{"id":10201,"date":"1998-10-01T00:00:00","date_gmt":"1998-10-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T03:14:57","modified_gmt":"2017-09-15T03:14:57","slug":"o-pacote-e-a-cancao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-pacote-e-a-cancao\/","title":{"rendered":"O pacote e a can\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Voc\u00eas que fazem parte dessa massa\/ Que passam nos projetos do futuro\/ \u00c9 duro tanto ter que caminhar\/ E dar muito mais do que receber\/ E ter que demonstrar sua coragem\/ \u00c0 margem do que possa parecer\/ E ver que toda essa engrenagem\/  J\u00e1 sente a ferrugem lhe comer&#8230;&quot;<\/p>\n<p>O presidente falou. O ministro detalhou item a item. Os economistas analisaram. Os empres\u00e1rios chiaram. E a mo\u00e7a do notici\u00e1rio da TV resumiu todo o pacot\u00e3o em duas palavras: &quot;Tempos dif\u00edceis&quot;. A quarta-feira foi toda assim. Ali\u00e1s, encerrada a disputa eleitoral, o tal embrulho veio \u00e0 tona, com uma significativa dose de apreens\u00e3o e ansiedade para os diversos segmentos da sociedade. Ali\u00e1s, ricos e pobres, feios e bonitos, gordos e magros, sem distin\u00e7\u00e3o de credo, ra\u00e7a ou cor, s\u00f3 quer\u00edamos saber em que parte ser\u00edamos atingidos.<\/p>\n<p>A grosso modo, sab\u00edamos que ningu\u00e9m escaparia do arrocho. Por isso, na manh\u00e3 de ontem, ao entrar no carro para vir para Gazeta do Ipiranga, preferi trocar o notici\u00e1rio habitual do r\u00e1dio por alguns minutos de m\u00fasica. Tento fugir do duro embate &quot;que aos fracos abate&quot;. E, de pronto, enfrento os versos prof\u00e9ticos de Z\u00e9 Ramalho em &quot;Admir\u00e1vel Gado Novo&quot;. Criada em meados dos anos 70, quando o int\u00e9rprete paraibano aportou no sulmaravilha, a can\u00e7\u00e3o parece trilha sonora dos tempos que hora vivemos. &quot;E o\u00f4&#8230;Vida de gado\/Povo marcado\/E povo feliz&quot;.<\/p>\n<p>Quase que de imediato ocorre-me uma outra hist\u00f3ria que, ainda nos tempos ditatoriais, costumava ocupar este mesmo espa\u00e7o sempre que os ent\u00e3o senhores do Poder nos amea\u00e7avam com pacotes, medidas provis\u00f3rias, aumentos de impostos e que tais. Trata-se da hist\u00f3ria do senhor que, n\u00e3o sabendo como administrar as expectativas de seus familiares, descontentes com o estado lament\u00e1vel em que se encontra a moradia, recorre a um expediente. Compra um bode e amarra ao p\u00e9 da mesa da sala, pr\u00f3ximo ao aparelho de TV. Ningu\u00e9m entende nada. E as reclama\u00e7\u00f5es aumentam consideravelmente. Esposa, filhos, sogra, sogro, cunhados, vizinhos concentram toda sua ira e indigna\u00e7\u00e3o na presen\u00e7a daquele est\u00fapido animal.<\/p>\n<p>Passam-se os dias e os familiares continuam inconformados. Unem-se diante do problema comum &#8212; justamente eles que, anteriormente, pensavam cada qual nos seus aposentos. E sussurram e falam e gritam! Amea\u00e7am ir aos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, a manifestar-se em pra\u00e7a p\u00fablica. Tudo em v\u00e3o. O senhor continua convicto e anuncia, em pronunciamento oficial, que essa medida \u00e9 necess\u00e1ria, pois garante um futuro promissor para todos&#8230;<\/p>\n<p>Trinta dias depois. Uma surpresa. O senhor chegou e, sem nenhum alarde, levou o bode embora&#8230; Ao voltar para casa, todos estavam felizes. Agora, sim, poderiam viver felizes naquela confort\u00e1vel moradia. E, por um bom tempo, ningu\u00e9m reclamou das goteiras, dos tacos soltos, dos vazamentos, do sistema el\u00e9trico que queimava todas as l\u00e2mpadas, do chuveiro que n\u00e3o esquentava no inverno e das rachaduras nas paredes da laje, que aumentavam dia-a-dia&#8230; E poderiam por a casa abaixo em quest\u00f5es de segundos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Voc\u00eas que fazem parte dessa massa\/ Que passam nos projetos do futuro\/ \u00c9 duro tanto ter que caminhar\/ E dar muito mais do que receber\/ E ter que demonstrar sua coragem\/ \u00c0 margem do que possa parecer\/ E ver que toda essa engrenagem\/  J\u00e1 sente a ferrugem lhe comer&#8230;&quot;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10201","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-caro-leitor"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10201"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14269,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10201\/revisions\/14269"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}