{"id":10130,"date":"2001-02-02T00:00:00","date_gmt":"2001-02-02T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T21:57:02","modified_gmt":"2017-09-14T21:57:02","slug":"canteiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/canteiros\/","title":{"rendered":"Canteiros"},"content":{"rendered":"<p>&quot;O que faz um povo s\u00e3o os pensamentos daqueles que o comp\u00f5em&quot; (Rubem Alves)<\/p>\n<p>01. \u00c9 certo que jovens sempre ser\u00e3o aqueles que acreditam e sonham. Mas, naqueles delirantes final dos anos 70, t\u00ednhamos pouco mais de 20 anos, um punhado de ilus\u00f5es e a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, com a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, correr\u00edamos c\u00e9leres para a solu\u00e7\u00e3o de todos os chamados males sociais.<\/p>\n<p>02. Era janeiro, se n\u00e3o me engano; pois est\u00e1vamos de f\u00e9rias numa pequena cidade do interior de S\u00e3o Paulo. Todas as noites o bando de rapazes, de diversas proced\u00eancias, reunia-se na casa de um e outro para a cerveja e o churrasco de praxe, as conversas sobre futebol e romances e uma generalizada cantoria embalada pelo viol\u00e3o de um caboclo mais talentoso.<\/p>\n<p>03. Acredite, caro leitor: \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o havia ax\u00e9, pagode e a praga do videoqu\u00ea. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, as m\u00fasicas de ent\u00e3o falavam de sentimentos, lembran\u00e7as, sonhos e &#8212; a gera\u00e7\u00e3o de agora deve se espantar &#8212; n\u00e3o tinham a cad\u00eancia de um bate-estaca e nem nos ensinavam onde por a m\u00e3o enquanto se requebra, digamos, os quadris. Decididamente, eram outros tempos; mas, s\u00e3o considera\u00e7\u00f5es dispens\u00e1veis para a nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>04. Em determinado momento, depois de uma caprichada introdu\u00e7\u00e3o do caboclo violeiro, os marmanjos soltaram a voz na linda &quot;Canteiros&quot; que o cearense Fagner consagrou como um cl\u00e1ssico da MPB. \u00c9 aquela can\u00e7\u00e3o de versos dolentes que come\u00e7a assim: Quando penso em voc\u00ea\/ fecho os olhos de saudade\/ tenho tido muita coisa\/ menos a felicidade&#8230;<\/p>\n<p>05. Lembra? Pois \u00e9, acho que o pessoal andava com os amores em baixa e o cora\u00e7\u00e3o em peda\u00e7os. Tanto que o coral dos barbados, em determinado momento de euforia, seria capaz de fazer inveja ao cantor Agnaldo Rayol, menos pela t\u00e9cnica vocal (etilicamente lament\u00e1vel, como s\u00f3 acontecer nessas ocasi\u00f5es) e mais pelo entusiasmo da rapaziada que andava nos p\u00edncaros da lua&#8230;<\/p>\n<p>06. De repente, um dos nossos lembrou de Helen, a garota que morava na casa ao lado onde faz\u00edamos tamanha algazarra. Ela convalescia de um tr\u00e1gico acidente de autom\u00f3vel, ficara tetrapl\u00e9gica e, com aquele vozerio, est\u00e1vamos pertubando sua paz. Fez-se um sil\u00eancio constrangedor, s\u00f3 o violeiro continuou a dedilhar o instrumento, como se fizesse a trilha sonora da nossa consterna\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>07. Em segundos, ouvimos a campainha da casa soar e o pai de Helen aparecer no v\u00e3o da porta. Algu\u00e9m se preparou para um sincero pedido de desculpas, mas foi interrompido pelo senhor de semblante marcado pelo sofrimento recente e inesperado. Com voz serena, pediu que continu\u00e1ssemos, pois, do quarto, Helen ouvira a can\u00e7\u00e3o e se emocionara a lembrar um tempo em que era poss\u00edvel acreditar e sonhar.<\/p>\n<p>08. Voltamos a cantar, mas, \u00e0quela altura, nosso entusiasmo ego\u00edsta cedera espa\u00e7o para a emo\u00e7\u00e3o de estar ajudando algu\u00e9m a ser feliz, mesmo que por alguns instantes&#8230;<\/p>\n<p>09. Sempre que vejo\/ou\u00e7o a fala do presidente, fico com a impress\u00e3o de que ele o faz por motivos unicamente de realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Imagina um Pa\u00eds que, na verdade, s\u00f3 existe para suas perola\u00e7\u00f5es, em especial as de \u00e2mbito internacional. N\u00e3o entende que a Na\u00e7\u00e3o enferma gosta de cantoria, sim; mas, quer voltar a acreditar e sonhar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;O que faz um povo s\u00e3o os pensamentos daqueles que o comp\u00f5em&quot; (Rubem Alves)<\/p>\n<p>01. \u00c9 certo que jovens sempre ser\u00e3o aqueles que acreditam e sonham. 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