{"id":10078,"date":"2003-04-17T00:00:00","date_gmt":"2003-04-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:09:13","modified_gmt":"2017-09-14T17:09:13","slug":"cronica-de-um-tempo-triste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/cronica-de-um-tempo-triste\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica de um tempo triste&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Meu cora\u00e7\u00e3o tem mania de amor&quot; (Paulinho da Viola)<\/p>\n<p>01. J\u00e1 escrevi aqui, neste espa\u00e7o, sobre a perplexidade do tempo em que se vive. Vez ou outra, n\u00e3o resisto e retomo essa tem\u00e1tica. Ainda no s\u00e1bado \u00e0 noite, assisti encantado \u00e0 pr\u00e9-estr\u00e9ia do document\u00e1rio sobre a vida do cantor e compositor Paulinho de Viola, intitulado &quot;Meu Tempo \u00c9 Hoje&quot; e me surpreendi, mais uma vez, com o correr do tempo, esse enigm\u00e1tico senhor de todos os destinos. As cenas do filme, que deve entrar em circuito comercial em junho, acoplam imagens dos mais antigos dos anos e de hoje, os sons eternos de Pixinguinha e outros tantos iluminados senhores da MPB aos acordes de Rafael, filho de Paulinho. Ele toca viol\u00e3o \u00e0 moda antiga, do jeito do av\u00f4 Paulo C\u00e9sar Faria. \u00d3bvio que Paulinho repassa as grandes can\u00e7\u00f5es de sua carreira que d\u00e3o o tom nost\u00e1lgico de todo o document\u00e1rio. Fazem mais: nos deixam indignados com o tanto que nossa juventude est\u00e1 perdendo em termos de identidade cultural ao se afastar de valores genuinamente brasileiros, como os que caracterizam a obra de Paulinho e de outros tantos artistas nacionais, em nome de bobagens idiotizantes que despeja sobre n\u00f3s a chamada ind\u00fastria do consumo.<\/p>\n<p>02. Lembro que ainda no in\u00edcio dos anos 70, quando Paulinho se consagrou com o samba &quot;Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida&quot;, viv\u00edamos o redescobrimento do per\u00edodo ditatorial. Mesmo assim \u00e9ramos um povo com maior personalidade e tamb\u00e9m com maior fervor em se dizer brasileiro. Acredit\u00e1vamos no Pa\u00eds, mesmo sob o tac\u00e3o de um regime autorit\u00e1rio. L\u00e1 pela virada dos anos 80, quando os novos sonhos de toda a gente puseram abaixo o Muro de Berlim, n\u00f3s, sob os tr\u00f3picos, acalent\u00e1vamos a esperan\u00e7a da consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Inclusive amea\u00e7\u00e1vamos, neste sentido, com a distens\u00e3o &quot;lenta e gradual&quot; engendrada pelo general Golbery do Couto e Silva. Curioso como alguns simples acordes de um velho samba levam-me a essas reflex\u00f5es. Talvez porque naqueles tempos, mesmo sem saber, repet\u00edamos o gesto do velho marinheiro que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar. Sonh\u00e1vamos.<\/p>\n<p>03. O fim da muralha que dividia a Alemanha, acreditava eu, representava o fim de todo e qualquer preconceito, de toda e qualquer discrimina\u00e7\u00e3o; o horizonte aberto para a almejada paz universal. Aqui, em terra p\u00e1tria, o \u00f3bvio era que com a democracia bendita tamb\u00e9m viria, autom\u00e1tica e espontaneamente, a justi\u00e7a social, a igualdade, o fim de todos os males que afligiam os brasileiros. Era por isso que sa\u00edamos, ruas e pra\u00e7as afora, caminhando e cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o que nos unia e nos fazia melhor.<\/p>\n<p>04. Parecia t\u00e3o simples, repito. Havia um n\u00edtido divisor de \u00e1guas. Havia o bem e o mal. Quem n\u00e3o era por n\u00f3s era contra n\u00f3s. Simples e pr\u00e1tico. O fim do muro e do comunismo, que dava sinais de exaust\u00e3o por toda a Europa, n\u00e3o redimia os governos ocidentais de suas mazelas e fragilidades. Mas, projetava uma nova ordem mundial, baseada na valoriza\u00e7\u00e3o do homem como cidad\u00e2o. No Brasil, a ditadura era s\u00edmbolo de todas afli\u00e7\u00f5es sociais &#8211; e tamb\u00e9m, aqui, havia claras evid\u00eancias que n\u00e3o resistiria por muito tempo. Portanto, fazia-se a luz&#8230;<\/p>\n<p>05. Era, na verdade, quest\u00e3o de n\u00e3o perder a oportunidade. E, olha, para ser franco, era mais dif\u00edcil escolher entre um All Star cano longo ou cano curto do que propriamente imaginar que algo poderia dar errado. P\u00f4xa, essa gera\u00e7\u00e3o batalhou tanto desde 1968, o ano que n\u00e3o devia terminar. Enfrentou as diversas formas de repress\u00e3o, fez a Revolu\u00e7\u00e3o dos Costumes, andou por sonhos e devaneios, Hair e Woodstock, virou o mundo pelo avesso em nome da paz e do amor. Era mais do que hora. Tanto l\u00e1 como c\u00e1 ser\u00edamos felizes, enfim. Um ousado jingle celebrou vit\u00f3ria &#8212; e simplificou demais todas as quest\u00f5es. Liberdade \u00e9 uma cal\u00e7a velha, azul e desbotada.<\/p>\n<p>06. As cenas que hoje presenciamos no Iraque &#8212; e porque n\u00e3o, nas ruas de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro? &#8212; comprovam que, em algum lugar desse passado recente, perdemos o fio da meada da reconstru\u00e7\u00e3o social. Trocamos a universaliza\u00e7\u00e3o (que traria embutida a preserva\u00e7\u00e3o de uma sociedade humanista) pela globaliza\u00e7\u00e3o que privilegia \u00fanica e exclusivamente o lucro pelo lucro, o poder pelo poder. Trocamos tamb\u00e9m, e principalmente, a no\u00e7\u00e3o de que para se construir esse mundo novo \u00e9 preciso ser &#8212; e n\u00e3o apenas ter. Ali\u00e1s, as cenas dos saques em Bagd\u00e1 s\u00e3o emblem\u00e2ticas dessa realidade. Nem a trag\u00e9dia da guerra perdida, da p\u00e1tria dilacerada, foi capaz de neutralizar a a\u00e7\u00e3o do possuir como prova inconteste de felicidade.<\/p>\n<p>07. O meu car\u00edssimo leitor deve estar me achando &quot;viajand\u00e3o&quot;. Comecei falando de Paulinho da Viola, tangenciei os tempos do Brasil ditatorial, passei pelo Muro de Berlim, lembrei do velho e confort\u00e1vel All Star e acabei na Guerra do Iraque. Mas, convenhamos, todos somos produtos das circunst\u00e2ncias e do tempo em que vivemos. E esse, mesmo com o d\u00f3lar em baixa e o presidente-oper\u00e1rio, \u00e9 um tempo triste. Mesmo assim, ressalto aqui, nunca \u00e9 demais preservar valores como fraternidade, respeito, \u00e9tica e todas as formas de amar. Ah!, se puder acrescente um jeito seu de andar pela vida. E sempre que poss\u00edvel ou\u00e7a um velho samba de Paulinho da Viola.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Meu cora\u00e7\u00e3o tem mania de amor&quot; (Paulinho da Viola)<\/p>\n<p>01. J\u00e1 escrevi aqui, neste espa\u00e7o, sobre a perplexidade do tempo em que se vive. 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