{"id":10089,"date":"2001-09-06T00:00:00","date_gmt":"2001-09-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T21:41:52","modified_gmt":"2017-09-14T21:41:52","slug":"a-caminho-da-redacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-caminho-da-redacao\/","title":{"rendered":"A caminho da Reda\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&quot;N\u00e3o sou quem me carrega\/ Quem me carrega \u00e9 o mar\/ \u00c9 ele quem me carrega\/ Como nem fosse levar&#8230;&quot; (Paulinho da Viola)<\/p>\n<p>01. Manh\u00e3 de ontem. Como de h\u00e1bito, saio atrasado da Universidade Metodista, em Rudge Ramos. Passam alguns minutos das 9 horas, e eu j\u00e1 devia estar na Reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga para o bate-final da edi\u00e7\u00e3o que agora est\u00e1 em suas m\u00e3os. Embico o carro pela marginal da via Anchieta e, embalado pela m\u00fasica de Milton Nascimento, nem me dou conta do tamanho do congestionamento que vou enfrentar nos pr\u00f3ximos 50 minutos at\u00e9 passar em frente ao Col\u00e9gio Modelo, j\u00e1 no trecho urbano da Anchieta, onde uma viatura da Pol\u00edcia Militar sinaliza que algo de errado aconteceu por ali &#8212; um acidente talvez &#8212; mas, j\u00e1 n\u00e3o resta o menor vest\u00edgio. E, seja o que for que tenha acontecido, consagra-se a velha m\u00e1xima: e a vida continua&#8230;<\/p>\n<p>02. Conviver com a rotina dos congestionamentos, \u00e9 sempre bom lembrar, n\u00e3o \u00e9 novidade para quem vive em S\u00e3o Paulo e, como eu, ganha o suado sustento na rota S\u00e3o Bernardo\/Ipiranga; vez ou outra indo dar com os costados em outras paragens. Lembro que no primeiro semestre, a prop\u00f3sito de participar do semin\u00e1rio &quot;Dialogando com a Sociedade&quot;, topei com duas horas de tr\u00e2nsito congestionado at\u00e9 chegar \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo. Foram outras duas horas e trinta para retornar \u00e0 S\u00e3o Bernardo, onde os alunos, pela primeira vez, chegaram antes que o professor. N\u00e3o preciso dizer que, com a irrever\u00eancia que lhes \u00e9 saudavelmente peculiar, saudaram a minha chegada com vaias, apupos e coment\u00e1rios do tipo assim-n\u00e3o-d\u00e1, vai ficar com falta&#8230;<\/p>\n<p>03. De volta ao presente e na busca de tentar recuperar o tempo perdido, dou jeito de mentalizar os assuntos que poderiam pautar o Caro Leitor de hoje. Mas, uma cena me rouba a concentra\u00e7\u00e3o. Um pouco depois do pr\u00e9dio da Uniban (a antiga Ford), vejo dois carros emparelhados \u00e0 minha frente. Os motoristas buzinam, gesticulam, se falam&#8230; Imagino: vem confus\u00e3o por a\u00ed. O anda-e-p\u00e1ra est\u00e1 insuport\u00e1vel. O que me falta agora \u00e9 ver dois marmanjos se pegando por alguns milimetros a mais de asfalto rodado&#8230;<\/p>\n<p>04. Ai, ai, ai&#8230;O senhor do Civic vai para o acostamento, no que \u00e9 imediatamente seguido pelo mo\u00e7o da caminhonete que, perdoe-me leitor, n\u00e3o consigo identificar. Tamb\u00e9m \u00e9 s\u00f3 um detalhe que n\u00e3o importa. Importa, sim, o grande abra\u00e7o que ambos trocam sob os olhares surpresos de todos que passam. D\u00e1 para entender que s\u00e3o velhos amigos que h\u00e1 tempos n\u00e3o se viam. Reparo que o semblante de felicidade de ambos destoa profundamente da express\u00e3o dos outros motoristas que, cada qual com seu justo motivo, maldizem o engarrafamento (ainda hoje n\u00e3o entendi essa palavra para de descrever um tr\u00e2nsito lento) que atrasa e confunde compromissos pelo resto do dia.<\/p>\n<p>05. N\u00e3o consigo retomar o prumo dos assuntos que fizeram o notici\u00e1rio da semana &#8212; amplamente dominado, diga-se, pelas cenas cinematogr\u00e1ficas vividas pelo apresentar Silvio Santos na vida real. A coluna n\u00e3o pode ficar sem assunto. Mas, rever velhos e bons amigos \u00e9 sempre um raro privil\u00e9gio. Tenho uma lista deles que, justamente, esses dias enredados em obriga\u00e7\u00f5es e trabalho acabaram por afastar, mesmo contra nossa vontade. \u00c9 a roda-viva que Chico Buarque consagrou em forma de can\u00e7\u00e3o nos idos dos efervescentes anos 60. N\u00e3o \u00e9 vergonha confessar que, apesar de todos nossos ideais, n\u00e3o t\u00ednhamos nitidamente clara o tipo de sociedade que est\u00e1vamos construindo e o custo que teria para nossa qualidade de vida&#8230;<\/p>\n<p>06. Ali, pelas imedia\u00e7\u00f5es da Vila Arapu\u00e1, outra cena ins\u00f3lita. Um Ka parado no meio da pista complica ainda mais o que j\u00e1 n\u00e3o anda bem. Ao redor, um policial rodovi\u00e1rio empunha o bloco de multa e, com impon\u00eancia, configura a infra\u00e7\u00e3o. O motorista tenta inultimente defender-se. Pelo que pude entender &#8212; e a linguagem dos gestos felizmente \u00e9 universal &#8212; o rapaz vinha pelo acostamento, pois iria entrar \u00e0 direita; ali onde existe uma f\u00e1brica\/loja de lustres. Mas, qual o qu\u00ea, n\u00e3o me venha com jurumelas. Tome multa! Tome pontos perdidos na carteira! Tenho certeza: o motorista pode argumentar o tempo que quiser que dessa ele n\u00e3o escapa. Nos rigores da lei, embora um pouco de bom-senso ali n\u00e3o seria pedir demais.<\/p>\n<p>07. N\u00e3o sei por que. Mas, acho que tomei as dores do rapaz do Ka e o meu humor virou tal e qual a temperatura em S\u00e3o Paulo. Essa ind\u00fastria da multa est\u00e1 de lascar. J\u00e1 come\u00e7o a ruminar eternos rancores. A fala do presidente. As contas no exterior do Maluf. As CPIs, a viol\u00eancia urbana, o futebolzinho ruim que se v\u00ea na TV, o d\u00f3lar na estratosfera, o desemprego, a vida pelo avesso&#8230; Ainda bem que tr\u00e2nsito come\u00e7a a fluir e, para sua alegria, caro leitor, o espa\u00e7o da coluna acabou&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;N\u00e3o sou quem me carrega\/ Quem me carrega \u00e9 o mar\/ \u00c9 ele quem me carrega\/ Como nem fosse levar&#8230;&quot; (Paulinho da Viola)<\/p>\n<p>01. Manh\u00e3 de ontem. 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