{"id":10290,"date":"2000-02-04T00:00:00","date_gmt":"2000-02-04T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:53:38","modified_gmt":"2017-09-13T19:53:38","slug":"antonio-fagundes-o-teatro-e-a-patria-do-ator","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/antonio-fagundes-o-teatro-e-a-patria-do-ator\/","title":{"rendered":"Antonio Fagundes: O teatro \u00e9 a P\u00e1tria do ator"},"content":{"rendered":"<p>Engana-se quem for assistir ao espet\u00e1culo \u00daltimas Luas com a inten\u00e7\u00e3o de aplaudir o sisudo Coronel Gumercindo, da novela Terra Nostra. Engana-se tamb\u00e9m quem pensa ver o ator Antonio Fagundes no vigor de seus 50 anos a provocar suspiros de f\u00e3s apaixonadas. Quem for ao Teatro Cultura Art\u00edstica, que se prepare: Fagundes est\u00e1 irreconhec\u00edvel.<\/p>\n<p>Em cena, transforma-se num professor septuagen\u00e1rio, com os tiques caracter\u00edsticos da idade &#8211; a postura curvada, o andar arrastado e rompantes de absoluta lucidez. &#8220;\u00c9 um personagem perturbador, de exce\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; define Fagundes que o interpreta desde o ano passado. &#8220;Ele \u00e9 vigoroso, apesar da idade e da crise afetiva que est\u00e1 vivendo. Tem um senso de humor extraordin\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a pe\u00e7a do italiano Furio Bordon lhe garantiu o pr\u00eamio de Melhor Ator pela Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte, al\u00e9m de elogios rasgados de toda a critica especializada. Prestes a completar 35 anos de carreira (come\u00e7ou em 1966 aos 17 anos), o ator \u00e9 dono de um curr\u00edculo invej\u00e1vel. Participou de 21 novelas, 15 teleteatros, tr\u00eas seriados para televis\u00e3o e 37 longas metragens.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 no teatro onde se realiza plenamente. &#8220;O teatro \u00e9 a p\u00e1tria do ator, diz com a convic\u00e7\u00e3o de quem participou de mais de 40 espet\u00e1cuIos teatrais. &#8220;\u00daltimas Luas conta o nosso medo de amar, sonhar, abra\u00e7ar, chorar, pedir&#8221; &#8211; ressalta o diretor Jorge Takla. &#8220;O trabalho mais transformador e definitivo dos meus 25 anos de teatro&#8221;, completa.<\/p>\n<p>Narra a hist\u00f3ria de um professor de Literatura aposentado que decide ir morar num asilo e deixar a pr\u00f3pria casa para o filho (Petr\u00f4nio Gontijo) e a fam\u00edlia. Nos \u00faltimos momentos, antes de partir, ele tem um tocante di\u00e1logo com a lembran\u00e7a da esposa (Mara Carvalho), que morreu quando ainda era jovem. &#8220;S\u00f3 o teatro permite esse momento m\u00e1gico, essa fa\u00edsca, esse encontro com o imponder\u00e1vel&#8221;, diz Fagundes.<\/p>\n<p>Na quinta-feira (13), pouco antes de entrar em cena Ant\u00f4nio Fagundes falou sobre a montagem, do prazer de estar no palco, da fun\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica do ator e at\u00e9 do mau humor do Coronel Gumercindona novela. &#8220;E vai ficar pior&#8221;, insinuou.<\/p>\n<p>GI &#8211; Raras vezes vi em cena tamanha comunh\u00e3o entre atores e plat\u00e9ia. A sensa\u00e7\u00e3o que passa, durante os aplausos, no final do espet\u00e1culo \u00e9 que todos se sentiram plenamente realizados pelos momentos que acabavam de viver.