{"id":10047,"date":"1997-05-01T00:00:00","date_gmt":"1997-05-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:18:35","modified_gmt":"2017-09-15T18:18:35","slug":"o-etrapalhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-etrapalhao\/","title":{"rendered":"O ETrapalh\u00e3o&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>01. Imagine se um desses misteriosos ETs aportasse por essas plagas e disfar\u00e7ado de human\u00f3ide tentasse descobrir como vivem, o que fazem e quem s\u00e3o os brasileiros, esse povo multifacetado, por ra\u00e7as e credos, que habita uma terra aben\u00e7oada, com inquestion\u00e1vel potencial para chegar ao Terceiro Mil\u00eanio como a Na\u00e7\u00e3o mais poderosa do Planeta. Caso o relat\u00f3rio da criatura fosse baseado unicamente naquilo que se l\u00ea nos jornais e v\u00ea na TV, d\u00e1 para se prever o quanto de perplexidade e incongru\u00eancias reuniria o tal documento intergal\u00e1tico. A cada semana, de posse de not\u00edcias fresquinhas, o chef\u00e3o l\u00e1 de n\u00e3o-sei-onde teria a n\u00edtida impress\u00e3o de que j\u00e1 se fazia hora de trocar o enviado especial em fun\u00e7\u00e3o das barbaridades que insistia em relatar. &quot;Esse andr\u00f3ide anda criativo demais ou esse Pa\u00eds n\u00e3o tem jeito, n\u00e3o&quot; &#8212; confessaria o N 1 aos seus intrincados transistores.<\/p>\n<p>02. E o pobre human\u00f3ide n\u00e3o teria feito nada mais do que relatar a verdade. Determinados elementos pertencentes aos quadros da institui\u00e7\u00e3o convocada a proteger a popula\u00e7\u00e3o, contra o crime cada vez mais organizado, resolveram agredir e humilhar cidad\u00e3os comuns. Uma dessas viola\u00e7\u00f5es constatadas em Diadema (S\u00e3o Paulo) acabou gerando o chamado efeito domin\u00f3. Outras tantas den\u00fancias, do mesmo quilate de autoritarismo, se sucederam por todo o Pa\u00eds. Antes disso, j\u00e1 havia tentado explicar as negociatas financeiras de uma abstra\u00e7\u00e3o chamada &quot;precat\u00f3rio&quot;, que levava um mund\u00e3o de dinheiro dos cofres p\u00fablicos para as contas banc\u00e1rias de alguns privilegiados. O chefe j\u00e1 havia ralhado com ele, pedindo mais clareza no texto e insistindo para que n\u00e3o fosse negligente e detalha-se o cap\u00edtulo das puni\u00e7\u00f5es. Afinal, desse enredo todo, era o item mais importante &#8212; e todos (inclusive ele, o chef\u00e3o) deveriam estar querendo saber quem eram os culpados e quais as penas.<\/p>\n<p>03. O ET n\u00e3o fora programado para inventar. Por isso, nada p\u00f4de dizer. Sabe que a barra l\u00e1 em cima ficou um pouco assim-assim. Mas, que fazer? Pior foi tentar explicar as idas-e-vindas do leil\u00e3o da Vale do Rio Doce. Identificar quem era contra, quem era a favor; quais os interesses desses e daqueles e como, no final das contas, todos queriam levar vantagem com a maior mineradora do Planeta. At\u00e9 o an\u00fancio oficial da venda, com direito a fotografia do cheque bilion\u00e1rio na imprensa, ningu\u00e9m l\u00e1 nos confins de onde veio, queria acreditar na patuscada, na pantomima que escrevia. &quot;Que Pa\u00eds \u00e9 esse?&quot;&#8211; perguntava o N 1, dando soco na mesa.