{"id":10007,"date":"2002-04-01T00:00:00","date_gmt":"2002-04-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T20:35:53","modified_gmt":"2017-09-13T20:35:53","slug":"marcao-e-ze-jofre-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/marcao-e-ze-jofre-2\/","title":{"rendered":"Marc\u00e3o e Z\u00e9 Jofre"},"content":{"rendered":"<p>Eis aqui um breve relato sobre a hist\u00f3ria de vida de dois jornalistas, Jos\u00e9 Jofre Soares e Ant\u00f4nio de Oliveira Marques, com os quais tive o privil\u00e9gio de conviver em meados dos anos 70 na reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga. Eles foram os precursores da implanta\u00e7\u00e3o dos jornais de bairro na Capital. Foram principalmente dois sonhadores que sempre estiveram em busca da utopia de uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O texto homenagem \u00e9 mais do que merecido, creio eu. Ambos eram autodidatas e trabalharam nas reda\u00e7\u00f5es dos jornais di\u00e1rios paulistanos. Nos anos 40\/50 passaram a militar no Partido Comunista, que implementou na forma\u00e7\u00e3o de ambos um forte v\u00ednculo com as teorias socialistas-marxistas. No final da d\u00e9cada de 50, depois de algumas pris\u00f5es, n\u00e3o conseguiram mais empregos nas reda\u00e7\u00f5es convencionais, de t\u00e3o identificados que estavam com a causa comunista.<\/p>\n<p>Fundaram ent\u00e3o alguns jornais de bairro na periferia de S\u00e3o Paulo e um em S\u00e3o Bernardo &#8211; a Gazeta de S\u00e3o Bernardo. A proposta desses dois quixotes era organizar a sociedade e dar voz e vez, como gostava de dizer o Z\u00e9 Jofre, aos moradores dos n\u00facleos urbanos que come\u00e7avam a pipocar nos arredores de S\u00e3o Paulo. Era o in\u00edcio do que, posteriormente, veio a se chamar de periferia. Uma proposta que refor\u00e7ou-se ainda mais ap\u00f3s o Golpe Militar de 64 que arrasou a sociedade, dizimou partidos pol\u00edticos, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de estudantes e todo e qualquer n\u00facleo que pudesse dar vaz\u00e3o aos reclamos sociais.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o queria que as pessoas voltassem a se juntar e a entender que tinham um ideal comum. Que a luta era de todos; primeiramente por melhor qualidade de vida. Achava que o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o favorecia a uni\u00e3o de todos em torno de uma causa, visto que o perfil do habitante dessas regi\u00f5es era muito pr\u00f3ximo &#8212; trabalhador de baixa renda em busca do t\u00e3o acalentado sonho da casa pr\u00f3pria &#8211; e que, por faltar quase tudo nesses locais, havia muito para se cobrar do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Aqui, cabe fazer abrir par\u00eanteses: a conviv\u00eancia de ambos n\u00e3o era simples. O cearense Z\u00e9 Jofre, que originariamente era gr\u00e1fico, era mais radical, adepto de caudalosos artigos doutrinadores, repletos de cita\u00e7\u00f5es. Artigos sistematicamente vetados por Marqu\u00eas sob a implac\u00e1vel alega\u00e7\u00e3o: &#8220;Uma lauda todo mundo l\u00ea. Duas, s\u00f3 os mais interessados. Tr\u00eas, nem a m\u00e3e da gente ag\u00fcenta&#8230;Depois, Z\u00e9, \u00e9 uma bandeira s\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>Jofre era useiro e vezeiro em cita\u00e7\u00f5es. Defendia-se: &#8220;O povo s\u00f3 ser\u00e1 livre quando se autoconhecer. Mas, para tanto, vai precisar fazer uma auto-avalia\u00e7\u00e3o e reconhecer as verdadeiras condi\u00e7\u00f5es em que vive&#8221;.<\/p>\n<p>Outra cita\u00e7\u00e3o freq\u00fcente de Jofre, vinda dos escritos de Marx: &#8220;O primeiro dever da imprensa era minar todas as bases do poder pol\u00edtico existentes&#8221;.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o concordava com Jofre em tese, mas discordava na pr\u00e1tica. Defendia uma organiza\u00e7\u00e3o social sem que houvesse qualquer tipo de tutela ou manipula\u00e7\u00e3o, fosse ela qual fosse. Argumentava, com o mesmo autor: &#8220;A condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do indiv\u00edduo \u00e9 que determina sua a\u00e7\u00e3o social&#8221;.<\/p>\n<p>Por ter sido redator-chefe dos jornais do Partid\u00e3o &#8211; Not\u00edcias de Hoje, S\u00e3o Paulo Hoje, entre outros &#8211; exercia uma ascend\u00eancia natural. Tamb\u00e9m obviamente por seus amplos conhecimentos da linguagem jornal\u00edstica. Queria textos curtos, objetivos, na forma direta, sem qualquer adjetiva\u00e7\u00e3o. O fundamental \u00e9 que trouxesse a denuncia de uma quest\u00e3o real: um bra\u00e7o de rua, a falta de cal\u00e7amento, ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica; de creches, escolas. Enfim, algo que colocasse o Poder P\u00fablico em xeque &#8211; e que, amanh\u00e3 ou depois, quando conquistado &#8211; revelasse concretamente a vit\u00f3ria de toda a comunidade e assim, entendia,<br \/>\no pov\u00e3o vai pegar gosto de lutar pelo que acha que \u00e9 correto.