{"id":10224,"date":"1998-08-28T00:00:00","date_gmt":"1998-08-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T03:22:34","modified_gmt":"2017-09-15T03:22:34","slug":"aonde-vamos-parar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/aonde-vamos-parar\/","title":{"rendered":"Aonde vamos parar?"},"content":{"rendered":"<p>01. Ele me parou na rua para pedir explica\u00e7\u00f5es sobre mundo. Idade imprecisa, entre os 40 e muitos e os 50 e poucos, queria saber o que estava acontecendo, pois j\u00e1 n\u00e3o era menino e cada vez entendia menos a tal sociedade que vivemos. &quot;Os jornais falam muito, escrevem muito e n\u00e3o informam o que a gente precisa realmente saber&quot;, disse em tom de cobran\u00e7a. E todo o dia vem uma enxurrada de fatos novos, previs\u00f5es nebulosas, interpreta\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas. \u00c9 viol\u00eancia e mais viol\u00eancia. &quot;Onde vamos parar?&quot;, perguntou. &quot;Ningu\u00e9m d\u00e1 valor \u00e0 vida humana. \u00c9 o fim do mundo!&quot;<\/p>\n<p>02. Tentei uma primeira explica\u00e7\u00e3o, mas fiquei s\u00f3 na tentativa. O meu novo amigo (e ao que tudo indica ass\u00edduo leitor) estava indignado &#8212; e com a corda toda. &quot;Veja o caso do ator da Globo que foi estupidamente baleado numa estrada paulista. Que coisa mais absurda, desumana&#8230; E ainda ouvi numa emissora de r\u00e1dio o secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a dizer que n\u00e3o se pode viajar \u00e0 noite&#8230; De madrugada, ent\u00e3o, nunca. Em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 conveniente que se forme uma esp\u00e9cie de comboio&#8230; Ora, meu Deus do c\u00e9u, esse senhor tem mais que tratar de policiar mais as estradas, assumir a sua responsabilidade e, por que n\u00e3o?, at\u00e9 a sua culpa pela viol\u00eancia generalizada que se v\u00ea pelos quatro cantos do Estado&#8230;&quot;<\/p>\n<p>03. Entendo perfeitamente o desabafo do amigo. E chego a insinuar que essa fobia urbana \u00e9 inerente \u00e0 vida moderna, ao dia-a-dia das grandes metr\u00f3poles, \u00e0 competi\u00e7\u00e3o que se enfrenta em cada passo rumo ao que se entende como realiza\u00e7\u00e3o profissional. Nossa vida pessoal anda meio esquecida, n\u00e3o \u00e9? &#8212; pergunto meio que sem querer&#8230; Ele nem me responde e continua no mesmo mote. &quot;Olha, companheiro, o caso do Gerson Brenner s\u00f3 teve o espa\u00e7o que teve porque ele \u00e9 artista de novela. Diariamente os distritos policiais registram casos iguais e, se \u00e9 que se pode dizer, at\u00e9 piores. Infelizmente&#8230; Chacinas, latroc\u00ednios, man\u00edacos&#8230; Ainda agora, manh\u00e3 de quinta-feira, chega a not\u00edcia de um assalto com morte nas imedia\u00e7\u00f5es da Tancredo Neves. Quanta aberra\u00e7\u00e3o! Ser\u00e1 que a gente t\u00e1 deixando de ser gente?&quot;<\/p>\n<p>04. N\u00e3o sei, n\u00e3o. Mas, que as pessoas andam estranhas n\u00e3o resta a menor d\u00favida. Essa bronca toda faz sentido e, acredite, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea que se assusta diante desse irracional endurecimento do ser humano. De olho nas almejadas conquistas materiais, todos n\u00f3s, que nos incluimos entre a elite pensante deste Pa\u00eds, acabamos por privilegiar o individual no lugar do coletivo &#8212; e isso, mais a in\u00e9pcia dos governantes que se sucederam, mas n\u00e3o se renovaram, acabou gerando esse calamitoso estado de coisas.<\/p>\n<p>05. Lembro que, pelos idos dos anos 70, o jornalista Mino Carta escreveu sobre a perda da identidade cultural da classe m\u00e9dia brasileira. Ele antevia problemas graves a m\u00e9dio prazo para os grandes centros, que estavam sendo tomados por bols\u00f5es de mis\u00e9ria vindos dos quatro cantos do Pa\u00eds. Esse contingente de desvalidos s\u00f3 tenderia aumentar diante de nosso olhar de suposta superioridade e das mazelas daqueles que tudo lhes negam e nos nos representam no Congresso Nacional. Sem as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, emprego, habita\u00e7\u00e3o&#8230;), acabariam por se rebelar. \u00c9 a guerrilha urbana que ora vivemos. Uma luta sem p\u00e1tria, sem ideologia, sem porqu\u00eas. \u00c9 o que hoje vivemos, lamentavelmente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01. Ele me parou na rua para pedir explica\u00e7\u00f5es sobre mundo. 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