{"id":10223,"date":"1999-12-17T00:00:00","date_gmt":"1999-12-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T02:48:53","modified_gmt":"2017-09-15T02:48:53","slug":"olhos-de-menino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/olhos-de-menino\/","title":{"rendered":"Olhos de menino"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Todos esses que a\u00ed est\u00e3o atravancando meu caminho, eles passar\u00e3o&#8230; Eu passarinho!&quot; (M\u00e1rio Quintana)<\/p>\n<p>01. A emo\u00e7\u00e3o do professor Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o Witter comoveu todos que acompanharam os recentes fatos envolvendo o Museu do Ipiranga &#8212; desde a ilumina\u00e7\u00e3o externa acionada na noite de quinta-feira da semana passada, a posse da nova diretora, Raquel Gleizer, na tarde de segunda e o jantar-homenagem a Witter que aconteceu na mesma data. Todos esses momentos surpreenderam o ex-diretor do Museu com olhos de menino espantado, como se visse o mar pela primeira vez&#8230;<\/p>\n<p>02. Witter, na verdade, poderia estar olhando &#8212; e com justificado orgulho &#8212; para a luminosidade de uma obra que se revelava imposs\u00edvel h\u00e1 cinco\/seis anos, quando aqui aportou para reerguer o esquecido Museu Paulista da Universidade de S\u00e3o Paulo. \u00c0quela \u00e9poca, t\u00e3o distante da comunidade quanto da Academia, o Museu vivia um per\u00edodo de ostracismo e abandono, com o agravante de ter seu maior patrim\u00f4nio (que \u00e9 o pr\u00f3prio pr\u00e9dio) dilapidado pela a\u00e7\u00e3o devastadora do tempo e do troglodita Espet\u00e1culo de Luz e Som (\u00e0quele que fazia a apologia do regime militar)&#8230;<\/p>\n<p>03. Diante da dif\u00edcil tarefa, o professor come\u00e7ou convocando todas as for\u00e7as vivas que poderiam cerrar fileiras em prol do s\u00edmbolo maior de nossa Hist\u00f3ria. Revelou-se \u00fanico &#8212; e imbat\u00edvel &#8212; nesta fun\u00e7\u00e3o de agregar os diversos segmentos da sociedade. Foram chamadas as entidades do bairro, o seleto grupo de professores da USP, intelectuais de todos os matizes, a iniciativa privada, ministros e secret\u00e1rios de Estado e todos aqueles que quisessem &#8212; ou mesmo se dispusessem &#8212; ajudar. E o Museu Paulista viveu em tr\u00eas anos a maior reforma de sua centen\u00e1ria hist\u00f3ria, or\u00e7ada inicialmente em 2 milh\u00f5es de d\u00f3lares&#8230;<\/p>\n<p>04. Cabe aqui explicar o verdadeiro estado do Museu do Ipiranga em 94. Era tal a precariedade de suas instala\u00e7\u00f5es que a torre da ala direita corria o risco de desabar, afetada que estava por infiltra\u00e7\u00f5es de \u00e1gua e rachaduras. Quando do tal Luz e Som, foram pregados holofotes e gigantescas caixas de som sobre o pr\u00e9dio que afetaram algumas estruturas e provocaram um estrago consider\u00e1vel. Um estrago tido e havido, at\u00e9 \u00e0quela altura do campeonato, como irrecuper\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>05. N\u00f3s, do Ipiranga &#8212; e falo em nome de Dissei, professor Osmar, Laerte, Guilherme, Dr. Eduardo, Abdallah, Toninho Santo, Yamada e outros tantos que acompanharam esse trabalho extraordin\u00e1rio &#8211;, logo percebemos que est\u00e1vamos diante de um l\u00edder de raro poder aglutinador e, principalmente, empreendedor. Algu\u00e9m que ia al\u00e9m das palavras. Transformava a realidade. Fez valer o sonho. E o Museu do Ipiranga vive hoje um de seus momentos de maior relev\u00e2ncia &#8212; \u00e9 o segundo museu mais visitado do Pa\u00eds (250 mil pessoas\/ano), s\u00f3 perdendo para o de Petr\u00f3polis no Rio de Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>06. Quem sabe faz a hora. O professor Witter parafraseou o poeta na noite de segunda-feira quando agradeceu a singela &#8212; mas, just\u00edssima &#8212; homenagem que lhe ofereceram lideran\u00e7as locais. O professor soube fazer tamb\u00e9m sua hora de sair. Por uma dessas mix\u00f3rdias pseudamente administrativas do governo FHC, Witter precisou se aposentar da USP ap\u00f3s quatro d\u00e9cadas de dedica\u00e7\u00e3o e trabalho. Perdeu a universidade, perdeu o Museu, perdemos todos n\u00f3s&#8230; O olhar mais alongado do mestre espreita agora novos desafios&#8230;<\/p>\n<p>07. Saber\u00e1 venc\u00ea-los, n\u00e3o tenho d\u00favidas. Assim como n\u00e3o duvido que, quando as luzes se acenderam pela primeira vez, na inesquec\u00edvel noite de quinta-feira, e a silhueta imponente do Museu se projetou aos olhos de todos os deslumbres, o menino Witter olhava para dentro da alma e saboreava o doce prazer dos que sabem fazer a hora acontecer&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Todos esses que a\u00ed est\u00e3o atravancando meu caminho, eles passar\u00e3o&#8230; Eu passarinho!&quot; (M\u00e1rio Quintana)<\/p>\n<p>01. 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