<\/p>\n<p>Cheguei a Gazeta do Ipiranga em meados de 74\/75. Marc\u00e3o e Jofre estavam fora da Reda\u00e7\u00e3o &#8211; o nome de ambos sequer constava no expediente por quest\u00f5es de seguran\u00e7a. Marc\u00e3o (a quem eu insistia em chamar de Seo Marques, e inapelavelmente ouvia a sua heresia maior: &#8220;Senhor est\u00e1 no c\u00e9u, cara&#8221;.) era uma esp\u00e9cie de consultor geral e o Jofre, que nunca quis ser patr\u00e3o (&#8220;Patr\u00e3o bom nasce morto&#8221;), tinha um sal\u00e1rio para fiscalizar a distribui\u00e7\u00e3o do jornal. A ordem para os tr\u00eas rep\u00f3rteres era simples: sair \u00e0s ruas e ouvir as reclama\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o. Os grandes jornais passavam ao largo desses problemas t\u00e3o corriqueiros na vida dos perif\u00e9ricos e o centralismo do poder ditatorial preservava-se igualmente distante dessas quest\u00f5es de \u00e1gua, luz, esgoto, escola etc.<\/p>\n<p>Quando era uma s\u00f3 pessoa que se queixava, a orienta\u00e7\u00e3o era que fizesse a reivindica\u00e7\u00e3o por meio de uma carta. Caso contr\u00e1rio, se ela achasse mais conveniente e se o problema incomodasse a mais pessoas, ent\u00e3o que as reunisse para que se fizesse a reportagem.<\/p>\n<p>Foi com base nessa, digamos, espontaneidade que a regi\u00e3o do Ipiranga nos anos 70 reunia nada menos do que 32 sociedades amigos de bairro, al\u00e9m de outros tantos clubes de servi\u00e7os, centros desportivos, clubes de lojistas, entre outras associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o morreu em 78, quando Gazeta do Ipiranga (onde ele e seus colaboradores concentraram todas suas for\u00e7as) circulava com 20\/24 p\u00e1ginas e tinha uma tiragem semanal de 43 mil exemplares. Um m\u00eas antes de seu falecimento, o pessoal da reda\u00e7\u00e3o foi visit\u00e1-lo em sua casa. Ele se confessou um tanto preocupado com os rumos do jornal e com o futuro das sabs. &#8220;O jornal transformou-se num grande vendedor de an\u00fancios. Tem um classificado forte que tomam quase 60 por cento de suas p\u00e1ginas. Os interesses comerciais quase sempre v\u00e3o bater de frente com os editoriais &#8211; e nem d\u00e1 para ser diferente. Hoje, mais de 30 fam\u00edlias sobrevivem da Gazetinha. Como n\u00e3o abrir espa\u00e7o para o anunciante?&#8221;.<\/p>\n<p>Para as sociedades amigos de bairro, um alerta: &#8220;Os l\u00edderes comunit\u00e1rios n\u00e3o podem deixar que os pol\u00edticos profissionais invadam as institui\u00e7\u00f5es. Nem devem aceitar empregos no gabinete de quem quer que seja. A\u00ed, passa a valer o interesse pessoal sobre o coletivo&#8221;.<\/p>\n<p>Antes de nos despedir, fez quest\u00e3o de nos mostrar uma folha amarelecida pelo tempo. Tinha a forma de uma primeira p\u00e1gina de jornal. Com olhar de crian\u00e7a, contou a mais encantadora peraltice de sua vida. Quando Get\u00falio Vargas morreu, houve grandes passeatas. Ele e os seus, ent\u00e3o, montaram aquela edi\u00e7\u00e3o-extra de uma \u00fanica p\u00e1gina, subiram nos pr\u00e9dios e espalharam por toda a cidade. A manchete tamb\u00e9m era \u00fanica:<\/p>\n<p>&#8212; Que o povo saia \u00e0s ruas e tome para si os rumos da Na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Jofre s\u00f3 ficou mais alguns meses no jornal ap\u00f3s a morte do amigo. Tempo suficiente para preparar a papelada da aposentadoria. Mudou-se para Bonito, no pantanal mato-grossense, onde um sobrinho lhe daria casa e comida. Z\u00e9 sempre foi um homem s\u00f3. Considerava que a luta n\u00e3o permitia certos luxos. Casar, por exemplo. Antes de partir, por\u00e9m, avisou o pessoal para dar sumi\u00e7o nuns &#8220;trens&#8221; que n\u00e3o tinha como levar para a nova casa.<\/p>\n<p>Chegando l\u00e1 n\u00e3o ningu\u00e9m acreditou no que viu: em meio a uma dezena de litros vazios do vinho portugu\u00eas Gat\u00e3ozinho, l\u00e1 estava um punhado de rifles e muni\u00e7\u00e3o \u00e0 espera da t\u00e3o sonhada revolu\u00e7\u00e3o que nunca veio&#8230;<\/p>\n<p>NR:. o artigo foi publicado, em uma vers\u00e3o mais sint\u00e9tica, digamos, no lan\u00e7amento do jornal S\u00e3o Caetano Agora, em 25 de julho de 2003. Foi orginariamente escrito para minha participa\u00e7\u00e3o no Celacom, na Universidade Metodista quase um ano antes. Ainda serviu de inspira\u00e7\u00e3o para um artigo, de fazer inveja aos que Z\u00e9 Jofre escrevia de t\u00e3o extenso, intitulado &#8220;Jornal de Bairro: um sonho que ainda n\u00e3o acabou&#8221;, publicado pela revista Estudos de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas, da Universidade Metodista, em dezembro de 2003.<\/p>\n[O texto tamb\u00e9m foi publicado no livro &#8220;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&#8221;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eis aqui um breve relato sobre a hist\u00f3ria de vida de dois jornalistas, Jos\u00e9 Jofre Soares e Ant\u00f4nio de Oliveira Marques, com os quais tive o privil\u00e9gio de conviver em meados dos anos 70 na reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10007","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10007","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10007"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10007\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13895,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10007\/revisions\/13895"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}