{"id":10019,"date":"1996-10-04T00:00:00","date_gmt":"1996-10-04T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:27:57","modified_gmt":"2017-09-15T18:27:57","slug":"o-maluf-que-e-obra-de-maluf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-maluf-que-e-obra-de-maluf\/","title":{"rendered":"O Maluf que \u00e9 obra de Maluf"},"content":{"rendered":"<p>01. Repare, caro leitor. Antes mesmo da vota\u00e7\u00e3o de ontem, a elei\u00e7\u00e3o municipal paulistana teve um personagem principal: o prefeito Paulo Maluf. Mais do que qualquer outro candidato, o modo inconfund\u00edvel de Maluf administrar, tocando obras grandiosas e fazendo pol\u00edtica, deu a t\u00f4nica da campanha e o projetou, como virtual candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 98.<\/p>\n<p>02. Todos n\u00f3s sabemos bem. O prefeito gosta. Mas, faz charminho. Diz que precisa ouvir seus pares para se definir. H\u00e1 quem acredite piamente que Maluf est\u00e1 indeciso. N\u00e3o sabe se concorre a governador do Estado ou a presidente da Rep\u00fablica. Mas quem o conhece sabe bem: Bras\u00edlia sempre foi seu objetivo de vida.<\/p>\n<p>03. A obstina\u00e7\u00e3o de Paulo Maluf n\u00e3o \u00e9 de hoje. A bem da verdade, ele est\u00e1 nessa batalha a longos e longos anos. H\u00e1 mais de vinte, com certeza. Lembro-me, por exemplo, que, em meados de 76, Maluf e comitiva estiveram em Gazeta do Ipiranga. Ele, sorridente, dizia-se candidato a superintend\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o Comercial de S\u00e3o Paulo. No entanto, de seus amigos, ouvia-se coment\u00e1rios de que ele preparava uma surpresa para Laudo Natel, candidato oficial do Sistema, na corrida ao Governo de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>04. Dito e feito. Pela primeira vez, n\u00e3o se cumpriu \u00e0 vontade de Bras\u00edlia e a conven\u00e7\u00e3o da Arena de S\u00e3o Paulo transformou Maluf governador. Ele n\u00e3o se fez de rogado. Falou em mudar a Capital, encontrar petr\u00f3leo, viajou ao Oriente, distribuiu comendas e consagrou o jarg\u00e3o &quot;obra de Maluf&quot;. Desde os primeiros dias no Pal\u00e1cio dos Bandeirantes, sempre se soube qual era o motivo de tantas perip\u00e9cias: chegar \u00e0 presid\u00eancia.<\/p>\n<p>05. \u00c0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es de 82, novamente o s\u00e9q\u00fcito de Maluf circulou pelo Ipiranga e arredores. Seu estandarte agora anunciava a candidatura \u00e0 C\u00e2mara Federal. Sorridente, como de h\u00e1bito, beijou respeitosamente as senhoras e senhoritas, distribuiu abra\u00e7os e afagos e, de quebra, fez um sem n\u00famero de promessas. Todos estavam entusiasmados. Maluf teria mais de 500 mil votos e o passo seguinte &#8212; comemoravam os correligion\u00e1rios &#8212; era o Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>06. Como deputado federal, Maluf usou a estada em Bras\u00edlia para amealhar o maior n\u00famero poss\u00edvel dos convencionais do PDS que, \u00e0 \u00e9poca, ratificavam o nome do candidato a presidente da Rep\u00fablica no ent\u00e3o famigerado Col\u00e9gio Eleitoral. Mais uma vez, Maluf contrariou interesse oficiais e se imp\u00f4s como candidato \u00e0 Presid\u00eancia derrotando o ministro Mario Andreazza, o indicado do ent\u00e3o general presidente Jo\u00e3o Figueiredo.<\/p>\n<p>07. Neste ponto, por\u00e9m, seu plano de v\u00f4o deparou-se com o que se supunha imposs\u00edvel. A extraordin\u00e1ria mobiliza\u00e7\u00e3o popular pr\u00f3-diretas despertou a Na\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio da cidadania. Houve o racha entre o presidente Figueiredo e o vice Aureliano Chaves e a ades\u00e3o da dissid\u00eancia do PDS, capitaneada por Jos\u00e9 Sarney, \u00e0 candidatura de Tancredo Neves, plantada pelas for\u00e7as oposicionistas.<\/p>\n<p>08. A partir de ent\u00e3o, o malufismo viveu um momento obscuro. Paulo Maluf, apontado como representante maior do regime deposto, amargou sucessivas derrotas nas urnas: em 86 e 90, para governador; em 88, para prefeito e, em 89, para presidente da Rep\u00fablica. Seu projeto pessoal parecia haver se exaurido no limiar dos novos tempos que se preconizava para o Pa\u00eds.<\/p>\n<p>09. No entanto, em 92, eis que ressurge o mito Maluf. A vit\u00f3ria indiscut\u00edvel, nas urnas, o transformou em prefeito de S\u00e3o Paulo e, de pronto, resgatou o velho estilo. A cidade virou um canteiro de obras. Projetos vi\u00e1rios fara\u00f4nicos, piscin\u00f5es contra enchentes, Cingapura, P\u00e1s etc. Obras pol\u00eamicas que os advers\u00e1rios pol\u00edticos contestam, condenam. Maluf governa para os ricos. Faz tudo para se promover&#8211; afirmam.<\/p>\n<p>10. Os institutos de pesquisas, no entanto, revelam uma aprova\u00e7\u00e3o popular inquestion\u00e1vel. Cerca de 62 por cento dos entrevistados consideram sua administra\u00e7\u00e3o de boa para \u00f3tima. Poucos associam sua imagem aos tempos do arb\u00edtrio. H\u00e1 inclusive um l\u00eddimo representante da esquerda entre seus secret\u00e1rios. A pasta da Cultura \u00e9 de responsabilidade do jornalista Rodolfo Konder, ex-presidente do Comit\u00ea Internacional da Anistia no Brasil. Os tempos, convenhamos, mudaram. E Maluf, queiramos admitir ou n\u00e3o, \u00e9 um nome forte para a pr\u00f3xima campanha presidencial. Com ou sem reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01. Repare, caro leitor. Antes mesmo da vota\u00e7\u00e3o de ontem, a elei\u00e7\u00e3o municipal paulistana teve um personagem principal: o prefeito Paulo Maluf. 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