<\/p>\n<p>Fagundes &#8211; \u00c9 verdade. \u00c9 um espet\u00e1culo que me realiza plenamente. Se voc\u00ea pegar o meu curr\u00edculo como ator, vai ver que venho perseguindo esse tipo de comunh\u00e3o. Sempre pautei a escolha dos meus espet\u00e1culos no sentido de tocar a plat\u00e9ia, seja pelo aspecto pol\u00edtico, seja pela emo\u00e7\u00e3o, seja mesmo pelo humor caustico. Alguma coisa me move, repito, como ator a caminhar nessa dIre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>GI &#8211; E a pe\u00e7a do Italiano Furio Bordon caminha nesse sentido&#8230;<\/p>\n<p>F &#8211; \u00c9 mesmo um texto iluminado. Trata de arqu\u00e9tipos da sociedade. Tanto que nenhum dos personagens tem nome, \u00c9 o pai, a esposa, o filho&#8230; O \u00fanico personagem que tem nome, n\u00e3o aparece em cena, \u00e9 o neto Andr\u00e9. Hoje ningu\u00e9m est\u00e1 imune \u00e0 quest\u00e3o da velhice. Por isso, \u00e9 um texto pol\u00edtico tamb\u00e9m. Toca em feridas sociais que est\u00e3o a\u00ed, e ningu\u00e9m parece ver. Especialmente quando se vive numa sociedade inteiramente voltada para a produtividade e que exclui aqueles que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o capazes de gerar trabalho. Na verdade, todos estamos envolvidos nisso &#8211; e de uma forma bem cruel conosco mesmo. Pois, ou n\u00f3s envelhecemos ou morremos, Pior: depois de ficar velho, vamos morrer. Ali\u00e1s, o texto fala claramente isso em determinado momento: &#8220;O homem \u00e9 o \u00fanico macaco triste porque tem certeza que um dia vai desaparecer&#8221;. Em suma, \u00e9 uma proposta abrangente porque se oferece \u00e0 plat\u00e9ia plenamente. E a gente se sente emocionado porque p\u00f4de perceber que, desde o primeiro dia, a plat\u00e9Ia entendeu e retribuiu essa entrega.<\/p>\n<p>GI &#8211; S\u00f3 o teatro pode dar o reconhecimento ao ator t\u00e3o imediato, t\u00e3o completo, diria&#8230; No cinema, na TV como se d\u00e1 essa resposta? Tem a mesma for\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>F &#8211; O teatro \u00e9 a p\u00e1tria do ator. Ent\u00e3o o envolvimento do p\u00fablico se d\u00e1 num n\u00edvel de maior proximidade, maior for\u00e7a. A rea\u00e7\u00e3o da plat\u00e9ia. \u00e9 quase parte integrante do espet\u00e1culo. \u00c9 claro que numa novela, no cinema, a gente tem manifesta\u00e7\u00f5es de carinho. Mas, com essa for\u00e7a m\u00e1gica, diria que s\u00f3 mesmo o teatro. \u00c9 mesmo inexplic\u00e1vel. Voc\u00ea, ali na plat\u00e9ia, acaba chorando, rindo, se emocionando com aquele velhinho de 80 anos que, na realidade, n\u00e3o existe. \u00c9 o Antonio Fagundes, ator com 50 anos, que n\u00e3o tem aquele problema familiar, de afetividade. Se olhar para o lado, vai ver algu\u00e9m assoando o nariz. Nada a ver. No entanto, aquele \u00e9 o seu universo naquele instante. O que \u00e9 que faz com que nos emocionemos tanto a n\u00e3o ser essa fa\u00edsca, essa mag\u00eda, o imponder\u00e1vel que o teatro, como nenhuma arte, sabe tocar? \u00c9 uma coisa louca mesmo.<\/p>\n<p>GI &#8211; Como \u00e9 interpretar um personagem 30 anos mais velho. At\u00e9 fisicamente, voc\u00ea se transforma. Tem uma postura mais curvada, caminha arrastando-se.<\/p>\n<p>F &#8211; Todo o ator precisa ter obrigatoriamente esse poder de observa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que chamo de deforma\u00e7\u00e3o profissional. Muitas vezes, pode parecer at\u00e9 cruel para quem est\u00e1 de fora. Estou andando na rua e paro para observar o caminhar arrastado de um velho. At\u00e9 inconscientemente fa\u00e7o isso. \u00c9 por a\u00ed. O ator est\u00e1 em constante pesquisa, em constante preparo. N\u00e3o \u00e9 apenas um trabalho que vale, \u00e9 sim toda sua experi\u00eancIa de vida. Sei que algum dia essas observa\u00e7\u00f5es v\u00e3o me servir para compor um personagem t\u00e3o