{"id":10015,"date":"1996-08-01T00:00:00","date_gmt":"1996-08-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:30:20","modified_gmt":"2017-09-15T18:30:20","slug":"trombadinhas-de-todos-os-calibres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/trombadinhas-de-todos-os-calibres\/","title":{"rendered":"Trombadinhas de todos os calibres"},"content":{"rendered":"<p>01. O falante Chiquinho Caponaro, um dos mais renomados cabeleireiros da regi\u00e3o, chegou assustado ao campo do Uni\u00e3o M\u00fatua na manh\u00e3 de domingo. Ele saiu de sua resid\u00eancia, no Jardim da Sa\u00fade, para jogar um futebolzinho esperto com os amigos da Vila Carioca, uma pr\u00e1tica que mant\u00e9m h\u00e1 anos. Ao chegar no trevo do Sacom\u00e3, que est\u00e1 em obras, n\u00e3o teve como escapar do inevit\u00e1vel congestionamento, habitual mesmo nos finais de semana. Chiquinho n\u00e3o escapou tamb\u00e9m da a\u00e7\u00e3o de dois garotos que se aproximaram do carro e foram logo amea\u00e7ando: &quot;\u00d4 tio, vai passando tudo o que tem a\u00ed. N\u00e3o bobeia, n\u00e3o, que a gente est\u00e1 armado, falo&quot;. Enquanto falavam, escondiam uma das m\u00e3os sobre a manga do moleton, simulando empunhar um revolver.<br \/>\n&#8211;T\u00e1 vacilando muito, quer tomar um tiro?<br \/>\nPelo sim, pelo n\u00e3o, Chiquinho achou melhor entregar os 80 reais que trazia no bolso. Os trombadinhas sumiram em meio aos canteiros de obras. Ele ficou aliviado. V\u00e3o-se os an\u00e9is, ficam os dedos, filosofou.  <\/p>\n<p>02. Ao me narrar sua desventura, Chiquinho j\u00e1 manifestava, por\u00e9m, uma compreens\u00edvel indigna\u00e7\u00e3o. Os meninos n\u00e3o podiam ter mais do que 13, 14 anos e j\u00e1 estavam nessa vida. N\u00e3o lastimou o dinheiro perdido, mas o futuro incerto, dos garotos e de todos n\u00f3s. \u00c9 a lei da selva, cara. Chiquinho ficou mais arrasado ainda quando lhe contei que, diariamente, casos como o seu acontecem naquele e em outros pontos do Ipiranga. Por diversas vezes, nossa Gazeta do Ipiranga noticiou o fato, at\u00e9 em primeira p\u00e1gina. As respostas das autoridades para a quest\u00e3o batiam sempre na mesma tecla: falta de contingente, mesmo para policiar pontos cr\u00edticos da cidade. <\/p>\n<p>03. Na manh\u00e3 de segunda-feira, uma grata surpresa. Eu, Chiquinho e todos os paulistanos encontramos uma cidade absolutamente policiada. Em quase todos os cruzamentos, especialmente os de maior movimento de ve\u00edculos, duplas, trincas e at\u00e9 quartetos de policiais estavam ali postados, de prontid\u00e3o, para&#8230;multar &#8212; pois \u00e9, multar &#8212; os motoristas que ousassem burlar o rod\u00edzio de ve\u00edculos, imposto pelo Governo do Estado. De onde surgiram, tantos guardas? &#8212; era pergunta que todos se faziam. Por onde andavam quando trabalhadores, como o Chiquinho, e donas de casas s\u00e3o assaltadas nos cruzamentos, \u00e0 sa\u00edda das compras, nos parques e pra\u00e7as da supermetr\u00f3pole? O n\u00famero de multas aplicadas, por exercermos nosso inalien\u00e1vel direito de ir e vir, j\u00e1 superava a casa dos 30 mil at\u00e9 a amanh\u00e3 de ontem. Assim fica dif\u00edcil entender se o Governo \u00e9 por n\u00f3s ou est\u00e1 contra n\u00f3s&#8230; <\/p>\n<p>04. Esse grau de incompreens\u00e3o, digamos, popular se estende tamb\u00e9m \u00e0 \u00e1rea federal. A equipe econ\u00f4mica de FHC, vira-e-mexe, nos surpreende, temerariamente, com suas estrat\u00e9gias. Em tese, s\u00e3o ao nosso favor. Na pr\u00e1tica, um desastre. O Plano Real acabou com a infla\u00e7\u00e3o (\u00f3timo!), estabilizou a moeda (\u00f3timo!) e p\u00f4s fim a ciranda financeira (not\u00e1vel!). Mas, no bojo dessas conquistas, vieram as medidas recessivas, o dinheiro ralo, a queda do volume de neg\u00f3cios, inadimpl\u00eancia, recordes de fal\u00eancia, estagna\u00e7\u00e3o social e desemprego em massa. Outra pergunta: o que mudou para n\u00f3s? Continuamos \u00e0 deriva&#8230; <\/p>\n<p>05. Em julho, a taxa de juros do cheque especial superou os 14 por cento. Quem for ao banco buscar socorro financeiro vai encarar juros que batem nos 18 por cento. Agora, se voc\u00ea \u00e9 um desses poupadores ferrenhos &#8212; que pensa no futuro e cousa e lousa&#8230; &#8212; prepare o seu cora\u00e7\u00e3o. Nesse m\u00eas, seu rendimento ser\u00e1 de algo em torno de 1 por cento. Entendeu a ci\u00eancia? Voc\u00ea pegou emprestado, paga &#8212; vamos no barato &#8212; mais do que 10 de juros, certo? Voc\u00ea poupa &#8212; empresta ao banco &#8212; e recebe rendimento de 1 por cento, mas vai pagar tarifa banc\u00e1ria. \u00c9 por n\u00f3s ou est\u00e1 contra n\u00f3s&#8230; <\/p>\n<p>06. Respostas com FHC, Malan, Kandir, Covas, Feldman e Cia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01. O falante Chiquinho Caponaro, um dos mais renomados cabeleireiros da regi\u00e3o, chegou assustado ao campo do Uni\u00e3o M\u00fatua na manh\u00e3 de domingo. 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