com o nosso isolamento &#8211; e, de quebra, d\u00e1 para pensar melhor na vida. N\u00e3o \u00e9 muito, mas ajuda. Aos poucos, vamos levantando a casa, melhorando o jeito de viver&#8230; Temos que pensar num jeito dos filhos terem uma vida melhor do que essa que vivemos.<\/p>\n<p>CAUSOS E LENDAS, DE GERA\u00c7\u00c3O A GERA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Da mesma forma que guarda alguns cap\u00edtulos importantes da Hist\u00f3ria do Brasil, a Serra da Bocaina \u00e9 rica em est\u00f3rias e mist\u00e9rios<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria est\u00e1 sempre em constru\u00e7\u00e3o. S\u00e3o t\u00e3o importantes os documentos que comprovam os fatos quanto a mem\u00f3ria preservada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o pelo relato dos caminheiros e viajantes. Os caminhos de pedra e \u00e1gua da Serra da Bocaina (o rio Mambucaba se insinua por toda a segunda parte da trilha) s\u00e3o igualmente ricos em hist\u00f3rias e que hist\u00f3rias&#8230;<\/p>\n<p>Quem chega \u00e0 clareira que antecede o estu\u00e1rio do rio vem sempre com uma novidade para contar aos mais incr\u00e9dulos. H\u00e1 quem se divirta em aumentar um ponto ao contar um conto. E h\u00e1 quem se impressiona com os mist\u00e9rios seculares que ocultam as ladeiras da Trilha do Ouro.<\/p>\n<p>Conta-se que, h\u00e1 muitos e muitos anos, mais de 200, uma numerosa caravana de ca\u00e7adores, vinda dos centros de Minas, embrenhou-se mata adentro atr\u00e1s de suas presas. Alguns ficaram nas cabeceiras da Serra da Bocaina, atr\u00e1s das pegadas de uma enorme on\u00e7a predadora.<\/p>\n<p>A noite chegou e o grupo reuniu-se ao redor da fogueira para jantar, contar prosas e proezas e engendrar as ca\u00e7adas do dia seguinte. Um negro escravo, meio idoso, camarada e companheiro, vigia do acampamento, queixou-se do frio que passara na noite anterior.<\/p>\n<p>&#8220;Deus me acuda&#8230;Eu voumembora se esse frio continuar. Ah! eu voumembora&#8230;&#8221;, dizia ele.<\/p>\n<p>O chefe do ca\u00e7adores apiedou-se do vigia e pediu que lhe dessem um couro de boi para proteg\u00ea-lo. O escravo enrolou-se como p\u00f4de, deitou-se no ch\u00e3o, e n\u00e3o deixou sequer a cabe\u00e7a ao relento.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, quando todos dormiam pesadamente e o fogo j\u00e1 se apagara, entrou no rancho a destemida e, num salto s\u00f3, arrebatou o escravo com couro e tudo. Saiu do acampamento como entrou, sem que ningu\u00e9m percebesse.<\/p>\n<p>Antes do amanhecer, por\u00e9m, todos despertaram com gritos pungentes que vinham dos confins da mata: &#8220;Deus me acuda&#8230; Que eu vou me embora&#8230; Ah! eu vou me embora&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Logo notaram a aus\u00eancia do amigo e vigia, e se deram conta da trag\u00e9dia. Ainda sonolentos e desorientados, deixaram o malsinado lugar, partindo de volta para Minas. Nunca mais voltaram. Em noites escuras e chuvosas, dizem os viajantes, ainda hoje se pode ouvir o lamento: &#8220;Ah! eu vou me embora. Deus me acuda&#8230;Que eu vou me embora&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A PEDRA<br \/>\nForam os taubateanos que descobriram ouro nas Minas Gerais. Foi o cozinheiro de uma dessas expedi\u00e7\u00f5es que, ao lavar panelas na beira de um rio, encontrou uma pedra preta, mais resistente que a malacaxeta. Raspou com a unha e viu o cintilar do ouro. Da\u00ed em diante foi uma dana\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A serra ficou apinhada de gente e at\u00e9 o p\u00e1roco de Pindamonhangaba largou a batina e caiu no mundo atr\u00e1s do vil metal. Verdade verdadeira. O nome do padre era Jo\u00e3o Faria. Ningu\u00e9m sabe se enricou ou n\u00e3o. O t\u00famulo dele \u00e9 l\u00e1 em Cunha. E o local onde o cozinheiro descobriu a pedra preta recebeu o nome que ostenta ainda hoje: Ouro Preto.<\/p>\n<p>MACETE DA FONSECA<br \/>\nO marechal Hermes da Fonseca, quando presidente da Rep\u00fablica, tamb\u00e9m andou pelos campos da Bocaina. Fora convidado pelo coronel Jo\u00e3o Ayrosa para ca\u00e7ar e hospedar-se na invernada do Lajeado.<\/p>\n<p>O presidente l\u00e1 chegou e, nos dias que ali ficou, teve a acompanh\u00e1-lo um sertanejo de nome Ces\u00e1rio que lhe serviu de guia pelas veredas da serra. Era um caboclo falante, de muitas hist\u00f3rias de ca\u00e7adas, algumas invencionices e outros tantos abusos. Tanto que logo passou a chamar o presidente pelo apelido de Macete.<\/p>\n<p>De alma pura, o caboclo chorou quando se despediu do presidente. Tamb\u00e9m comovido, o marechal convidou Ces\u00e1rio para visit\u00e1-lo, um dia, no Pal\u00e1cio do Catete e ainda prometeu-lhe uma espingarda nova.<\/p>\n<p>Eis que, meses depois, um dia, uma breve confus\u00e3o na portaria do Catete chama a aten\u00e7\u00e3o do presidente, que interrompe seus despachos para saber o que est\u00e1 acontecendo. Um de seus estafetas informa que h\u00e1 um caboclo maluco, prestes a ser preso, porque insiste em falar com um tal de Macete.<\/p>\n<p>O presidente logo soube quem viera lhe visitar. Abra\u00e7ou Ces\u00e1rio como se fossem velhos amigos e, na impossibilidade de lhe fazer companhia pelas obriga\u00e7\u00f5es do cargo, providenciou carro e chofer com a incumb\u00eancia de lhe mostrar os encantos da Cidade Maravilhosa. Depois, o motorista tinha ordem de levar Ces\u00e1rio \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o para que pudesse retornar \u00e0 Bocaina.<\/p>\n<p>No final do expediente, outra esparrela na portaria. O presidente fica injuriado e vai pessoalmente ver o que \u00e9 desta feita. L\u00e1 encontra, no meio da guarda, o amigo Ces\u00e1rio que, ao v\u00ea-lo, apressa-se em tranq\u00fciliz\u00e1-lo. &#8220;Macete, cansei da balb\u00fardia da cidade. Gosto mesmo \u00e9 do meu sert\u00e3o. S\u00f3 voltei para buscar minha espingarda nova. Afinal, n\u00e3o podia ir embora e fazer essa desfeita pro amigo&#8221;.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio voltou de espingarda nova para a Bocaina. E os dois nunca mais se viram. Dizem que para sorte do Macete, ou melhor do presidente&#8230;<\/p>\n<p>Mat\u00e9ria publicada no Jornal da Tarde<\/p>\n[O texto tamb\u00e9m faz parte do livro \u201cVolteios &#8211; Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os escravos fugidos, era um caminho para o c\u00e9u. Para os tropeiros do s\u00e9culo 17, a melhor rota para o Rio. Hoje, a Trilha do Ouro, na Serra da Bocaina,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10003","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10003","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10003"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10003\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13875,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10003\/revisions\/13875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}