maravilhoso como este&#8230;<\/p>\n<p>GI &#8211; O personagem tem um diferencial marcante. Ele \u00e9 um homem sens\u00edvel, culto, mas que tem como grande sonho na vida ser um dos sobrinhos do Pato Donald&#8230;<\/p>\n<p>F &#8211; Pois \u00e9, o Mill\u00f4r Fernandes (que fez a tradu\u00e7\u00e3o) no texto do encarte diz que todos n\u00f3s um dia sonhamos ser o Tio Patinhas. Ningu\u00e9m nunca se imaginou como o Huguinho, o Zezinho ou o Luisinho. O personagem \u00e9 t\u00e3o rom\u00e2ntico, t\u00e3o perspicaz que sonha ser e n\u00e3o ter. Ali\u00e1s, penso que o grande truque do Furio Bordon \u00e9 ter feito este personagem mesmo de exce\u00e7\u00e3o, perturbador. N\u00e3o \u00e9 um personagem do qual se sente pena. Ele \u00e9 vigoroso, apesar da idade e da crise afetiva que est\u00e1 vivendo. Mas, tem um senso de humor extraordin\u00e1rio. \u00c9 ele que tem o dinheiro na fam\u00edlia. As decis\u00f5es, ali, quem toma \u00e9 ele. \u00c9 s\u00f3 mesmo uma quest\u00e3o de rela\u00e7\u00e3o afetiva mesmo. Se fosse doente, se fosse fr\u00e1gil, talvez a gente n\u00e3o se identificasse tanto.<\/p>\n<p>GI &#8211; O texto discute a velhice de forma tocante, mas em profundidade. O que lhe levou \u00e0 escolha desse texto&#8230;<\/p>\n<p>F &#8211; Acho que uma das fun\u00e7\u00f5es do teatro \u00e9 ser um cronista de seu tempo, um cr\u00edtico de sua \u00e9poca, um arauto das mudan\u00e7as que batem \u00e0 nossa porta. O espet\u00e1culo emociona, mas tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para um problema que nos recusamos a discutir: a velhice. E, ao que consta, a sociedade n\u00e3o pode mais se dar a esse luxo. Daqui a 20 anos haver\u00e1 um quarto da popula\u00e7\u00e3o mundial com mais de 60 anos. A popula\u00e7\u00e3o do Brasil ser\u00e1 de 200 milh\u00f5es de habitantes, portanto aproximadamente 50 milh\u00f5es de pessoas ter\u00e3o mais de 60 anos. \u00c9 importante que desde j\u00e1 discutamos o assunto. E mais: \u00e9 importante que tenhamos, desde j\u00e1, consci\u00eancia de que estamos chegando l\u00e1. No pr\u00f3ximo ano, completo 35 anos de carreira. Poderia me aposentar com 51 anos. Vamos supor que me obrigassem a parar de trabalhar, ia viver como mais 20, 30 anos? Obviamente, essas pessoas precisam continuar em atividade e isso vai gerar um outro momento social e \u00e9 bom que, desde j\u00e1, reflitamos sobre poss\u00edveis conflitos.<\/p>\n<p>GI &#8211; E o teatro \u00e9 uma das pedras de toque para que a sociedade se d\u00ea conta desses conflitos, dessas mudan\u00e7as. Voc\u00ea acredita nesta for\u00e7a?<\/p>\n<p>F &#8211; Essa \u00e9 a quest\u00e3o. Por isso, ainda n\u00e3o se pode falar em renascimento do cinema quando detectarmos que o p\u00fablico \u00e9 parte integrante do processo. Idem, para o teatro. Voc\u00ea n\u00e3o precisa se submeter ao que se imagina seja popular. Repetir o tatibitati de sempre. Voc\u00ea pode integr\u00e1-Io ao processo. Propor id\u00e9ias, atitudes, mudan\u00e7as. Que o espet\u00e1culo seja acess\u00edvel a ele. Que se ele n\u00e3o entender pelo contexto filos\u00f3fico ou mesmo pol\u00edtico, vai prende-Io pela emo\u00e7\u00e3o e, sobre tudo, pela identifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 por a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>* Gazeta do Ipiranga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Engana-se quem for assistir ao espet\u00e1culo \u00daltimas Luas com a inten\u00e7\u00e3o de aplaudir o sisudo Coronel Gumercindo, da novela Terra Nostra. 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