{"id":10011,"date":"1996-07-01T00:00:00","date_gmt":"1996-07-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:31:12","modified_gmt":"2017-09-15T18:31:12","slug":"o-sorriso-do-ministro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-sorriso-do-ministro\/","title":{"rendered":"O sorriso do ministro"},"content":{"rendered":"<p>01. A semana come\u00e7ou com a not\u00edcia que todos j\u00e1 sabiam. Os deputados federais, que s\u00e3o candidatos a prefeito, n\u00e3o comparecem \u00e0s sess\u00f5es deliberativas do Congresso. S\u00f3 se fazem presentes em dia de vota\u00e7\u00e3o importante e acham perfeitamente normal conciliar a campanha com a rotina parlamentar. A primeira semana de trabalho extra em julho foi prova inconteste dessas aus\u00eancias. Justi\u00e7a seja feita. Apenas o deputado Freire J\u00fanior optou por se licenciar das fun\u00e7\u00f5es na C\u00e2mara para ir atr\u00e1s dos eleitores nas ruas de Palmas. Os demais &#8212; e olhe que s\u00e3o dezenas &#8212; preferem ir levando do jeito que d\u00e1. Presente ou n\u00e3o, cada um desses vai levar 16 mil em julho s\u00f3 pelo trabalho no recesso de julho. Quer dizer, dinheiro para pagar deputado faltoso tem. Para a Sa\u00fade P\u00fablica, n\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>02. O ministro Adib Jatene exibiu um sorriso nunca visto ao ser informado que o seu imposto passou em primeira vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara. Foi uma vit\u00f3ria expressiva: 326 votos a favor, l44 contra e nove absten\u00e7\u00f5es. O governo sonha arrecadar algo em torno de 4,8 bilh\u00f5es de reais com a tal Contribui\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria sobre Movimenta\u00e7\u00e3o Financeira (CPMF). Com esse montante, h\u00e1 uma expectativa de<br \/>\nsalvar o atendimento m\u00e9dico-hospitalar em todo o Pa\u00eds.  <\/p>\n<p>03. Quem acredita nas boas inten\u00e7\u00f5es do ministro? Sabe-se, a bem da verdade, que o conceituado cirurgi\u00e3o, de renome internacional, Adib Jatene, \u00e9 um homem de conduta irrepreens\u00edvel e est\u00e1 pretendendo o melhor. No entanto, sabe-se tamb\u00e9m que, entre o imposto que vamos desembolsar e sua real aplica\u00e7\u00e3o na Sa\u00fade, h\u00e1 longos e sinuosos caminhos, digamos, regimentais, capazes de fazer nossa substancial contribui\u00e7\u00e3o se dissipar como por encanto. Um<br \/>\nencanto que, ali\u00e1s, acaba por beneficiar prospec\u00e7\u00e3o de po\u00e7os em terras de pol\u00edticos-latifundi\u00e1rios, projetos de irriga\u00e7\u00e3o que nunca se concluem, ferrovias que ligam o nada ao lugar-nenhum, hospitais-fantasmas que nunca saem do papel e outras tantas aplica\u00e7\u00f5es sociais que se sabe, mas nunca se v\u00ea. <\/p>\n<p>04. Algu\u00e9m, por acaso, sabe me dizer quais foram os resultados pr\u00e1ticos do IPMF (na verdade, o antecessor do CPMF), do empr\u00e9stimo compuls\u00f3rio da gasolina e das taxas sociais que aparecem sempre que h\u00e1 uma trag\u00e9dia por aqui? Como diria o poeta, s\u00e3o demais os perigos desses impostos que, invariavelmente, acabam por punir a todos para privilegiar uma pequena casta de privilegiados &#8212; e aqui vale a \u00eanfase pela repeti\u00e7\u00e3o. Nada vai mudar &#8212; esta \u00e9 dura verdade. Ser\u00e1 que, a partir de agora, estaremos livres de outras calamidades como a trag\u00e9dia hemodi\u00e1lise de Caruaru ou a da Cl\u00ednica Santa Genoveva?  <\/p>\n<p>05. Outro ponto que merece peculiar aten\u00e7\u00e3o. A aprova\u00e7\u00e3o do CPMF, certamente, trar\u00e1 reflexos mais negativos que positivos para a Economia. Alguns analistas de mercado acham que mesmo o Plano Real pode estar correndo um risco absolutamente desnecess\u00e1rio. Explica-se o racioc\u00ednio: o imposto tem alto teor inflacion\u00e1rio, o que n\u00e3o condiz com o discurso governamental pr\u00f3-estabilidade econ\u00f4mica. O impacto da nova taxa sobre os pre\u00e7os \u00e9 inevit\u00e1vel. Haver\u00e1 um custo maior para bens e servi\u00e7os. A taxa de juros para o tomador de empr\u00e9stimo dever\u00e1 subir, mas para o aplicador o rendimento l\u00edquido tende a cair. Com a eleva\u00e7\u00e3o dos juros, a d\u00edvida p\u00fablica tende a subir e ainda h\u00e1 os riscos de tangenciar as exporta\u00e7\u00f5es e afetar a d\u00e9bil balan\u00e7a comercial.  <\/p>\n<p>06. Quer dizer: estrangulou-se a Economia, submeteu-se os diversos segmentos da sociedade a duros sacrif\u00edcios, desemprego, fal\u00eancias, desest\u00edmulo ao mercado financeiro &#8212; e agora se joga tudo para os ares. E seja o que Deus quiser. O vice-presidente do Banco Pontual, Claudio Lellis, disse a frase que resume a semana: O governo fala muito em reduzir o Custo Brasil, mas o que acaba fazendo \u00e9 criar mais um imposto.  <\/p>\n<p>07. No mesmo dia em que a C\u00e2mara aprovou o CPMF para vigorar ainda neste ano, os deputados votaram a extin\u00e7\u00e3o do Instituto de Previd\u00eancia dos Congressistas. No entanto, essa medida s\u00f3 passa a vigorar daqui a tr\u00eas anos, em 99. Quanta generosidade&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01. A semana come\u00e7ou com a not\u00edcia que todos j\u00e1 sabiam. Os deputados federais, que s\u00e3o candidatos a prefeito, n\u00e3o comparecem \u00e0s sess\u00f5es deliberativas do Congresso. 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