{"id":10081,"date":"2005-09-11T00:00:00","date_gmt":"2005-09-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T20:02:52","modified_gmt":"2017-09-15T20:02:52","slug":"uma-historia-paulistana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/uma-historia-paulistana\/","title":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria paulistana"},"content":{"rendered":"<p>(* Fernando Cassaro)<\/p>\n<p>Um dia de semana qualquer, por volta das 21h30. Voltava para Guaianases. Sa\u00eda da Vila Matilde e, para variar um pouquinho, tinha de pegar um \u00f4nibus lotado. O 3686-10, Jardim S\u00e3o Paulo, vindo do Parque D. Pedro, costuma ficar cheio em qualquer dia da semana e em qualquer hor\u00e1rio.  Fiquei um tempo em p\u00e9. Ao menos tinha uma morena maravilhosa de saia, t\u00edpica vestimenta de quem foi at\u00e9 alguma igreja e retornava pra casa feliz do bate-papo, em alto e bom som, com Deus. Mas era linda&#8230; <\/p>\n<p>Liberou uma vaga em um banco pr\u00f3ximo e sento. Sem ter o que fazer e chegando em Artur Alvim, comecei a prestar aten\u00e7\u00e3o em um mon\u00f3logo dois bancos para tr\u00e1s.  Uma mulher, nordestina com certeza, poucos dentes na boca, mais precisamente na arcada inferior, reclamava muito. Dizia que tinha de levar o garoto, sentado ao lado dela, para Guaianases. Trabalhava de dia e de noite e ainda teria de voltar para casa. S\u00f3 iria chegar por volta da meia-noite.  Sem parar de reclamar, come\u00e7ou a comentar para quem quisesse ouvir e n\u00e3o.<br \/>\nEla acabara de encontrar um garoto, de apenas oito anos, na porta de casa, em Itapecerica da Serra, h\u00e1 mais de 50 Km de dist\u00e2ncia. Deu comida, conversaram e ele disse que a fam\u00edlia morava em Guaianases. <\/p>\n<p>Como foi parar t\u00e3o longe? <\/p>\n<p>Simples de explicar, complicado de entender. Aprontou uma arte e a m\u00e3e disse que ia mat\u00e1-lo. Ele levou muito a s\u00e9rio a hist\u00f3ria e saiu para rua de terra, h\u00e1 poucos metros do Hospital Geral do bairro. Passaram dois garotos de rua, um de 11 e outro de 17 anos, e o baixinho resolveu desabafar. Eles o incentivaram a fugir de casa e o  menininho levou a s\u00e9rio. Pegou um \u00f4nibus e foi embora. Andou pelo centro da cidade durante cerca de 20 dias e sem a companhia dos outros dois. Dormiu em pra\u00e7as, ruas e at\u00e9 na frente do Extra da avenida Brigadeiro Luiz Ant\u00f4nio. Prova das andan\u00e7as foram tiradas de uma sacola de pl\u00e1stico amarelo na m\u00e3o da boa samaritana (n\u00e3o perguntei o nome dela, desculpem): uma bermuda e uma malha surradas e imundas.  <\/p>\n<p>E o garoto nem a\u00ed. S\u00f3 queria voltar a estudar para rever os coleguinhas. A essa altura, a como\u00e7\u00e3o j\u00e1 tomava conta do \u00f4nibus e a mulher, que antes incomodava com o falat\u00f3rio, tinha virado estrela. Todos come\u00e7aram a reconhecer aquele rosto sonolento, inclusive este escriba (homenagem ao grande guru). Aquela face estava afixada em todos os \u00f4nibus, vans, padarias, pizzarias e, claro, no hospital com um apelo da fam\u00edlia por qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre o paradeiro da crian\u00e7a.  <\/p>\n<p>De tanto olharem para aquele garotinho franzino, ele come\u00e7ou a abrir os olhinhos e olhar para todos os lados. Deve ter se sentido um alien\u00edgena. Uma vizinha, depois de prestar mais aten\u00e7\u00e3o, reconheceu o garoto e disse que a m\u00e3e dele chorava todos os dias. <\/p>\n<p>Como a m\u00e3e ia se sentir ao encontrar o pequeno?  Armaram uma opera\u00e7\u00e3o de guerra. Era melhor chamar o pai e avis\u00e1-lo sobre o presente desse domingo marcado por uma data tr\u00e1gica. A m\u00e3e poderia n\u00e3o ag\u00fcentar&#8230;  Desci junto com eles no ponto. \u00c9 perto da minha casa (todas as desgra\u00e7as acontecem aqui ultimamente) e me disseram que faz bem andar um pouco. Observei o pai aparecendo e, n\u00e3o sei o porqu\u00ea, n\u00e3o quis ver a m\u00e3e do mocinho. Com certeza, ela n\u00e3o ia mat\u00e1-lo. <\/p>\n<p>O que motivou aquela mulher a dar comida a um garoto, ouvir a hist\u00f3ria dele e andar mais de 50 Km dentro de, no m\u00ednimo, dois \u00f4nibus? Com certeza, ela j\u00e1 deve ter passado muita necessidade no lugar de onde ela veio e teria todos os motivos para dizer um grande &quot;foda-se&quot;. Ela s\u00f3 quis ajudar o menino. S\u00f3. Esperando nada em troca. Acho que essa hist\u00f3ria, acompanhada anonimamente em tempo real e n\u00e3o recuperada, poderia sair em algum jornal. E o que fiz depois disso? Nada. Sentei minha bunda aqui na cadeira e escrevi para voc\u00eas, meus \u00fanicos leitores. Azar o de voc\u00eas. N\u00e3o quis ligar para o jornal e, pela en\u00e9sima vez, ouvir que eles n\u00e3o pagam frila aqui em S\u00e3o Paulo ou, ent\u00e3o, ouvir o editor dizer que s\u00f3 pega mat\u00e9ria se puder pagar e que d\u00e1 prefer\u00eancia aos tr\u00eas estagi\u00e1rios da editoria. Apenas escrevi. Quis contar essa hist\u00f3ria para voc\u00eas. Faltam detalhes que n\u00e3o  perguntei, mas isso n\u00e3o \u00e9 um jornal e acho que est\u00e1 bom. Grande abra\u00e7o a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(* Fernando Cassaro)<\/p>\n<p>Um dia de semana qualquer, por volta das 21h30. Voltava para Guaianases. 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