{"id":10140,"date":"2002-08-23T00:00:00","date_gmt":"2002-08-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:22:06","modified_gmt":"2017-09-14T17:22:06","slug":"conversa-de-elevador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/conversa-de-elevador\/","title":{"rendered":"Conversa de elevador"},"content":{"rendered":"<p>&quot;O acaso vai me proteger enquanto eu andar distra\u00eddo&quot; (Tit\u00e3s)<\/p>\n<p>01. Puxa, os dias est\u00e3o passando r\u00e1pido demais que a gente nem percebe a semana, constata a mo\u00e7a em voz alta, com ares de quem est\u00e1 fora do hor\u00e1rio. Nunca consigo dar conta dos compromissos do dia, sempre sobra um tant\u00e3o de coisas para o dia seguinte, resmunga confirmando nossas suspeitas. \u00c9&#8230;, espanta-se a senhora ao lado, com roupa de quem vai fazer sua caminhada di\u00e1ria. Pois, para mim, os dias se arrastam pesadamente. Meus netos moram foram do Pa\u00eds e demora s\u00e9culos para que venham me visitar, acrescenta em tom nost\u00e1gico, como se a vida j\u00e1 tivesse lhe oferecido o melhor dos n\u00e9ctares.<\/p>\n<p>02. Ao fundo, a mo\u00e7a com roupa de recepcionista abandona-se aos pr\u00f3prios pensamentos. \u00c0 sua esquerda, o jovem fashion assobia baixinho a can\u00e7\u00e3o da moda e d\u00e1 uma impercept\u00edvel conferida no pr\u00f3prio visual. Tudo em cima: bolsa transpassada, t\u00eanis air, camiseta justa e cal\u00e7a jeans com a barra desfiada. Mal entra, o executivo d\u00e1 \u00e0s costas para os dois. Traz o palet\u00f3 na m\u00e3o e os planos no notebook. Hoje, ter\u00e1 uma agenda cheia. Uma breve parada e surge o zelador que, na mais pura ingenuidade, comenta em voz alta: o condom\u00ednio vai subir. E acaba com a pose dos tr\u00eas que, de imediato, se p\u00f5em a reclamar.<\/p>\n<p>03. As pessoas se ajeitam como podem no pequeno espa\u00e7o de dois por dois. De repente, num determinado andar, sobrem dois homens parrudos, de terno, gravata e \u00f3culos escuros. S\u00e3o seguran\u00e7as de algum morador importante. Permanecem circunspectos e, sob seus ombros, percebe-se o volume do coldre da arma. O elevador p\u00e1ra e \u00e9 preciso dar espa\u00e7o para a bab\u00e1 que traz uma crian\u00e7a no colo. O garoto fica de frente para os brutamontes. Insiste em olh\u00e1-los com ar de curiosidade. Por instantes, ambos esquecem das agruras e do risco da profiss\u00e3o e se acusam, mutuamente, com o dedo em riste um para o outro. Olha, o bicho pap\u00e3o, derretem-se para agradar a crian\u00e7a e, mais ainda, a bab\u00e1. As pessoas controlam o riso enquanto o garoto se p\u00f5e a repetir: bicho, bicho&#8230;<\/p>\n<p>04. Caro leitor, s\u00f3 h\u00e1 uma maneira de se assistir ao hor\u00e1rio gratuito do Tribunal Regional Eleitoral que, desde ter\u00e7a-feira, invade descaradamente nossos lares. Se n\u00e3o h\u00e1 como evitar, tente entend\u00ea-lo como as conversas de elevador. Est\u00e3o a\u00ed circunstancialmente. Por mais esdr\u00faxulas que possam parecer, sempre t\u00eam algo a ver com a vida da gente. Mas, decididamente, n\u00e3o tente lev\u00e1-las a s\u00e9rio. \u00c9 como acreditar em bicho-pap\u00e3o, saci perer\u00ea e salvadores da p\u00e1tria&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;O acaso vai me proteger enquanto eu andar distra\u00eddo&quot; (Tit\u00e3s)<\/p>\n<p>01. 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