{"id":10197,"date":"2002-08-30T00:00:00","date_gmt":"2002-08-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:21:35","modified_gmt":"2017-09-14T17:21:35","slug":"o-largo-do-cambuci-o-voto-e-o-slogan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-largo-do-cambuci-o-voto-e-o-slogan\/","title":{"rendered":"O Largo do Cambuci, o voto e o slogan"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Nunca ande por caminhos j\u00e1 tra\u00e7ados, pois eles conduzem at\u00e9 onde os outros j\u00e1 foram&quot; (Alexander Graham Bell)<\/p>\n<p>01. Doutor, doutor&#8230; esse aqui \u00e9 meu filho. A figura grandalhona, sorridente, de extrema empatia popular, apertou cuidadosamente minha m\u00e3o. N\u00e3o estava entendendo muita coisa do que acontecia ao meu redor. Mas, meu pai &#8212; lembro-me &#8212; estava super feliz, euf\u00f3rico mesmo. Enquanto o Chevrolet preto, pesad\u00e3o, se afastava levando o ilustre doutor Adhemar de Barros, ele anunciava para todos que o futuro presidente havia cumprimentado o garoto&#8230;<\/p>\n<p>02. Devia ter uns seis pra sete anos; talvez menos. Mas, lembro perfeitamente do largo do Cambuci &#8212; onde funcionou o primeiro supermercado que conheci, o Peg Pag &#8212; todo enfeitado com cartazes e faixas e o ch\u00e3o coberto de c\u00e9dulas em nome do doutor Adhemar. Foi grande a movimenta\u00e7\u00e3o que antecedeu o com\u00edcio. Senhores de terno e gravata &#8212; muitos com chap\u00e9us Ramenzzoni, onde meu av\u00f4 trabalhava &#8212; desciam rapidamente dos bondes e lota\u00e7\u00f5es para buscar um lugar o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel do palanque. Ao que me lembro, eram elei\u00e7\u00f5es para prefeito de S\u00e3o Paulo e um dos advers\u00e1rios do doutor Adhemar era o professor J\u00e2nio Quadros, que diziam morar num sobradinho da rua Sinimb\u00fa, ali nas imedia\u00e7\u00f5es da rua Lavap\u00e9s.<\/p>\n<p>03. Para meu pai, n\u00e3o havia essa de morar perto ou longe. Era adhemarista convicto. De brigar com amigos e familiares, se preciso. Acreditava piamente no lema do doutor Adhemar: f\u00e9 em Deus e p\u00e9 na t\u00e1bua. Ainda agora, mesmo anos e anos da morte do l\u00edder populista, recordo com saudade a defini\u00e7\u00e3o do pai para os males do Pa\u00eds, cada vez mais gritantes: o Brasil precisa de um gerente.<\/p>\n<p>04. Acho oportuno registrar que minhas liga\u00e7\u00f5es com o adhemarismo terminam a\u00ed. S\u00f3 repriso a hist\u00f3ria, agora no computador, porque ando com uma saudade danada do meu velho pai, que faleceu num ensolarado 1\u00ba de setembro, e para melhor flagrar a disputa eleitoral de outubro. H\u00e1 expressivos contrastes e semelhan\u00e7as. Hoje, os com\u00edcios n\u00e3o s\u00e3o mais os mesmos &#8212; o que pega pra valer \u00e9 saber se o candidato \u00e9 bom ou ruim de TV. H\u00e1 quem diga que, se a TV tivesse a influ\u00eancia que hoje tem, o caudilho Get\u00falio Vargas, com pouco mais de um metro e meio de altura, jamais seria eleito presidente da Rep\u00fablica. Outro contraste: a plataforma eleitoral dos candidatos, com pontos absolutamente comuns. Muitas vezes n\u00e3o d\u00e1 para se distinguir quem \u00e9 situa\u00e7\u00e3o, quem \u00e9 oposi\u00e7\u00e3o. Claro que falta autenticidade a muitas dessas propostas e o que conta &#8212; outra aberra\u00e7\u00e3o dos nossos dias &#8212; \u00e9 o amplo dom\u00ednio dos marqueteiros sobre o pol\u00edtico e o partido, \u00e1vidos por vencer o pleito.<\/p>\n<p>05. De qualquer forma, est\u00e1 bastante clara a profunda decep\u00e7\u00e3o dos brasileiros com a classe pol\u00edtica e governante. Esse desalento tende a generalizar todos os nomes, todos os partidos. \u00c9 comum ouvir desabafos do tipo ningu\u00e9m vai resolver nada, n\u00e3o vou votar em ningu\u00e9me da\u00ed pra baixo.<\/p>\n<p>06. Mesmo reconhecendo que h\u00e1 raz\u00f5es de sobra para tanto amargor, acho oportuno lembrar que a participa\u00e7\u00e3o de todos \u00e9 fundamental para a reconstru\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds. Acho mesmo que as pessoas t\u00eam mais \u00e9 que reclamar, que reivindicar. Devemos recuperar o direito pleno de intervir nos destinos do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>07. Por isso, mesmo que seja dif\u00edcil pedir a essa gente desvalida paci\u00eancia e f\u00e9 nos dias que est\u00e3o por vir, \u00e9 nosso dever estar integrado ao momento e participar com o voto com consciente. Pensarmos grande, numa sociedade mais digna e humanit\u00e1ria. Desperdi\u00e7ar essa chance \u00e9 condenar ao limbo a democracia que conquistamos \u00e0s duras penas. E que, para se consolidar, precisa mais do que nunca ter a justi\u00e7a social como pedra de arrimo e sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>08. Lembre-se, caro leitor, votar \u00e9 mais do que acreditar num slogan.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Nunca ande por caminhos j\u00e1 tra\u00e7ados, pois eles conduzem at\u00e9 onde os outros j\u00e1 foram&quot; (Alexander Graham Bell)<\/p>\n<p>01. Doutor, doutor&#8230; esse aqui \u00e9 meu filho. 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