{"id":10294,"date":"2001-09-28T00:00:00","date_gmt":"2001-09-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:49:13","modified_gmt":"2017-09-13T19:49:13","slug":"a-historia-de-um-bairro-chamado-ipiranga-retrato-de-nossas-origens-enquanto-nacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-historia-de-um-bairro-chamado-ipiranga-retrato-de-nossas-origens-enquanto-nacao\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria de um bairro chamado Ipiranga \/ Retrato de nossas origens enquanto na\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Tr\u00e2nsito congestionado a qualquer hora do dia nos complexos vi\u00e1rios Escola de Engenharia Mackenzie e Maria Maluf, que inclui as avenidas do Estado, Juntas Provis\u00f3rias, Tancredo Neves, Bandeirantes, Ricardo Jafet e as vias Anchieta e Imigrantes. As intermin\u00e1veis obras do fura-fila. A maior favela (a de Heli\u00f3polis) com quase 100 mil habitantes. Tr\u00eas distritos policiais. Dois hospitais p\u00fablicos (Ipiranga e Heil\u00f3polis) e mais quatro particulares. Seis hipermercados, 28 linhas de \u00f4nibus (inclusive intermunicipais), seis n\u00facleos comerciais espalhados pelos 34 subdistritos curiosamente chamados de vilas e jardins, dois shoppings centers, sede de cinco institui\u00e7\u00f5es de ensino superior, ind\u00fastrias, bancos, igrejas&#8230;<\/p>\n<p>Para quem chega ao Ipiranga neste setembro de 2001 \u00e9 dif\u00edcil se transportar para o s\u00e9culo XVI e recontar a hist\u00f3ria da terra dos \u00edndios guaianazes. Para quem, de algum modo, participa do dia-a-dia de seus quase um milh\u00e3o de habitantes \u00e9 estranho ir mais longe do que o c\u00e9lebre Grito da Independ\u00eancia e imaginar o bairro como um descampado sem fim&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 para os estudiosos \u00e9 imposs\u00edvel voltar no tempo e reconstruir a hist\u00f3ria com perfei\u00e7\u00e3o. Por falta do documentos, registros, eles pr\u00f3prios t\u00eam vers\u00f5es diferentes. H\u00e1 quem diga que o bairro n\u00e3o \u00e9 quatrocent\u00e3o. Outros dizem que \u00e9 ainda mais idoso. E at\u00e9 mesmo sobre o s\u00e9culo XIX h\u00e1 controv\u00e9rsias. N\u00e3o escapa sequer o c\u00e9lebre quadro de Pedro Am\u00e9rico. Dizem que a reprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi fiel ao verdadeiro Grito da Independ\u00eancia. H\u00e1 tamb\u00e9m muita poesia sobre o romance de dona Domitila, a Marquesa de Santos, com Dom Pedro I nas terras da ent\u00e3o Ch\u00e1cara do Ipiranga que pertencia ao pai da Marquesa.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a hist\u00f3ria do bairro se confunde com a pr\u00f3pria Hist\u00f3ria do Brasil e, principalmente, com a Hist\u00f3ria do Museu Paulista da Universidade de S\u00e3o Paulo, mundialmente conhecido como Museu do Ipiranga.<\/p>\n<p>De todas as pol\u00eamicas a mais singela diz respeito \u00e0 origem do nome Ipiranga.<br \/>\nSegundo Martius, no tratado cl\u00e1ssico sobre termos bras\u00edlicos, a denomina\u00e7\u00e3o deriva da contra\u00e7\u00e3o de duas palavras tupis que significa \u00e1gua vermelha. No dicion\u00e1rio de Jo\u00e3o Mendes, h\u00e1 outra interpreta\u00e7\u00e3o: leito desigual e empinado.