{"id":10182,"date":"1999-12-23T00:00:00","date_gmt":"1999-12-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T02:48:32","modified_gmt":"2017-09-15T02:48:32","slug":"o-amor-a-verdade-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-amor-a-verdade-a-vida\/","title":{"rendered":"O amor, a verdade, a vida&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Um dia os intelectuais apol\u00edticos do meu pa\u00eds ser\u00e3o interpelados pelo homem sens\u00edvel do nosso povo. Que lhe perguntar\u00e1 sobre o que fizeram enquanto a P\u00e1tria se apagava lentamente como uma fogueira doce, pequena e solit\u00e1ria.&quot; (Otto Ren\u00e9 Castillo)<\/p>\n<p>01. Quem se lembra do personagem M\u00e1rio Rutuolo, o carteiro do filme II Postino (O Carteiro e o Poeta, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 96)? Foi o derradeiro &#8212; e magn\u00edfico &#8212; papel do ator Massimo Troisi que faleceu logo ap\u00f3s as filmagens. O personagem pareceu-me exemplar quando comecei a pensar no tema da coluna de hoje &#8212; a \u00faltima do ano e que deveria, ao menos em tese, discorrer sobre os desafios e compromissos deste fim de s\u00e9culo\/mil\u00eanio.<\/p>\n<p>02. N\u00e3o sei porque cargas d\u2019\u00e1gua o filme de Michael Radford vai preenchendo a tela do computador e me arrebatando os sentimentos nesta manh\u00e3 de quarta-feira. Inspira-se no suposto ex\u00edlio do poeta chileno Pablo Neruda (interpretado por Phillippe Noiret) numa pequena ilha italiana, onde faz amizade com o carteiro do lugarejo. Fascinado pelo modo de vida de Neruda e pelo poder de sedu\u00e7\u00e3o da poesia junto \u00e0s mulheres, M\u00e1rio, mesmo um semi-analfabeto filho de pescador que resfria-se de medo s\u00f3 de pensar em enfrentar o mar, tenta entender o que \u00e9 met\u00e1fora pois est\u00e1 disposto, tamb\u00e9m ele, a escrever versos. Apaixonado pela bel\u00edssima Beatrice, recorre ao poeta para lhe ensinar o encanto das palavras.<\/p>\n<p>03. Pacientemente, Neruda procura explicar tecnicamente o processo de constru\u00e7\u00e3o de um poema. Mas, sem qualquer \u00eaxito&#8230; Ambos est\u00e3o sentado na praia diante do bel\u00edssimo azul do Mediterr\u00e2neo e, como \u00faltimo expediente, o poeta se p\u00f5e a recitar um novo soneto que relaciona o imprevis\u00edvel ir e vir das ondas com a vida e os cora\u00e7\u00f5es apaixonados. Para o poeta, n\u00e3o existe amor imposs\u00edvel. Sem amor, n\u00e3o somos nada&#8230;<\/p>\n<p>04. Quando termina, pergunta emocionado: e ent\u00e3o gostou? E o humilde carteiro faz, sem se dar conta, seu primeiro verso e, de imediato, passa a entender o que \u00e9 met\u00e1fora: mas eu me sinto como um barco num mar de palavras.<\/p>\n<p>05. Muitas vezes, voc\u00ea e eu, prezad\u00edssimo leitor, podemos sentir a mesma perplexidade diante da enxurrada de acontecimentos que nos traz a vida atual. E, assim como M\u00e1rio, perdemos o prumo num mar revolto de palavras, fatos, pessoas, sentimentos, contratempos, informa\u00e7\u00f5es&#8230; Embora vivamos a era do Conhecimento, a unica certeza que hoje temos \u00e9 que n\u00e3o temos certeza de nada. A sociedade vive o mais rotundo dos contrastes. Olha curiosa para o futuro, assiste e aposta na efici\u00eancia da Ci\u00eancia e da Tecnologia para uma s\u00e9rie de infinitas conquistas. No entanto, sequer consegue resolver uma quest\u00e3o fundamental: as desigualdades sociais.<\/p>\n<p>06. H\u00e1 em todo o Planeta 780 milh\u00f5es de pessoas que passam fome. E n\u00e3o possuem qualquer perspectiva de mudar esse quadro nos pr\u00f3ximos tempos &#8212; comece o pr\u00f3ximo mil\u00eanio agora ou s\u00f3 em 2001. Mesmo que o homem tenha o desplante de fundar uma filial da Disney World em Marte, nada muda para esse contingente de desvalidos que, no Brasil, chega a 13 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>07. Eis o extraordin\u00e1rio desafio do poeta, do carteiro, de todos n\u00f3s que temos acesso a algum tipo de forma\u00e7\u00e3o e conhecimento. N\u00e3o d\u00e1 para ser feliz por inteiro enquanto persistirem essas abomin\u00e1veis discrep\u00e2ncias sociais. N\u00e3o podemos nos deixar subjulgar pelo sil\u00eancio, pela indiferen\u00e7a ou pelo medo da mudan\u00e7a. O mesmo homem n\u00e3o passa duas vezes pelo mesmo rio. Se praticarmos o amor em toda sua plenitude, praticaremos a verdade e reacenderemos a vida&#8230; T\u00e3o bela, t\u00e3o fascinante, t\u00e3o encantadoramente misteriosa quanto a vis\u00e3o do nosso Museu do Ipiranga, todo iluminado, nessas noites claras de dezembro. Feliz mil\u00eanio novo, caro leitor&#8230;<\/p>\n<p>Nota do autor: No filme o carteiro M\u00e1rio, ap\u00f3s aprender a ler e a escrever poesias, engaja-se no movimento socialista da It\u00e1lia e morre durante a repress\u00e3o pelo Ex\u00e9rcito a uma manifesta\u00e7\u00e3o nacional em Roma, onde faria uma sauda\u00e7\u00e3o em nome do povo italiano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Um dia os intelectuais apol\u00edticos do meu pa\u00eds ser\u00e3o interpelados pelo homem sens\u00edvel do nosso povo. 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