{"id":10218,"date":"2000-12-01T00:00:00","date_gmt":"2000-12-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T21:59:50","modified_gmt":"2017-09-14T21:59:50","slug":"o-tempo-o-senhor-e-as-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-tempo-o-senhor-e-as-palavras\/","title":{"rendered":"O tempo, o senhor e as palavras"},"content":{"rendered":"<p>&quot;O tempo n\u00e3o p\u00e1ra no porto, n\u00e3o apita na curva, n\u00e3o espera ningu\u00e9m.&quot;<\/p>\n<p>01. Pisamos em dezembro, e um certo assombro nos cai dentro d\u2019alma. Creio mesmo, n\u00e3o podia ser diferente. Afinal, n\u00e3o \u00e9 um dezembro qualquer, \u00e9 dezembro do ano 2000, ano sobre o qual tanto falaram; prof\u00e9tico, cabal\u00edstico, definitivo, renovador&#8230;<\/p>\n<p>02. A reflex\u00e3o fica por conta do calend\u00e1rio, \u00e9 bem verdade. Mas tamb\u00e9m da consulta que um leitor veio fazer nas cole\u00e7\u00f5es de Gazeta do Ipiranga. Num canto de p\u00e1gina amarelecido pelo tempo, que o leitor bem aos moldes brasileiros esqueceu de colocar no lugar de origem, l\u00e1 est\u00e1 a entrevista que fiz com um certo senhor Eufr\u00e1zio l\u00e1 pelo fim dos anos 70. O forte sotaque nordestino denunciava as origens, que a tez morena, acentuada pelas profundas rugas no rosto, s\u00f3 fazia por confirmar. Ele morava no Conjunto Habitacional de Carapicu\u00edba e trabalhava numa fia\u00e7\u00e3o, aqui, na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>03. Lembro-me bem que falava pausadamente, com resigna\u00e7\u00e3o do seu batalhado dia-a-dia: a vida nem sempre nos d\u00e1 escolha, nos d\u00e1 outra sa\u00edda. A gente \u00e9 o que \u00e9. Tem o que tem &#8212; e pronto. Adianta nada ficar amuado. Desesperar-se tamb\u00e9m n\u00e3o. O jeito \u00e9 ir levando&#8230; Procurar fazer o melhor poss\u00edvel. Enfim ser um bom sujeito.<\/p>\n<p>04. \u00c0 \u00e9poca, est\u00e1 na reportagem, Eufr\u00e1zio beirava os 50. Al\u00e9m das oito horas di\u00e1rias de trabalho, tinha mais quatro de condu\u00e7\u00e3o. Fazia, disse-me em tom confidencial, por vezes, as contas dos anos que faltavam para sua aposentadoria. E tudo que havia acumulado, o fruto do seu trabalho, era o modest\u00edssimo apartamento. Coisa pouca &#8212; \u00e9 verdade. Mas, muito bem cuidado pela patroa e afilha do meio.<\/p>\n<p>05. Notei a\u00ed um inusitado brilho em seu rosto at\u00e9 ent\u00e0o austero. Bem maior que &#8212; explicou &#8212; s\u00f3 mesmo os quatro filhos e o neto &#8212; garoto rechonchudo de ano e tanto que mal se equilibra sobre as duas pernas. Recordo-me que, minha primeira impress\u00e3o, foi tax\u00e1-lo aos meus bot\u00f5es de conformista, resignado. O jeit\u00e3o \u00e9 ir levando&#8230;<\/p>\n<p>06. P\u00f4xa, atravess\u00e1vamos um per\u00edodo sombrio. Repleto de vicissitudes e incertezas. O militarismo come\u00e7ava a dar sinais de exaust\u00e3o. E ali sem questionamentos. N\u00e3o quero que meus filhos sejam pessoas ricas, milion\u00e1rias &#8212; dessas que t\u00eam de tudo. Deve ser muito bom. Mas, para eles, desejo apenas que tenham sa\u00fade e nunca se afastem do que \u00e9 certo, justo e honesto.<\/p>\n<p>07. Levei quase 30 anos para reconhecer a sapi\u00eancia das palavras desse s\u00f3lido senhor, de macac\u00e3o pu\u00eddo e barba por fazer. Sei l\u00e1 se foi a proximidade do novo mil\u00eanio (agora, sim, \u00e9 pra valer) ou se foi o desalento com tudo o que se v\u00ea, sei l\u00e1 o que foi. Ao ver o recorte do jornal, assaltou-me o impulso de escrever sobre esses poucos minutos de proveitoso conv\u00edvio. Penso que hoje, tamb\u00e9m nas quebradas do 50, entendo melhor a luminosidade de suas palavras e qual a real contribui\u00e7\u00e3o daquele senhor \u00e0 sociedade &#8212; formar pessoas \u00edntegras. \u00c9 s\u00f3 isso que o Brasil do Terceiro Mil\u00eanio precisa&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;O tempo n\u00e3o p\u00e1ra no porto, n\u00e3o apita na curva, n\u00e3o espera ningu\u00e9m.&quot;<\/p>\n<p>01. Pisamos em dezembro, e um certo assombro nos cai dentro d\u2019alma. 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