<br \/>\nDiante de tantas controv\u00e9rsias, o memorialista do bairro, Renato Ambrogi, autor do livro Relatos Hist\u00f3ricos do Ipiranga, cita que, ao consultar as Atas da Vila de S\u00e3o Paulo, a primeira cita\u00e7\u00e3o aos caminhos do Ireiripiranga \u00e9 de 1584. \u00c0 \u00e9poca, os portugueses n\u00e3o haviam assimilado o linguajar dos \u00edndios guaianazes, primeiros habiantes do lugar e pronunciavam o nome, quase sempre associado ao rio ou ao caminho que levava ao Litoral, de diversas maneiras &#8211; Ipiranga, Hiporanga, Ibipiranga, Opitanga e Ireiripiranga.<\/p>\n<p>Escreveu Ambrogi:<\/p>\n<p>&#8220;No inicio do s\u00e9culo XVI, o Ipiranga era habitado pelos \u00edndios guaianazes que viviam da ca\u00e7a e da pesca. Por toda a regi\u00e3o, havia mato e cerrado rasteiro. As terras eram ruins para planta\u00e7\u00e3o. S\u00f3 nas regi\u00f5es ribeirinhas \u00e9 que se fazia boa colheita (&#8230;) Eram muito imprecisos os limites da localidade, conhecida apenas uma paragem para o Caminho do Mar. Naquela \u00e9poca, j\u00e1 existiam enchentes. Por\u00e9m, com v\u00e1rias tribos acostumadas a usar canoa, as inunda\u00e7\u00f5es n\u00e3o causavam nenhum transtorno. S\u00f3 quando vieram os brancos percorrendo a regi\u00e3o com cavalos, o Tamanduatei passou a ser um grave problema. Quando chovia, n\u00e3o era poss\u00edvel a passagem e prosseguir viagem. Eram obrigados a esperar as \u00e1guas baixarem.<\/p>\n<p>Em entrevista ao jornal Gazeta do Ipiranga, em 27 de setembro de 1984, a arquiteta da Divis\u00e3o de Iconografia e Museus da Secretaria Municipal de Cultura, Maria Cec\u00edlia Coelho, confirmou a vers\u00e3o de Ambrogi sobre as paragens do Ipiranga no s\u00e9culo XVI. Ressaltou que a regi\u00e3o \u00e9 hoje uma parte muito reduzida daquela original.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo era muito diferente. O atual rio \u00c1gua Funda era denominado de Riacho do Ipiranga e foi ele quem deu nome a regi\u00e3o. Os documentos mostram que toda \u00e1rea delimitada por esse rio at\u00e9 a divisa com S\u00e3o Bernardo pertencia ao Ipiranga. A rua Domingos de Moraes (antes Estrada do Carro), Vila Mariana, Cambuci. Tudo era parte de uma mesma regi\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Reafirmou que o bairro por muitos anos, talvez s\u00e9culos, foi considerado apenas uma paragem do Caminho do Mar. Por essas terras passavam tropeiros, viajantes que aqui pousavam, para prosseguir viagem no dia seguinte. J\u00e1 na segunda metade do s\u00e9culo XVI a regi\u00e3o era citada como lugar de muitas ch\u00e1caras e fazendolas, onde se oferecia pouso para viajantes. Os povoadores pioneiros s\u00f3 saiam para outros locais quando realmente era necess\u00e1rio. Primeiro, por n\u00e3o disporem de bons caminhos que os levassem ao centro da cidade e tamb\u00e9m porque os \u00edndios hostis poderiam surpreend\u00ea-los de tocaia.<\/p>\n<p>O Ipiranga est\u00e1 aproximadamente a seis quil\u00f4metros da pra\u00e7a da S\u00e9, considerada o marco zero da cidade. At\u00e9 o inicio de sua \u00e1rea, limita-se com o bairro do Cambuci. Atualmente, a Administra\u00e7\u00e3o Regional do Ipiranga tem a seguinte delimita\u00e7\u00e3o: ao Norte, tem como limite as administra\u00e7\u00f5es regionais da S\u00e9 e Mooca; S\u00e3o Bernardo ao Sul; S\u00e3o Caetano ao Leste e Vila Mariana ao Oeste. Sua rede hidrogr\u00e1fica \u00e9 ampla: Rio Tamanduate\u00ed, Riacho do Ipiranga, c\u00f3rregos como Jaboticabal, Cacareco, Cap\u00e3o do Rego e Moinho Velho.<\/p>\n<p>UMA LENTA EVOLU\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XVI, XVII e XVIII, o Ipiranga era uma regi\u00e3o obscura entre o Cambuci e S\u00e3o Bernardo da Borda do Campo. Conhecida apenas como uma paragem. N\u00e3o progrediu nesse per\u00edodo porque a popula\u00e7\u00e3o era pequena e tinha muitas dificuldades para chegar ao centro comercial do P\u00e1teo do Col\u00e9gio.