{"id":10191,"date":"2000-10-13T00:00:00","date_gmt":"2000-10-13T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T22:02:11","modified_gmt":"2017-09-14T22:02:11","slug":"o-fio-da-meada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-fio-da-meada\/","title":{"rendered":"O fio da meada"},"content":{"rendered":"<p>&quot;O fracasso lhe subiu \u00e0 cabe\u00e7a&quot; (Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, em 79 durante a campanha presidencial sobre o desejo de Fernando Gabeira de ser o candidato \u00e0 Presid\u00eancia que uniria a Oposi\u00e7\u00e3o. Ressalte-se que o nome de Gabeira n\u00e3o era sequer lembrado nas pesquisas de opini\u00e3o)<\/p>\n<p>01. Olho nos p\u00e9s da garotada de hoje e vejo o velho e bom All Star. Sem tirar nem por, absolutamente igual, mais do que um t\u00eanis, esse \u00edcone da juventude j\u00e1 era moda no tempo em que Paulo Coelho ainda n\u00e3o cruzava o Planeta como escritor consagrado e s\u00f3 era conhecido pelos versos malucos-belezas que escrevia para o parceiro Raul Seixas cantar. Fa\u00e7a o que tu queres, pois \u00e9 tudo da Lei, clamava a dupla na letra da an\u00e1rquica Sociedade Alternativa.<\/p>\n<p>02. Isso foi l\u00e1 pela virada dos anos 70 e 80 quando os novos sonhos de toda a gente p\u00f4s abaixo o Muro de Berlim e o n\u00f3s, sob os tr\u00f3picos, acalent\u00e1vamos a esperan\u00e7a da consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Curioso como um simples par de cal\u00e7ado azul turqueza nos p\u00e9s de um garoto leva-me a essas reflex\u00f5es. Talvez porque naqueles tempos tamb\u00e9m os usasse &#8212; e como! &#8212; e imaginasse que a vida, as pessoas, os sentimentos, a verdade fossem t\u00e3o simples quanto cal\u00e7ar um velho par de t\u00eanis todos os dias.<\/p>\n<p>03. O fim da muralha que dividia a Alemanha, acreditava eu, representava o fim de todo e qualquer preconceito, de toda e qualquer discrimina\u00e7\u00e3o; o horizonte aberto para a almejada paz universal. Aqui, em terra p\u00e1tria, o \u00f3bvio era que com a democracia bendita tamb\u00e9m viria, autom\u00e1tica e espontaneamente, a justi\u00e7a social, a igualdade, o fim de todos os males que afligiam os brasileiros. Era por isso que sa\u00edamos, ruas e pra\u00e7as afora, caminhando e cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o que nos unia e nos fazia melhor.<\/p>\n<p>04. Parecia t\u00e3o simples, repito. Havia um n\u00edtido divisor de \u00e1guas. Havia o bem e o mal. Quem n\u00e3o era por n\u00f3s, era contra n\u00f3s. Simples e pr\u00e1tico. O fim do muro e comunismo, que dava sinais de exaust\u00e3o por toda a Europa, n\u00e3o redimia os governos ocidentais de suas mazelas e fragilidades. Mas, projetava uma nova ordem mundial, embasada na valozia\u00e7\u00e3o do homem como cidad\u00e3o. No Brasil, a ditadura era s\u00edmbolo de todas afli\u00e7\u00f5es sociais &#8212; e tamb\u00e9m, aqui, havia claras evid\u00eancias que n\u00e3o resistiria por muito tempo. Portanto, fazia-se a luz&#8230;<\/p>\n<p>05. Era, na verdade, quest\u00e3o de n\u00e3o perder a oportunidade. E, olha, para ser franco, era mais dif\u00edcil escolher entre um All Star cano longo ou cano curto, da cor vinho ou marinho (havia um cinza bem legal tamb\u00e9m), do que propriamente imaginar que algo poderia dar errado. P\u00f4xa, essa gera\u00e7\u00e3o batalhou tanto desde 1968, o ano que devia terminar. Enfrentou as diversas formas de repress\u00e3o, fez a Revolu\u00e7\u00e3o dos Costumes, andou por sonhos e devaneios, Hair e Woodstock, virou o mundo pelo avesso em nome da paz e do amor. Era mais do que hora. Tanto l\u00e1 como c\u00e1 ser\u00edamos felizes, enfim. Um ousado jingle celebrou vit\u00f3ria &#8212; e simplificou demais todas as quest\u00f5es. Liberdade \u00e9 uma cal\u00e7a velha, azul e desbotada, lembra, caro leitor?<\/p>\n<p>06. As cenas que hoje presenciamos &#8212; dos esc\u00e2ndalos pol\u00edticos aos conflitos na Europa e no Oriente &#8212; comprovam que, em algum lugar desse passado recente, perdemos o fio da meada da reconstru\u00e7\u00e3o social. Trocamos a universaliza\u00e7\u00e3o (que traria embutida a preserva\u00e7\u00e3o de uma sociedade humanista) pela globaliza\u00e7\u00e3o que privilegia \u00fanica e exclusivamente o lucro pelo lucro. Trocamos tamb\u00e9m &#8212; e principalmente &#8212; a no\u00e7\u00e3o de que para se construir esse mundo novo \u00e9 preciso ser &#8212; e n\u00e3o apenas ter.<\/p>\n<p>07. A prop\u00f3sito dessas divaga\u00e7\u00f5es, leio nos jornais que o novo livro de Paulo Coelho trata exatamente dessa zona difusa que permeia os conceitos do Bem e do Mal. L\u00e1 \u00e0 sua maneira, o mago conclui que n\u00e3o existem anjos, nem dem\u00f4nios. Todos somos produtos das circunst\u00e2ncias e do tempo em que vivemos. Mas, ressalto aqui, nunca \u00e9 demais preservar valores como fraternidade, respeito, \u00e9tica e, sobretudo, o jeito bem-humorado e renovador de andar pela vida &#8212; mesmo que j\u00e1 tenha passado sua fase de andar de All Star.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;O fracasso lhe subiu \u00e0 cabe\u00e7a&quot; (Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, em 79 durante a campanha presidencial sobre o desejo de Fernando Gabeira de ser o candidato \u00e0 Presid\u00eancia que uniria a Oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10191","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-caro-leitor"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10191"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14174,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10191\/revisions\/14174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}