<\/p>\n<p>04. Olha, quando os deputados federais se pegaram a socos e pontap\u00e9s no Congresso, achou melhor anexar aos documentos uma fita de v\u00eddeo, identificando a balb\u00fardia e, mais especialmente, o objeto estridente que as insignes figuras levaram \u00e0 boca para dele (objeto) extrair um ru\u00eddo insuport\u00e1vel. &quot;Tal manifesta\u00e7\u00e3o &#8212; ressaltou, com letras mai\u00fasculas &#8212; denominou-se APITA\u00c7O e provocou a paralisa\u00e7\u00e3o dos trabalhos naquele dia&quot;. Como narrar que, na manh\u00e3 do dia seguinte, todos sentaram a mesma mesa e alegremente acertaram a continuidade da vota\u00e7\u00e3o da tal reforma, que se arrasta h\u00e1 anos e anos?<\/p>\n<p>05. Semana passada, fez hora extra. Trabalhou at\u00e9 de madrugada para repassar os processos indenizat\u00f3rios da comarca de S\u00e3o Luiz do Maranh\u00e3o. Um deles chegava a 216 milh\u00f5es de reais e o tal magistrado que determinou a senten\u00e7a mandou arrombar o cofre do Banco do Brasil. E mais: n\u00e3o tirava um centavo da senten\u00e7a. Que horror. De quebra, ainda escreveu sobre o esc\u00e2ndalo na Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol, onde o chef\u00e3o da comiss\u00e3o das arbitragens exigia descaradamente propina para sua futura campanha para deputado federal. Puxa, ningu\u00e9m na CBF sabia do que estava ocorrendo? Ele mesmo fez \u00e0s vezes do chefe checando a informa\u00e7\u00e3o que acabara de ler.<\/p>\n<p>06. Nesta semana, viu todo o seu trabalho perdido. A Justi\u00e7a maranhense baixou a indeniza\u00e7\u00e3o para algo em torno de 25 mil reais e o senhor Ives Mendes, denunciado como corruptor, n\u00e3o compareceu ao Superior Tribunal de Justi\u00e7a Desportiva e, mais, deu entrada num processo para saber quem &quot;grampeou&quot; seu telefone&#8230; E o que seria o tal c\u00f3digo um, zero, zero&#8230;<\/p>\n<p>07. Agora, o nosso ET anda se consumindo em pesquisas sobre outra den\u00fancia. A Folha de S.Paulo deu o &quot;furo&quot;: deputados receberam at\u00e9 200 mil reais para votar a favor da reelei\u00e7\u00e3o. Uma vergonha que n\u00e3o sabe como passar ao seu superior. Teme que, antes da not\u00edcia chegar por l\u00e1, aconte\u00e7a um desmentido por aqui. O pr\u00f3prio presidente FHC (ali\u00e1s, um nome parecido com o que costumam usar por l\u00e1) pediu rigor nas investiga\u00e7\u00f5es que, entre os iguais brasileiros, j\u00e1 se comenta: n\u00e3o vai dar em nada. Ali\u00e1s, para ser franco, anda estranhando os nativos. Eles demonstram maior preocupa\u00e7\u00e3o com o campeonato de futebol do que as coisas l\u00e1 de Bras\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>08. Algumas certezas, o nosso her\u00f3i tem. Pelo que apurou e descreveu, nossa gente est\u00e1 sem Governo e ao abandono h\u00e1 s\u00e9culos. Andam distante tamb\u00e9m de algo que se convencionou chamar de &quot;consci\u00eancia pol\u00edtica e cidadania&quot;. Mais: n\u00e3o h\u00e1 chance de uma eventual invas\u00e3o alien\u00edgena. Confus\u00e3o por confus\u00e3o, bastam as interestelares, com direito a aster\u00f3ides, cometas errantes e planetas obscuros.<\/p>\n<p>09. De resto, n\u00e3o vai sequer citar o epis\u00f3dio desta semana. Representantes dos pequenos agricultores invadiram o Minist\u00e9rio do Planejamento num protesto contra juros altos dos empr\u00e9stimos banc\u00e1rios. Dizer que um bicho chamado &quot;peru&quot;, de fisionomia estranha, ocupou a mesa do ministro Ant\u00f4nio Kandir seria demais. Daria um tilte no pessoal l\u00e1 de cima e, muito prov\u00e1vel, diriam que ele estava brasileiramente contagiado e o esqueceriam por aqui&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01. 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