<\/p>\n<p>No inicio do s\u00e9culo XIX, tr\u00eas grandes propriedades compunham a ess\u00eancia da regi\u00e3o. A sesmaria Guarapuava (que abrange o Bosque da Sa\u00fade, parte do Jabaquara at\u00e9 os terrenos pr\u00f3ximos ao atual Parque da Independ\u00eancia, numa \u00e1rea compreendida entre o Riacho Ipiranga e o antigo Caminho do Mar); a Ch\u00e1cara da Gl\u00f3ria passou em 1824 para o Tesouro Federal, sendo utilizada pelo Semin\u00e1rio das Educandas da Gl\u00f3ria e depois foi loteado para n\u00facleos coloniais, correspondendo ao que seria hoje a Vila Mariana, Aclima\u00e7\u00e3o e Cambuci; e a terceira e \u00faltima propriedade era a Ch\u00e1cara Ipiranga que pertencia ao Visconde Jo\u00e3o de Castro Canto e Mello, pai da Marquesa de Santos.<\/p>\n<p>Essa era a \u00e1rea mais f\u00e9rtil, compreendendo a Estrada de Santos, Rio Tamanduate\u00ed e o C\u00f3rrego do Moinho Velho. Embora fosse a menor em extens\u00e3o, ficou conhecida por ser a mais bem equipada para a produ\u00e7\u00e3o, possuindo olaria e, mais no final do s\u00e9culo, planta\u00e7\u00f5es de uvas e um ramal da estrada de ferro.<\/p>\n<p>No decorrer do s\u00e9culo XIX, in\u00fameras propriedades foram se instalando nessas terras, \u00e1reas que tinham como marcos importantes o Caminho do Mar (ou antigo Caminho para Santos) e a colina pr\u00f3xima \u00e0 ponte do Ipiranga por ter sido o local onde transcorreu o epis\u00f3dio da Proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia em 7 de setembro de 1822.<\/p>\n<p>Na mesma edi\u00e7\u00e3o, a arquiteta Maria Cec\u00edlia, da Divis\u00e3o Municipal de iconografias e Museus, explicou:<\/p>\n<p>&#8220;No fim do s\u00e9culo XIX, essas grandes ch\u00e1caras come\u00e7aram a ser loteadas. A fam\u00edlia Klabin, propriet\u00e1ria de grande parcela das a\u00e7\u00f5es do Banco Uni\u00e3o, ficou com uma boa parte das terras. Esse casal tinha duas filhas, uma era esposa de Lasar Segall e a outra do arquiteto Greg\u00f3rio Vearchawsky. Agora, a Ch\u00e1cara do Ipiranga foi adquirida por v\u00e1rias pessoas. Entre elas, o engenheiro Luiz Pucci que construiu o Museu Paulista. A Ch\u00e1cara da Gl\u00f3ria ficou com o bispo Dom Matheus de Abreu Pereira, conde Vicente de Azevedo e Ant\u00f4nio de Moraes. Tempos depois (inicio do s\u00e9culo XX) o conde Jos\u00e9 Vicente de Azevedo doou parte de suas terras para institui\u00e7\u00f5es religiosas e assistenciais. Dai, a Avenida Nazar\u00e9 ser caracterizada por casas de assist\u00eancia como creches, escolas e a Cl\u00ednica Infantil do Ipiranga. E a sesmaria Guarapuava ficou com a fam\u00edlia Fagundes Mariano&#8221;.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o permaneceu em estado de estagna\u00e7\u00e3o at\u00e9 1890, quando a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo loteou as ch\u00e1caras existentes que ainda continuaram em atividade durante dezenas de anos. Em 27 de dezembro de 1918, conforme a lei n\u00famero 1.631, o bairro foi elevado a categoria de Distrito de Paz, datando dessa \u00e9poca, os primeiros progressos verificados em seus 15,44 quil\u00f4metros de \u00e1rea distrital. De paragem a bairro suburbano, visto de um modo geral, at\u00e9 a instala\u00e7\u00e3o dos bondes el\u00e9tricos que come\u00e7aram a funcionar em 1900, a regi\u00e3o ainda em fins do s\u00e9culo XIX era citada como lugar ermo e solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Foram doze as primeiras ruas que ganharam nome. De acordo com a planta de loteamento, das quais somente uma n\u00e3o preserva sua primitiva denomina\u00e7\u00e3o, todas s\u00e3o ligadas \u00e0 Independ\u00eancia, e aos anseios republicanos. S\u00e3o as seguintes: Rua do Fico, do Grito, 1822, Cisplatina, Municipalidades, Juntas Provis\u00f3rias, Gon\u00e7alves Ledo, Monumento, Guarda de Honra, Independ\u00eancia (subdistrito do Cambuci), Manifesto e Estrada do Ipiranga (atual rua Ouvidor Portugal).<\/p>\n<p>A partir dessa \u00e9poca, mesmo perdido entre pontos importantes da cidade, o Ipiranga foi se desenvolvendo e, para isso, muito contribuiu o fato de estar justamente entre a Capital e a sa\u00edda para o Porto de Santos pelo chamado Caminho do Mar.<\/p>\n<p>In\u00fameras foram as iniciativas para se marcar o local da Independ\u00eancia. Mas, apenas em 1883, com in\u00edcio do projeto e da constru\u00e7\u00e3o do monumento, hoje ocupado pelo Museu Paulista, &#8211; e finalmente com a constru\u00e7\u00e3o do atual Parque da Independ\u00eancia &#8211; \u00e9 que o bairro passou a ter uma ocupa\u00e7\u00e3o com caracter\u00edsticas urbanas. Pretendia-se que a grandiosidade paisag\u00edstica do Parque e a abertura da atual avenida Dom Pedro I ocasionasse uma ocupa\u00e7\u00e3o semelhante a que existia na Avenida Paulista, caracterizada pela classe emergente, industrial, que desde ent\u00e3o se firmava no Ipiranga.<\/p>\n<p>A partir dai, a regi\u00e3o foi deixando de ser apenas o Ber\u00e7o da Independ\u00eancia do Brasil e passou a acompanhar o crescimento da cidade, recebendo levas de imigrantes italianos (col\u00f4nia que iniciou a urbaniza\u00e7\u00e3o), portugueses, espanh\u00f3is, \u00e1rabes, entre outros, durante a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O BAIRRO OPERARIO<\/p>\n<p>Por apresentar uma topografia irregular, o solo ipiranguista, ao contr\u00e1rio de outros locais, nunca se prestou \u00e0 lavoura. Na verdade, a ocupa\u00e7\u00e3o s\u00f3 deslanchou quando a argila desencadeou a primeira ind\u00fastria lucrativa da regi\u00e3o, no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, \u00e9poca em que o crescimento demogr\u00e1fico da Capital j\u00e1 acarretava s\u00e9rios problemas habitacionais.<\/p>\n<p>Em seu livro Relatos Hist\u00f3ricos do Ipiranga, Ambrogi registra: &#8220;De 30 mil que eram os paulistanos em 1870, a popula\u00e7\u00e3o somava quase 240 mil em 1900, devido ao acelerado desenvolvimento demogr\u00e1fico que j\u00e1 come\u00e7ava a criar problemas habitacionais. Foi justamente nesse per\u00edodo que os tijolos e telhas passaram a ser considerados produtos de primeira necessidade, valorizando as ind\u00fastrias que se ocupavam em reproduzir esse material. A argila, at\u00e9 ent\u00e3o sempre relegada a segundo plano, passou a figurar entre as principais mat\u00e9rias primas&#8221;.<\/p>\n<p>A primeira ind\u00fastria da regi\u00e3o foi a Irm\u00e3os Falchi. Segundo informa\u00e7\u00f5es do escritor, dispunha de um motor de 40 cavalos, dois amassadores de argila e uma m\u00e1quina capaz de produzir telhas. Em 1905, surge o outro concorrente no ramo cer\u00e2mico, Sacoman Fr\u00e8res, e logo depois a Cer\u00e2mica Vila Prudente &#8211; todas inclu\u00eddas entre as cinco maiores ind\u00fastrias de cer\u00e2mica do Estado em fins da primeira d\u00e9cada.