{"id":10269,"date":"2001-07-20T00:00:00","date_gmt":"2001-07-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T21:48:08","modified_gmt":"2017-09-14T21:48:08","slug":"um-tempo-que-nao-viu-o-brasil-passar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-tempo-que-nao-viu-o-brasil-passar\/","title":{"rendered":"Um tempo que n\u00e3o viu o Brasil passar&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Viver \u00e9 assim. Aturdir-se&#8230;&#8221; (Jo\u00e3o Ant\u00f4nio)<\/p>\n<p>01. Com a devida v\u00eania do colega e advogado dos mais ilustres Laerte Toporcov, tomo a liberdade de basear a coluna desta semana numa das observa\u00e7\u00f5es feitas na tradicional se\u00e7\u00e3o Amigo do Bairro da semana passada. Em uma das notas, l\u00e1 pelas tantas, Toporcov pespegou nost\u00e1lgico a express\u00e3o: depois de um tempo que n\u00e3o vi passar&#8230; Coisa bonita! Bem que poderia virar t\u00edtulo de livro.<\/p>\n<p>02. Perdoe-me, caro Laerte, a apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita. Pois daqui para frente quero tocar essas maltra\u00e7adas em cima desse tempo que n\u00e3o vi passar. Recorda\u00e7\u00f5es, certamente. Mas quantas delas nos revelam, com clareza, os descaminhos que hoje enfrentamos, seja \u00e2mbito pessoal (problemas, quem n\u00e3o os t\u00eam?), seja no \u00e2mbito coletivo. E, neste \u00edtem, temos o quadro de miserabilidade em todos os sentidos que ataca o nosso Brasilz\u00e3o velho de guerra.<\/p>\n<p>03. Antes por\u00e9m valho-me de uma distin\u00e7\u00e3o feita pelo cronista Carlos Heitor Cony entre nostalgia e melancolia. Nostalgia, diz o escriba, \u00e9 quando se tem a sensa\u00e7\u00e3o dos bons momentos que vivemos. Quase sempre tem um jeito de doce recorda\u00e7\u00e3o, mas &#8212; tal e qual uma dose de Campari, se me permite a compara\u00e7\u00e3o &#8212; amarga no final, visto que \u00e9 inarred\u00e1vel o fluir do tempo e aquele preciso momento n\u00e3o volta mais. Melancolia \u00e9 aquele vazio do que poderia ter sido e n\u00e3o foi, portanto nunca ser\u00e1, uma vez que se perdeu no tempo e nos espa\u00e7o. Quantos sonhos deixamos pelo caminho&#8230;<\/p>\n<p>04. Lembro-me da observa\u00e7\u00e3o de outro amigo a quem cham\u00e1vamos, aqui na Reda\u00e7\u00e3o, de Havengar, dado \u00e0 semelhan\u00e7a f\u00edsica com o ator Ant\u00f4nio Abujamra, que \u00e0 \u00e9poca participava de uma novela global e seu personagem tinha esse nome. O amigo dizia que o saudoso senador Franco Montoro era um homem melanc\u00f3lico, pois perdera o passo da Hist\u00f3ria e nos \u00faltimos anos vira seu projeto de alcan\u00e7ar a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica esbalrroar-se porque durante a campanha das Diretas-J\u00e1 (nos idos dos anos 80) dois outros nomes sobrepujaram o seu: Ulysses Guimar\u00e3es e Tancredo Neves. Aquele era o momento de Montoro, ent\u00e3o governador de S\u00e3o Paulo; posteriormente seu nome sequer foi cogitado. Em 89, o candidato do PSDB foi M\u00e1rio Covas e em 94, como todos sabemos e lamentamos, deu FHC&#8230;<\/p>\n<p>05. Mas deixemos a melancolia de fora nesse t\u00f3pico. Falemos da nostalgia. Diz um velho samba que recordar \u00e9 viver. Pessoalmente, cada um de n\u00f3s tem l\u00e1 suas passagens m\u00e1gicas, aquele t\u00fanel do tempo onde mergulhamos sempre que os olhos turvam e alma endurece. Particularmente, gosto de lembrar a estr\u00e9ia do meu filho como goleiro do Clube Atl\u00e9tico Ypiranga. O garoto estava com seis anos e formava ao lado do Alexandre Simoni (hoje campe\u00e3o internacional de t\u00eanis) e Jorginho (o Paulista, lateral que joga no Vasco) uma equipe forte. Venceu os mamadeiras do Nacional por 2&#215;0 e foi uma sensa\u00e7\u00e3o que ainda hoje n\u00e3o sei descrever. Misturou ansiedade, apreens\u00e3o, cuidado, realiza\u00e7\u00e3o e muita alegria. Coisa de pai coruja, mas inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>06. Felizes os que t\u00eam o que lembrar, disse-me o mesmo Havengar, antes de esquizinar-se mundo afora. A barra hoje anda pra l\u00e1 de pesada. N\u00e3o cabe devaneios. D\u00e1 uma melancolia danada ver o Brasil de ACMs, Lalaus, J\u00e1ders e quetais. Da Bahia em cacos. Dos pres\u00eddios superlotados onde se enjaula toda uma gera\u00e7\u00e3o que seria o futuro do pa\u00eds (em torno de 80 por cento dos presidi\u00e1rios t\u00eam menos de 25 anos). Dos juros nas alturas, que engessa a Economia e gera desemprego. Da desfa\u00e7atez dos nossos governantes, sempre a improvisar um discurso de feitos e realiza\u00e7\u00f5es que nunca se refletem na qualidade de vida da nossa gente. Gente que ainda sonha e quer acreditar, como se vivessemos a euforia dos anos doirados. Mas, vaga incerta na dura realidade de um tempo que n\u00e3o viu o Brasil passar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Viver \u00e9 assim. 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