{"id":10143,"date":"1999-10-08T00:00:00","date_gmt":"1999-10-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T02:54:23","modified_gmt":"2017-09-15T02:54:23","slug":"de-absurdos-reflexoes-e-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/de-absurdos-reflexoes-e-criancas\/","title":{"rendered":"De absurdos, reflex\u00f5es e crian\u00e7as&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&quot;N\u00f3s somos todas as can\u00e7\u00f5es.&quot;<\/p>\n<p>01. Encontrou-me em frente ao Franz Caf\u00e9 da avenida Nazar\u00e9 na manh\u00e3 de ontem. Nem se preocupou em perguntar qual seria o assunto da coluna da semana. Foi logo despejando que eu deveria escrever sobre o Lula e sua participa\u00e7\u00e3o no programa Roda Viva na noite de segunda-feira. Que absurdo! &#8212; n\u00e3o entendi a exclama\u00e7\u00e3o, mas preferi contemporizar. Assisti alguns trechos do programa &#8212; e n\u00e3o havia como descobrir ao qu\u00ea se referia o simp\u00e1tico interlocutor. Voc\u00ea viu (as pessoas julgam que basta ser jornalista para ser onipresente, tudo ver e tudo saber), ele acusou os meios de comunica\u00e7\u00e3o de tramarem a vit\u00f3ria de FHC na elei\u00e7\u00e3o do ano passado. Que absurdo! Ainda sem entender se era um absurdo bom ou um absurdo ruim, pronunciei-me categoricamente. Pois, \u00e9&#8230; Foi o suficiente para que continuasse. Houve mesmo a tal reuni\u00e3o do presidente-candidato com os propriet\u00e1rios dos principais jornais e televis\u00f5es em junho do ano passado quando as pesquisas indicaram empate t\u00e9cnico entre Lula e FHC? Sequer tive tempo de balan\u00e7ar a cabe\u00e7a. E tascou-me outra. Houve mesmo a tal press\u00e3o pr\u00f3-Fernando Henrique? Tentei dizer-lhe que sim. Mas, ele j\u00e1 tinha uma opini\u00e3o formada sobre o assunto, sentia-se duplamente tra\u00eddo (pelo governo e pela m\u00eddia), e nem me escutou. Que absurdo!<\/p>\n<p>02. Caminhei em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, onde vou quase todas as manh\u00e3s. Impressiona-me a despojada beleza deste templo e a luz filtrada pelos vitrais azuis que ilumina seu interior. Gosto do seu sil\u00eancio, sinto-me feliz ali. Parece que uma boa nova vai chegar a qualquer momento. S\u00f3 n\u00f3s mesmos sabemos o que h\u00e1 de sagrado dentro de n\u00f3s que merece ser preservado a qualquer custo. Um trabalho, uma miss\u00e3o, um sentimento; inevitavelmente um amor que se transforma em ora\u00e7\u00e3o e alimenta a alma do mundo. O falso e o verdadeiro resplandecem e nos prop\u00f5em a escolha do que somos. Nem sempre quem nos faz sorrir \u00e9 o amigo que aponta o caminho. Quem nos faz pensar, mesmo que nos custe enfrentamentos que desejar\u00edamos n\u00e3o ter, transforma-se na seta e no alvo. Quem nos faz pensar, nos faz melhor&#8230;<\/p>\n<p>03. Chego \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o com a certeza de que esse tempo de reflex\u00e3o \u00e9 vital, at\u00e9 mesmo para quest\u00f5es de \u00e2mbito social. Ser\u00e1 que nossos pol\u00edticos e governantes pensam em profundidade e com firmeza de prop\u00f3sitos antes de votarem uma quest\u00e3o, como a nova lei da previd\u00eancia, que vai mudar a vida de todos n\u00f3s? E o confronto entre perueiros e a PM, que transformou as ruas de S\u00e3o Paulo, em pra\u00e7a de guerra &#8212; a quem interessou? Toda essa discuss\u00e3o em torno do problema da Febem e de a\u00e7\u00f5es policialescas e arbitr\u00e1rias resolveriam mesmo o caos de uma cidade, a cada dia, mais miser\u00e1vel e desumana? Ser\u00e1 que a sociedade n\u00e3o teria que refletir sobre essas quest\u00f5es &#8212; e assumir ela pr\u00f3pria alguma culpa? Ao menos, a indiferen\u00e7a dos mais abastados para o enorme contingente dos que nada t\u00eam. S\u00f3 dizer que absurdo, e n\u00e3o fazer valer a verdade na hora certa, de nada adianta. Vale para tirar dos nossos ombros qualquer resqu\u00edcio de culpa &#8212; e s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>04. Diante do computador, pronto para escrever a coluna, n\u00e3o resisto e prefiro contar uma luminosa hist\u00f3ria de vida que, entendo, cabe muito bem nesta ante-v\u00e9spera do Dia das Crian\u00e7as: a garota de 4 anos insistiu junto ao pai para ficar sozinha com a irm\u00e3 rec\u00e9m-nascida. O pai ficou desconfiado. Pensou nas habituais crises de ci\u00fames que se manifestam nessas ocasi\u00f5es &#8212; e temeu atender ao pedido da irm\u00e3 mais velha. A garotinha, no entanto, tanto insistiu que n\u00e3o houve outra sa\u00edda. Mesmo contrariado, deixou o quarto e, com a porta entreaberta, ficou a espreita dos acontecimentos. Bastou um instante para a menina se aproximar do ber\u00e7o e, revelando todo seu entusiasmo, perguntou: e a\u00ed, fala, me conta como \u00e9 Deus&#8230; Que eu j\u00e1 estou esquecendo.<\/p>\n<p>05. As crian\u00e7as transcendem o absurdo, criam o mundo a partir dos pr\u00f3prios sonhos. Est\u00e3o pr\u00f3ximas de Deus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;N\u00f3s somos todas as can\u00e7\u00f5es.&quot;<\/p>\n<p>01. Encontrou-me em frente ao Franz Caf\u00e9 da avenida Nazar\u00e9 na manh\u00e3 de ontem. 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