{"id":10291,"date":"2005-08-19T00:00:00","date_gmt":"2005-08-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:42:17","modified_gmt":"2017-09-13T19:42:17","slug":"eu-paraninfo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/eu-paraninfo\/","title":{"rendered":"Eu, paraninfo"},"content":{"rendered":"<p>(Recuperei de mem\u00f3ria as palavras que disse \u00e0 turma de formandos em jornalismo da Faculdade de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas na sexta, dia 19 de agosto, no sal\u00e3o nobre da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo.)<\/p>\n<p>Boa noite a todos.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre muito honroso participar de solenidades como esta, especialmente na condi\u00e7\u00e3o de paraninfo de turmas de formandos em jornalismo. N\u00e3o sei exatamente o que dizer a voc\u00eas. At\u00e9 porque sou o \u00faltimo a falar e os pronunciamentos da Al\u00edcia, da Talita e do professor Tarquini j\u00e1 disseram tudo ou quase tudo sobre as d\u00favidas, os dramas e os desafios da nossa profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, me valho um pouco da fala de cada um, se me permitem, para fazer a minha fala. Come\u00e7o lembrando a discuss\u00e3o sobre o lead que a Al\u00edcia p\u00f4s em xeque. Esta t\u00e9cnica foi implantada no jornalismo brasileiro na d\u00e9cada de 50 e \u00e9 fundamental para compreens\u00e3o do texto jornal\u00edstico. E n\u00e3o se inventou nada melhor para substitu\u00ed-la no sentido, inerente ao jornalismo, de contextualizar a informa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m como a Al\u00edcia, que citou um de seus \u00eddolos, N\u00e9lson Rodrigues, vou usar uma frase daquele que considero o melhor texto do jornalismo e da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Rubem Braga.<\/p>\n<p>Recorro a frase do velho Braga para fazer o meu lead.<\/p>\n<p>&#8212; Gl\u00f3ria ao padeiro que acredita no p\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma frase que professa o amor pelo que se faz e \u00e9. Sou jornalista. Estou professor. Mas, sou jornalista e ponto. Voc\u00eas, a partir de hoje, se formam jornalistas e&#8230;<\/p>\n<p>Eis o desafio da gera\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, n\u00e3o s\u00f3 como rep\u00f3rteres, que \u00e9 a ess\u00eancia do jornalismo, mas como cidad\u00e3os de um Pa\u00eds chamado Brasil. Eis o desafio, repito. Voc\u00eas v\u00e3o precisar inventar o pr\u00f3prio espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o e vida. Preencher com trabalho e vida o que ainda est\u00e1 em aberto, insinuado pelas retic\u00eancias&#8230;<\/p>\n<p>Como se faz isso?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Nas salas de aula, l\u00e1 est\u00e1vamos por meses a fio, a discutir a quest\u00e3o dos pilares do jornalismo. O respeito \u00e0 verdade factual. As fun\u00e7\u00f5es cr\u00edtica e fiscalizadora. A validade ou n\u00e3o do lead, da objetividade. As quest\u00f5es \u00e9ticas, que s\u00e3o sempre mais rigorosas quando falamos do nosso vizinho ou da publica\u00e7\u00e3o concorrente. Os grandes jornalistas: Cl\u00e1udio Abramo, Mino Carta, Cony&#8230;<\/p>\n<p>Para explicar melhor o meu n\u00e3o sei, se \u00e9 que um n\u00e3o sei merece explica\u00e7\u00e3o, amparo-me no escritor mineiro, Pedro Nava, que escreveu certa vez sobre a import\u00e2ncia ou melhor a relatividade da experi\u00eancia. A experi\u00eancia, comparou ele n\u00e3o exatamente com essas palavras, est\u00e1 para a vida assim como um autom\u00f3vel a transitar por uma estrada escura, com os far\u00f3is a iluminar o caminho j\u00e1 percorrido. O passado \u00e0s claras, a sedimentar nossa hist\u00f3ria. O presente fugidio a nos escapar pelos v\u00e3os dos dedos, como contornos de cidades perdidas que sabemos existir ali na linha do horizonte, s\u00f3 pelo olhar. E \u00e9 o avan\u00e7ar do carro que corajosamente projeta o futuro ainda embrenhado em sombras e incertezas&#8230; (J\u00e1 repararam o tanto que existe de pessoas que gostam de viver presas ao passado, presas a preconceitos e a experi\u00eancia j\u00e1 vividas, repetidas, mecanizadas&#8230; O tanto de pessoas que se perdem na estrada por ficar a espreita do tempo que se vai&#8230; Que n\u00e3o vive o presente para esperar o futuro?)