{"id":10097,"date":"1999-10-15T00:00:00","date_gmt":"1999-10-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T02:54:08","modified_gmt":"2017-09-15T02:54:08","slug":"a-esperanca-que-habita-o-parque-centenario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-esperanca-que-habita-o-parque-centenario\/","title":{"rendered":"A esperan\u00e7a que habita o Parque centen\u00e1rio&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Um suspiro para o que foi. Um sorriso para o que ser\u00e1&#8230; Eis a vida&quot; (Paul Bourget)<\/p>\n<p>01. Foi um feriado diferente o desta ter\u00e7a-feira (12), no Parque da Aclima\u00e7\u00e3o. Uma programa\u00e7\u00e3o especial do Cartoon Network reuniu a garotada para muitas brincadeiras em pleno Dia das Crian\u00e7as. At\u00e9 que S\u00e3o Pedro ajudou, fez bom tempo e os pequeninos puderam se esbaldar em jogos e divers\u00f5es com os her\u00f3is preferidos da TV. L\u00e1 estavam o Scoobydoo e sua turma, a Didi, o Dexter e outras cria\u00e7\u00f5es da Hanna Barbera que encantam e os fazem viajar em sonhos e estripulias. Todos saudaram o 107\u00ba anivers\u00e1rio do parque, tombado em 86 pelo Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico&#8230;<\/p>\n<p>02. Houve um personagem, por\u00e9m, que nenhum garoto notou. Andou por ali desapercebido um certo senhor de ar cansado e pensamentos dispersos. Em meio \u00e0quela algazarra, o homem n\u00e3o resistiu \u00e0 tristeza que nele se fez h\u00e1bito. Sentou-se num velho banco de frente para o lago e suavemente deixou-se levar, t\u00fanel do tempo afora, para meados dos anos 60. Aportou, como uma dessas figuras m\u00e1gicas dos desenhos, no ancoradouro do ent\u00e3o lago de \u00e1guas serenas (e razoavelmente limpas) do Parque.<\/p>\n<p>03. L\u00e1, encontra o garoto sardento, de cal\u00e7a rancheira FarWest (cal\u00e7\u00e3o por baixo, para eventuais mergulhos), conga azulzinho e camisa esgar\u00e7ada, pronto para o que der e vier. A aula no Grupo Escolar Oscar Thompson j\u00e1 ficou para tr\u00e1s (pela manh\u00e3, o tempo passa mais r\u00e1pido) e agora s\u00f3 espera chegar o resto do pessoal para um racha no barranc\u00e3o, aquele terreno amplo atr\u00e1s do campo de futebol. Algu\u00e9m falou em bola de capot\u00e3o. Um luxo inimagin\u00e1vel para a garotada pobre da Muniz de Souza e arredores. Tr\u00eas times, no m\u00ednimo. Quem ganha, fica. Quem perde, espera vez. Todo mundo descal\u00e7o, n\u00e3o h\u00e1 tampa de ded\u00e3o que resista intacta, ralando at\u00e9 escurecer&#8230; \u00d4 jeito bom de levar a vida&#8230;<\/p>\n<p>04. H\u00e1 sempre uma aventura a ser vivida na pr\u00f3xima esquina. Pode ser a estrepitosa estr\u00e9ia do filme Help no cine Riviera. Ou mesmo os empolgantes<br \/>\npegas de carrinho de rolem\u00e3, ladeira abaixo na Dom Duarte Leopoldo. Alguns preferem as intermin\u00e1veis fam\u00edlias na mesa de ping-pong na sede do glorioso Santos Futebol Clube do Cambuci. Mas, o ponto de encontro \u00e9 sempre o Parque da Aclima\u00e7\u00e3o. Ali, aos domingos na Concha Ac\u00fastica, os batuqueiros da Imp\u00e9rio do Cambuci re\u00fanem-se para cantar velhos e inesquec\u00edveis sambas de Ata\u00falfo Alves. Fazem um baticum mais cadenciado que sei l\u00e1 por onde e sei l\u00e1 porqu\u00ea repercutem no fundo d\u2019alma e cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>05. Vislumbra-se um encanto, algo acima do bem ou do mal, acima dos Beatles ou dos emergentes Rolling Stones. Lembra que, por essa \u00e9poca, pela primeira vez, sente a garganta embargada por um n\u00f3 ao ouvir uma can\u00e7\u00e3o dolente. Os versos falam em jogo de bot\u00e3o pela cal\u00e7ada e numa pungente saudade da professorinha que lhe ensinou o b\u00ea-a-b\u00e1.<\/p>\n<p>06. S\u00f3 hoje, trinta e tantos anos depois, sou capaz de entender o velho Ata\u00fafo ao retratar, em apenas uma frase, a plenitude de sua inf\u00e2ncia na pequenina Mira\u00ed:<br \/>\nEu era feliz e n\u00e3o sabia&#8230;. Eu tamb\u00e9m, s\u00f3 que pelas cercanias do Parque da Aclima\u00e7\u00e3o, onde a esperan\u00e7a em dias melhores, nesta tarde, tem nome. Chama-se Ana Beatriz, \u00e9 um toquinho de gente. Uma espuleta de olhos castanhos a balbuciar palavras num idioma que n\u00e3o consigo entender. Que agarra-se \u00e0s minhas m\u00e3os, aponta os p\u00e1ssaros que sobrevoam o lago e habita um Planeta chamado Sonho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Um suspiro para o que foi. Um sorriso para o que ser\u00e1&#8230; Eis a vida&quot; (Paul Bourget)<\/p>\n<p>01. 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