<\/p>\n<p>O bairro foi sede tamb\u00e9m para o desenvolvimento da ind\u00fastria t\u00eaxtil. Em julho de 1907, surgiu a Linhas Corrente junto com a Estamparia Ipiranga e a f\u00e1brica de ferro esmaltado S\u00edlex. \u00c0 essa \u00e9poca j\u00e1 eram 18 f\u00e1bricas empregando 6.296 oper\u00e1rios; em 1913, j\u00e1 somavam 49, empregando 16.317 homens.<\/p>\n<p>O Ipiranga cresceu no embalo da industrializa\u00e7\u00e3o. Resid\u00eancias, f\u00e1bricas e as suntuosas mans\u00f5es dos empres\u00e1rios (como as do Jafet, na Rua Bom Pastor) tomaram conta da regi\u00e3o. Para movimentar, as serrarias, tecelagens e lamina\u00e7\u00f5es, os bondes e trens despejavam diariamente levas de oper\u00e1rios. Eles vinham de pontos da cidade. Muitas vezes, gastavam, no m\u00ednimo, duas horas para chegar ao trabalho.<\/p>\n<p>Os trilhos para a passagem dos bondes el\u00e9tricos foram assentados<br \/>\nem 1900. No in\u00edcio de suas opera\u00e7\u00f5es, convergiam para o centro da cidade e algumas linhas cruzavam um tri\u00e2ngulo compreendido entre as ruas Direita, XV de Novembro e S\u00e3o Bento.<\/p>\n<p>Diz Ambrogi: &#8220;O bonde el\u00e9trico, que esteve em atividade durante 67 anos, foi o precursor do transporte de massa. Desde a inaugura\u00e7\u00e3o da primeira linha em 1900, o Ipiranga e arredores ganharam outro aspecto com a constr\u00e7\u00e3o de novas casas, instala\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias e aumento populacional. O bairro, em 1920, devido ao tr\u00e1fego, acusou uma popula\u00e7\u00e3o de 12.064 habitantes, saltando para 40.825 em 1934, ocasi\u00e3o em que os \u00f4nibus eram ainda escassos e prec\u00e1rios, sem conforto e tamb\u00e9m mais caros e, por isoo, menos usados pela popula\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Para o professor Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o Witter, o Ipiranga \u00e9 um bairro que merece muitas teses acad\u00eamicas. Como professor de Hist\u00f3ria em inicio de carreira, tr\u00eas d\u00e9cadas antes de se tornar diretor do Museu (de 94 a 99), Witter p\u00f4de constatar o fasc\u00ednio que o bairro sempre exerceu nos pr\u00f3prios moradores. As freq\u00fcentes visitas aos monumentos hist\u00f3ricos, acompanhando alunos do ensino fundamental e m\u00e9dio, fez com que aprendesse a admirar como essa gente pacata soube trabalhar as mudan\u00e7as e principalmente como soube resistir a elas, quando necess\u00e1rio, e preservar a Hist\u00f3ria &#8220;com H mai\u00fasculo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O Ipiranga \u00e9 uma cidade dentro da metr\u00f3pole paulistana&#8221;. A afirma\u00e7\u00e3o agora \u00e9 de outro professor, Osmar Stolagli, diretor geral do Centro Universit\u00e1rio Assun\u00e7\u00e3o, mais conhecido como UniFai, que reside no bairro desde que nasceu em 1933. &#8220;Sou testemunha ocular da Hist\u00f3ria &#8211; brinca o professor Osmar. Ele se recorda das grandes enchentes da d\u00e9cada de 40 na Ilha do Sapo, trecho compreendido entre os rios Tamanduate\u00ed e Ipiranga que transbordavam com freq\u00fc\u00eancia. Muitas vezes, n\u00e3o precisava sequer chover no bairro. \u00c9 que dava aquelas pancadas de chuva na cabeceira dos rios, l\u00e1 pelos lados de S\u00e3o Bernardo, e as \u00e1guas barrentas vinham fazer estragos aqui em nossas casas&#8221;.