{"id":10217,"date":"2000-03-03T00:00:00","date_gmt":"2000-03-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T22:13:13","modified_gmt":"2017-09-14T22:13:13","slug":"o-sonho-de-ontem-e-a-farsa-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-sonho-de-ontem-e-a-farsa-de-hoje\/","title":{"rendered":"O sonho de ontem e a farsa de hoje"},"content":{"rendered":"<p>&quot;O amor nunca impediu ningu\u00e9m de seguir os pr\u00f3prios sonhos&quot;<\/p>\n<p>01. Era um desses pa\u00edses que t\u00eam tudo para dar certo. Uma alegre can\u00e7\u00e3o o definia como aben\u00e7oado por Deus e bonito por natureza. Sobravam riquezas naturais e minerais. Estava a salvo de cataclismas como maremotos, furac\u00f5es, terremotos. Possu\u00eda as esta\u00e7\u00f5es do ano bem definidas, o que favorecia o plantio em suas terras, tidas e havidas como amplas e generosas. Havia grandes mananciais de \u00e1gua e muito mais. Do seu povo, sabia-se que, no m\u00ednimo, era ordeiro, trabalhador e muito festeiro&#8230;<\/p>\n<p>02. Tratava-se, portanto, de uma Na\u00e7\u00e3o privilegiada. Mas, a situa\u00e7\u00e3o ia de mal a pior. Dif\u00edcil de acreditar, mas grande parte de sua gente vivia com a porta escancarada para a mis\u00e9ria. Passava fome, n\u00e3o tinha onde morar e faltava-lhe at\u00e9 a expectativa de dias melhores. A crise econ\u00f4mica corro\u00eda o ganho suado dos trabalhadores, liquidava as empresas de capital estritamente nacional, exterminava sonhos e anseios&#8230;<\/p>\n<p>03. \u00c9 bem verdade que uma \u00ednfima minoria tudo podia, tudo possu\u00eda &#8212; e queria sempre mais e mais. Locupletava-se como bem entendia, com abonos moradias e outras coisinhas mais. Ocupava altos cargos p\u00fablicos e exibia dotes inimagin\u00e1veis ao comum dos mortais. Mas, nem assim essa elite podia sorrir e escapar das preocupa\u00e7\u00f5es. A mis\u00e9ria absoluta e insensibilidade dos governantes acabaram por gerar uma onda de viol\u00eancia irrefre\u00e1vel. Assaltos, seq\u00fcestros, furtos, assassinatos, chacinas na periferia. Matava-se por um simples par de t\u00eanis. A lei do c\u00e3o. Todos estavam sob constante amea\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>04. \u00c9 o caos, a barb\u00e1rie&#8230; &#8212; clamavam alguns. Mas, a solu\u00e7\u00e3o andava distante. Eram esc\u00e2ndalos sobre esc\u00e2ndalos. Corrup\u00e7\u00e3o nas altas rodas. Os menores na delinq\u00fc\u00eancia. Os pol\u00edticos desacreditados. As institui\u00e7\u00f5es falidas. O desalento tomava conta de tudo e de todos. Cogitou-se, em outros tempos, um pacto social. Falou-se em di\u00e1logo das oposi\u00e7\u00f5es, entendimento suprapartid\u00e1rio, alian\u00e7as por isto e aquilo &#8212; e nada. Chegaram mesmo a forjar planos econ\u00f4micos, reformas estruturais e at\u00e9 mesmo um sal\u00e1rio m\u00ednimo na faixa dos 100 d\u00f3lares. Rotundos fracassos. Eram crises e mais crises. A Na\u00e7\u00e3o expirava&#8230;<\/p>\n<p>05. Em meio \u00e0 turbul\u00eancia, algu\u00e9m lembrou de um pr\u00edncipe-soci\u00f3logo que, num passado remoto, houvera cunhado escritos em prol dessa entidade chamada<br \/>\npovo. Al\u00e9m do que, sempre que se pronunciara em p\u00fablico, dava r\u00e1pidas solu\u00e7\u00f5es para os mais intricados problemas sociais. Era o homem, todos acreditaram. E o aclamaram o rei dos reis&#8230;<\/p>\n<p>06. O homem logo se imbuiu de todos os poderes &#8212; e, como conseq\u00fc\u00eancia, se viu rodeado de novos amigos e parceiros. Era uma ousadia contrari\u00e1-lo at\u00e9 porque seus discursos tornavam-se a cada dia mais empolgantes, e politicamente corretos. Suas falas, sempre encantadas, n\u00e3o deixavam qualquer problema sem solu\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds caminhava inexoravelmente para seu grande destino. S\u00f3 os s\u00faditos mais s\u00faditos n\u00e3o viam essas palavras transformarem-se em realidade e come\u00e7aram a chiar. Alguns alquimistas tamb\u00e9m desconfiavam, mas foram logo tachados de neobobos&#8230;<\/p>\n<p>07. Respostas sempre afiadas. Um ilibado renome internacional. Em perfeita sintonia com o momento global, de privatiza\u00e7\u00f5es e abertura do mercado aos mui amigos. Planos e projetos sempre aptos a serem anunciados, comentados, discutidos (e s\u00f3 isso, por\u00e9m) para uma m\u00eddia subserviente e d\u00f3cil. O homem estava se achando demais. Era t\u00e3o brilhante que, dias antes de um Carnaval, resolveu fazer uma concess\u00e3o \u00e0 plebe ignara e confessar seu sonho de garoto: queria ser ator. Ele que tudo podia &#8212; deve ter imaginado &#8212; que grande ator n\u00e3o seria&#8230; Houve quem concordasse, \u00e9 \u00f3bvio. Houve tamb\u00e9m quem entendesse e lamentasse o tamanho da insidiosa farsa que todos n\u00f3s estamos vivendo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;O amor nunca impediu ningu\u00e9m de seguir os pr\u00f3prios sonhos&quot;<\/p>\n<p>01. Era um desses pa\u00edses que t\u00eam tudo para dar certo. 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