{"id":10040,"date":"1997-03-01T00:00:00","date_gmt":"1997-03-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:22:26","modified_gmt":"2017-09-15T18:22:26","slug":"a-dengue-e-o-dengo-da-reeleicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-dengue-e-o-dengo-da-reeleicao\/","title":{"rendered":"A dengue e o dengo da reelei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>01. Na ensolarada tarde de 12 de mar\u00e7o de 1996, o respons\u00e1vel pela Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica da nossa regi\u00e3o, doutor Katsumi Osiro, esteve na reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga para fazer um alerta. O Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, estava de volta. Sua presen\u00e7a fora detectada inclusive em algumas regi\u00f5es do Ipiranga. Insetos adultos e larvas foram encontrados no Moinho Velho e arredores do Jardim da Sa\u00fade. O fato &#8212; explicou o m\u00e9dico, na ocasi\u00e3o &#8212; n\u00e3o significa que estamos diante de uma epidemia da doen\u00e7a, mesmo porque, para infectar algu\u00e9m, o mosquito precisa ter o v\u00edrus. &quot;Nossa grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que esses focos n\u00e3o se propaguem para que n\u00e3o haja riscos futuros&quot;, ressaltou. Dr. Osiro queria contar, nessa luta, com o apoio da popula\u00e7\u00e3o. Para tanto, naquela mesma semana, em sua primeira p\u00e1gina, Gazeta do Ipiranga publicava o alerta do m\u00e9dico e todo o receitu\u00e1rio para identifica\u00e7\u00e3o do inseto e como evitar que ele se reproduzisse. Nas edi\u00e7\u00f5es seguintes e por todo o ano, esses cuidados foram republicados nas p\u00e1ginas de GI. Em contato com a Vigil\u00e2ncia, nossos rep\u00f3rteres eram informados que a situa\u00e7\u00e3o permanecia sob controle. Houve inclusive, em abril, uma blitz do Ex\u00e9rcito em Heli\u00f3polis para localiza\u00e7\u00e3o de novos focos e orienta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>02. Os cuidados do Doutor Osiro e da nossa comunidade, ao que parece, n\u00e3o foram levados a s\u00e9rio em \u00e2mbito nacional. O jornal Folha de S.Paulo trouxe como manchete no s\u00e1bado, dia 1\u00ba, o alerta da trag\u00e9dia iminente: &quot;Dengue avan\u00e7a e atinge 14 Estados&quot;. O teor da not\u00edcia d\u00e1 conta que 14 Estados brasileiros est\u00e3o sob amea\u00e7a de epidemia da doen\u00e7a &#8212; inclusive na forma hemorr\u00e1gica, varia\u00e7\u00e3o mais grave do que a dengue cl\u00e1ssica que exige interna\u00e7\u00e3o hospitalar e pode matar.<\/p>\n<p>03. Curioso este Brasil que literalmente parou para ver a reelei\u00e7\u00e3o passar. Este Brasil dos governantes e pol\u00edticos que posam de donos da modernidade e anunciam um futuro promissor desde que, \u00f3bvio, permane\u00e7am por mais um ou mais mandatos (nunca se sabe?) no Poder. Pois bem, o que dizem esses senhores n\u00e3o pode mesmo ser levado a s\u00e9rio. Imaginar que, em meio a t\u00e3o seleta discuss\u00e3o, pudessem considerar nossas mais prementes necessidades \u00e9 ingenuidade. No lugar de despender dinheiro e trabalho, tentando nos convencer, vias comerciais de TV, que a reelei\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o, eles bem que poderiam ter se empenhado duramente em deflagrar uma ampla campanha nacional de combate ao mosquito e orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Seria elementar, meu caro FHC. Era o que precis\u00e1vamos e o que n\u00e3o foi feito&#8230;<\/p>\n<p>04. Conv\u00e9m lembrar que, por duas ocasi\u00f5es, o Aedes foi considerado &quot;erradicado&quot; de todo o territ\u00f3rio nacional. Isso ocorreu num tempo em que nossa Medicina (ou pelo menos alguns significativos setores) n\u00e3o possu\u00eda a excel\u00eancia de hoje em dia e que nossa vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria tamb\u00e9m n\u00e3o dispunha dos equipamentos e centros de pesquisa que hoje disp\u00f5e. \u00c9 evidente que esses centros, de efici\u00eancia comprovada, contrastam com a mis\u00e9ria insuport\u00e1vel da sa\u00fade p\u00fablica no Pa\u00eds. Basta lembrar as trag\u00e9dias dos hospitais de Caruaru, a morte de velhinhos em pseudas casas de sa\u00fade do Rio e o notici\u00e1rio di\u00e1rio dos horrores que hoje vivem os hospitais e pronto-socorros n\u00e3o particulares.<\/p>\n<p>05. Os olhos e a mente de nossos governantes e pol\u00edticos deveriam estar voltados para essa quest\u00e3o. Todos sair\u00edamos ganhando. Afinal, a sa\u00fade \u00e9 o bem maior de todo e qualquer cidad\u00e3o. Agindo nessa frente, em nome do bem comum, n\u00e3o seria necess\u00e1rio tanto proselitismo e conchavos para ver a emenda da reelei\u00e7\u00e3o aprovada&#8230; Toda a Na\u00e7\u00e3o se faria ouvir espontaneamente para que o presidente permanecesse por mais um mandato. O povo n\u00e3o \u00e9 bobo. Quem n\u00e3o quer um governante em sintonia com os verdadeiros anseios populares.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01. 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