<\/p>\n<p>Pois bem, senhores. A Talita falou do dia-a-dia da profiss\u00e3o, o Tarquini lembrou a import\u00e2ncia de se amar o que se faz. Se me permitem, vou repetir os dois e dar um toque para voc\u00eas. Um toque, sim. N\u00e3o um conselho. Amem e sonhem. O amor \u00e9 indispens\u00e1vel no dia-a-dia da profiss\u00e3o. \u00c9 indispens\u00e1vel \u00e0 vida, ali\u00e1s. At\u00e9 porque como escreveu M\u00e1rio Quintana, \u2018quem ama inventa o ser amado\u2019&#8230; E voc\u00eas v\u00e3o inventar um jeito pr\u00f3prio de fazer jornalismo. Mesmo com todas as limita\u00e7\u00f5es que enfrentamos. Na ditadura dos manuais, nas diversas crises pol\u00edticas que o Pa\u00eds sempre atravessou e hoje atravessa mais uma. Dura, cruel, devastadora.<\/p>\n<p>Mas, reparem, como nem tudo est\u00e1 perdido. A not\u00edcia mais importante que li nos \u00faltimos tempos foi a descoberta pelos astr\u00f4nomos daquele planeta de possibilidades imposs\u00edveis. Sabem qual? Aquele que existe onde nunca deveria existir qualquer coisa, porque as leis da f\u00edsica n\u00e3o permitem, as leis das probabilidades. Um planeta que possui tr\u00eas estrelas solares. Um planeta que ousei chamar de Planeta Sonho.<\/p>\n<p>Olha que bela li\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 o universo.<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia do sonho. E nossa profiss\u00e3o n\u00e3o existe sem o sonho e a utopia de um mundo melhor. L\u00e1 no mais antigo dos anos, ainda estudante de Comunica\u00e7\u00e3o na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP, fui parar num congresso de estudantes em Curitiba. D\u00e9cada de 70, provavelmente atr\u00e1s de alguma mo\u00e7a que nunca encontrei. Um jeito bom de sonhar tamb\u00e9m&#8230; Mas, o que eu queria dizer \u00e9 que l\u00e1 ouvi um octogen\u00e1rio bispo de Pernambuco, dom H\u00e9lder C\u00e2mara, dar uma li\u00e7\u00e3o de vida e coragem aos jovens em pleno per\u00edodo ditatorial.<\/p>\n<p>Ele citou uma frase que depois vim saber era nada mais, nada menos que a breve letra de uma m\u00fasica de Raul Seixas.<\/p>\n<p>&#8212; Sonho que se sonha s\u00f3 \u00e9 s\u00f3 um sonho que se sonha s\u00f3. Sonho que se sonha junto \u00e9 realidade.<\/p>\n<p>Esse poema\/can\u00e7\u00e3o continua valendo. O Pa\u00eds precisa de jornalistas que ousem sonhar. O Pa\u00eds precisa de jornalistas que ousem transformar essa realidade. O Pa\u00eds precisa de voc\u00eas, jornalistas.<\/p>\n<p>\u00c9 isso a\u00ed&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Recuperei de mem\u00f3ria as palavras que disse \u00e0 turma de formandos em jornalismo da Faculdade de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas na sexta, dia 19 de agosto, no sal\u00e3o nobre da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo.)<\/p>\n<p>Boa noite a todos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10291","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10291","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10291"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10291\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13864,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10291\/revisions\/13864"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}