{"id":10194,"date":"1999-07-08T00:00:00","date_gmt":"1999-07-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T02:58:38","modified_gmt":"2017-09-15T02:58:38","slug":"o-homem-e-a-menina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-homem-e-a-menina\/","title":{"rendered":"O homem e a menina"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Trabalhar pelo que se ama, amar aquilo em que se trabalha.&quot; (Tolst\u00f3i)<\/p>\n<p>01. O homem caminhava pela praia &#8212; ali\u00e1s, como houvera feito em todas aquelas tardes de te\u00f3rico descanso. Tivera um ano dificil, repleto de altos e baixos, erros e acertos, mais tristezas do que alegrias. Muitas vezes, em meio ao estresse do dia-a-dia, percebera-se absolutamente indiferente \u00e0 vit\u00f3ria do bem sobre o mal, \u00e0 supremacia dos insensatos, \u00e0s verdades mentirosas que a m\u00eddia e as pessoas nos imp\u00f5em como se, insidiosas e ladinas, nada quisessem ou esperassem de n\u00f3s.  Enfim, o homem caminhava pela praia a ruminar suas perdas, a contabilizar os sonhos que deixara para tr\u00e1s. Vez ou outra, olhava para o mar. Em sil\u00eancio. Era apenas um homem s\u00f3 a mirar a linha que une os dois tons de azul no horizonte t\u00e3o imagin\u00e1ria como ele pr\u00f3prio se achava ali, naquela hora, naquele lugar a espera de todas as respostas, a espera de, quem sabe, um milagre chamado esperan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>02. O homem caminhava pela praia e sentiu-se desconfort\u00e1vel com a presen\u00e7a de um grupo de pessoas mais a frente, pr\u00f3ximo ao ancoradouro dos barcos. Era um entusiasmado grupo de turistas para um r\u00e1pido tour pelas ilhas perdidas dos arredores de Angra e Parati. Sem pensar, deixou-se ficar por ali para ver a partida. Justificou-se perante ele mesmo reconhecendo que \u00e9 sempre tocante ver uma embarca\u00e7\u00e3o se afastar do cais. H\u00e1 invariavelmente algu\u00e9m dando adeus para algu\u00e9m. \u00c9 um gesto de separa\u00e7\u00e3o que pressup\u00f5e a doce promessa de reencontro, da volta&#8230;<\/p>\n<p>03. Barco ao mar, lamentou a falta dos tradicionais apitos. Dariam mais dramaticidade a cena. Mas, ponderou, j\u00e1 estava querendo demais. Caminhar pela praia era sua rotina e prop\u00f3sito, agora, j\u00e1 reivindicava uma cena de cinema para o seu pacato cotidiano. Era melhor retornar, preferencialmente, pela mesma faixa de areia, a remoer os mesmos pensamentos e lembran\u00e7as que o trouxeram at\u00e9 ali, beira do mar, lugar comum. Ele tamb\u00e9m era um homem comum &#8212; e sem planos. Vazio.<\/p>\n<p>04. Nem bem havia dado o primeiro passo, ouviu um choror\u00f4 t\u00edmido, abafado; mas do\u00eddo que ele s\u00f3&#8230; Olhou ao redor e espantou-se ao ver que o lugar estava quase deserto. L\u00e1 estavam ele mais meia d\u00fazia de pessoas que, pelo gren\u00e1-e-amarelo dos trajes, logo reconheceu tratar-se de funcion\u00e1rios de um hotel pr\u00f3ximo dali. Vieram acompanhar a turba de forasteiros, e agora se preparavam para retornar. Mas, de quem era o tal do lamento sentido? Atentou o olhar e viu recostadas a um beiral duas garotinhas, de tr\u00eas ou quatro anos quando muito. Aproximou-se e notou que a mais crescidinha consolava a menor que debru\u00e7ada numa banqueta de praia escondia o rosto com os bra\u00e7os para disfar\u00e7ar o choro. Ao lado delas, a monitora de f\u00e9rias tratou logo de explicar quando o viu por perto. &quot;Essa pestinha n\u00e3o quis ir com os pais no passeio de barco para ver o teatrinho no hotel, agora est\u00e1 morrendo de saudade da m\u00e3e. Pode?<\/p>\n<p>05. Ao ouvir a sua hist\u00f3ria narrada a um estranho, a garotinha tirou meio rosto para fora. E com os pequenos olhos avermelhados e os l\u00e1bios franzidos, respondeu ao homem que podia sim. N\u00e3o disse sequer uma palavra e voltou ao choror\u00f4 abafado, mas foi o suficiente para que ele lhe desse raz\u00e3o. Tamb\u00e9m em sil\u00eancio condenou a irresponsabilidade dos pais. Mas, percebeu que algo de muito bom havia lhe arrebatado a alma e o cora\u00e7\u00e3o. Lembrou em algu\u00e9m distante, um algu\u00e9m muito especial, que, de uma forma mais singela, o rosto da garotinha lhe trouxe a mente de imediato. Concluiu que, sim, o sonho era poss\u00edvel. Por que n\u00e3o? O grande milagre era estar vivo &#8212; e, melhor, poder lutar pelo que se quer. Quem sabe, num futuro n\u00e3o muito distante, ele n\u00e3o poderia estar por ali, na mesma praia, a olhar o infinito, mas a contemplar tamb\u00e9m algu\u00e9m a quem sempre soube amar e, talvez, tamb\u00e9m por ali houvesse outro projetinho de gente, com a mesma express\u00e3o de futuro e a quem docemente chamaria de Esperan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>06. N\u00e3o se espante. Lembrei-me dessa hist\u00f3ria, que bem poderia ser a de qualquer um de n\u00f3s, assim que comecei a programar a nova fase de Gazeta do Ipiranga que hoje vai para as ruas. Ela tamb\u00e9m nasce de impulso da vida (a moderniza\u00e7\u00e3o do formato dos jornais brasileiros), envolve a quem se ama e tamb\u00e9m revela um projeto de vida chamado Esperan\u00e7a. Bem-vindo a bordo da nova GI, caro leitor&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Trabalhar pelo que se ama, amar aquilo em que se trabalha.&quot; (Tolst\u00f3i)<\/p>\n<p>01. 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