{"id":10245,"date":"1999-07-30T00:00:00","date_gmt":"1999-07-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T02:57:01","modified_gmt":"2017-09-15T02:57:01","slug":"saudade-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/saudade-do-brasil\/","title":{"rendered":"Saudade do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Desconfie do sol que esquenta, mas n\u00e3o aquece&#8230;&quot;<\/p>\n<p>01. Os olhos de Bituca est\u00e3o transl\u00facidos. V\u00eaem o que h\u00e1 anos &#8212; sabe-se l\u00e1 quantos? &#8212; n\u00e3o viam. Viajam num tempo do tempo que j\u00e1 se perdeu. Misturam impress\u00f5es e lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>02. Bituca \u00e9 o apelido do cantor e compositor Milton Nascimento que na tarde\/noite de quarta-feira esteve no sal\u00e3o Carinhoso, aqui no bairro, gravando um quadro para o programa Video Show. Quem o conhece nem discute. Sabe que \u00e9 o Bituca &#8212; e n\u00e3o o Milton &#8212; quem est\u00e1 ali admirando-se com os casais dan\u00e7ando, aplaudindo os m\u00fasicos, trocando informa\u00e7\u00f5es com o maestro Rosendo&#8230; Bituca\/Milton se surpreende quando ouve os acordes de Can\u00e7\u00e3o do Estudante que a cantora Marlene interpreta com alma e cora\u00e7\u00e3o. Uma emo\u00e7\u00e3o danada, diz o t\u00edmido Bituca. Um momento glorioso, inesquec\u00edvel para a cantora: &quot;vou lembrar para o resto da minha vida.&quot;<\/p>\n<p>03. Os olhos de Bituca parecem olhos de saudade do Brasil de ontem. Dos tempos em que era crooner de orquestra e cantava de tudo um pouco pelas pequenas cidades do interior de Minas Gerais. O Brasil que voava nas asas da Panair, o Brasil que ousava provocar o sonho e acreditar na esperan\u00e7a. \u00c9 um pouco disso tudo que tento resgatar no show que atualmente fa\u00e7o no Palace&#8230; Me bateu uma baita saudade, cara. Olha, eu sou mesmo um cantor. At\u00e9 cometo algumas can\u00e7\u00f5es como compositor. Mas, o que pega mesmo, em mim, \u00e9 cantar &#8212; e no palco. Veja que barato esse pessoal cantando, dan\u00e7ando&#8230; H\u00e1 tempos n\u00e3o vivia uma coisa assim&#8230;<\/p>\n<p>04. A cidade sitiada por caminh\u00f5es, os trabalhadores nas ruas por garantia de emprego, o governo amea\u00e7ando chamar o Ex\u00e9rcito para acabar com a desordem e a m\u00eddia invertebrada incitando a opini\u00e3o p\u00fablica a acreditar que \u00e9 a for\u00e7a que vai dar jeito no Pa\u00eds&#8230; O Brasil de hoje n\u00e3o cabe no universo l\u00fadico do sempre menino Bituca. Nunca pensei em fazer outra coisa na vida. Acho que nasci cantor. \u00c9 o que sabe fazer, \u00e9 o que faz com a sinceridade de prop\u00f3sitos dos justos e a integridade dos sinceros.<\/p>\n<p>05. Seguramente s\u00e3o esses ingredientes not\u00e1veis que hoje n\u00e3o encontramos em nosso homem p\u00fablico. Sua sinceridade de prop\u00f3sito n\u00e3o vai al\u00e9m do que lhe interessa em termos de Poder. A integridade, ent\u00e3o, varia conforme o p\u00fablico, hor\u00e1rio e canal. E assim caminhamos em meio a mediocridade geral, \u00e0 mis\u00e9ria cada vez mais abrangente, \u00e0 vulgariza\u00e7\u00e3o de valores \u00e9ticos, morais e sociais. O nosso homem p\u00fablico anda cada vez mais distante da realidade que nos bate \u00e0 porta todos os dias. Basta ver essa rid\u00edcula pendenga entre ACM e FHC sobre o tal imposto para os pobres que, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 mais um golpete para enfiar a m\u00e3o no meu, no seu, no nosso ralo dinheirinho de todo fim de m\u00eas.<\/p>\n<p>06. E n\u00e3o venha o presidente clamar pelas For\u00e7as Armadas para restituir a ordem que, diz ele, est\u00e1 amea\u00e7ada pelos caminhoneiros. Ali\u00e1s, acrescente-se, FHC devia saber melhor do que ningu\u00e9m. Essa amea\u00e7a j\u00e1 perdura por quatro anos e meio sob sua tutela, quando se celebrou o desgoverno e o baile das privatiza\u00e7\u00f5es, onde todos dan\u00e7amos ao estridente som dos telefones ocupados ou sem linha, das explos\u00f5es e dos blackouts, da desmoraliza\u00e7\u00e3o do Real e dos ped\u00e1gios a cada meio metro de estrada. E agora ainda franze o senho e nos intimida com o rompante das marchas marciais&#8230;<\/p>\n<p>07. Seria bom que o presidente e sua trupe ouvissem e professassem os versos que Bituca consagrou: todo artista deve ir aonde o povo est\u00e1. Seria muito melhor que o presidente soubesse, ao menos, quem \u00e9 o seu povo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Desconfie do sol que esquenta, mas n\u00e3o aquece&#8230;&quot;<\/p>\n<p>01. Os olhos de Bituca est\u00e3o transl\u00facidos. V\u00eaem o que h\u00e1 anos &#8212; sabe-se l\u00e1 quantos? &#8212; n\u00e3o viam. 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