<\/p>\n<p>Ele lembra, com emo\u00e7\u00e3o: &#8220;O que valia nessas horas era a solidariedade dos amigos. Todos se ajudavam. Quando havia pren\u00fancio de chuva, os moradores come\u00e7avam espontaneamente o mutir\u00e3o pelas casas mais pr\u00f3ximas ao leito dos rios. Iam subindo os m\u00f3veis, colocando as comportas. Depois do aguaceiro, o mutir\u00e3o era para lavar a rua e contar as crian\u00e7as, em primeiro, e os preju\u00edzos depois. Era muito bonito ver aquela gente pacata, quase toda formada por imigrantes ou descendentes, enfrentando os desafios do destino. Era uma gente de princ\u00edpios e que tamb\u00e9m sabia se divertir&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das conversas cumpridas, do principio de noite, com as cadeiras nas cal\u00e7adas, divertiam-se a passear pelos arredores do Museu do Ipiranga.<br \/>\nOs jardins franceses eram o lugar onde havia o footing das jovens, enquanto os rapazes as esperavam em pontos estrat\u00e9gicos para lan\u00e7ar-lhes um olhar, duas ou tr\u00eas palavras se tanto &#8211; conta o professor em tom de confid\u00eancia.<br \/>\nMuitos casamentos nasceram a\u00ed.<br \/>\nNos fins de semana, as missas na Igreja S\u00e3o Jos\u00e9, fundada em 1919 pelo padre Arnaldo Dantas, eram muito concorridas. E os cinemas eram a coqueluche dos anos 50. Havia v\u00e1rios, onze ao todo.<br \/>\nOutro antigo morador, Natal Saliba, que tamb\u00e9m nasceu e viveu seus 76 anos no bairro, relaciona os cinemas que conseguiram ficar mais tempo em atividade: Dom Pedro I, Sammarone, Paroquial e o Ipiranga Pal\u00e1cio, esses dois \u00faltimos pertencentes aos padres do Sion. Com saudade, recorda:<\/p>\n<p>Mansueto de Greg\u00f3rio era gerente vital\u00edcio do Cine lpiranga Pal\u00e1cio. Era uma pessoa multo din\u00e2mica e procurava apresentar bons espet\u00e1culos. Lembro que em 1942, a seu convite, ocantor Francisco Alves, o famoso Chico Viola, veio cantar no bairro. Foi um espet\u00e1culo inesquec\u00edvel. Depois ele trouxe a beldade da \u00e9poca, a atriz T\u00f4nia Carrero. Uma maravilha!.<br \/>\nMas o car\u00e1ter de bairro hist\u00f3rico sempre persistiu &#8211; e, segundo o professor Witter, persistir\u00e1 para sempre. Em artigo publicado pelo Di\u00e1rio do Com\u00e9rcio, de S\u00e3o Paulo, em 21 de setembro de 1998, o professor, que \u00e9 de Guararema, faz quest\u00e3o de enfatizar na p\u00e1gina 2 do Suplemento Especial de Anivers\u00e1rio do Ipiranga:<\/p>\n<p>Tenho dito com muita freq\u00fc\u00eancia e repetido \u00e1 exaust\u00e3o que ter dirigido o Museu foi um privil\u00e9gio. E esse privil\u00e9gio sinto tamb\u00e9m por ter passado a conviver com o dia-a-dia do bairro. Ele \u00e9 muito especial, com muita hist\u00f3ria e um sem n\u00famero de est\u00f3rias de seus mor dores que gostam de viver neste espa\u00e7o urbano t\u00e3o especial da grande metr\u00f3pole.<br \/>\nO Ipiranga \u00e9, acima de tudo, um espa\u00e7o onde nossa independ\u00eancia foi proclamada. Nas colinas do Ipiranga, o Museu-monumento preserva a nossa mem\u00f3ria e \u00e9, ao mesmo tempo, um espa\u00e7o de reflex\u00e3o. \u00c9 um referencial significativo de nossas origens enquanto na\u00e7\u00e3o e um marco de nossa cidade. E \u00e9, certamente, um patrim\u00f4nio da humanidade.<br \/>\nO Museu, com seu acervo precioso, \u00f3rg\u00e3o de integra\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo, \u00e9 um dos marcos do Ipiranga, sem d\u00favida, por sua monumentalidade. Entretanto, n\u00e3o se pode esquecer o papel que vem exercendo na regi\u00e3o as demais universidades, a Unesp, a S\u00e3o Marcos, a S\u00e3o Camilo, a UniFai. E tamb\u00e9m as escolas de primeiro e segundo graus que fazem o Ipiranga um universo especial para forma\u00e7\u00e3o de seus cidad\u00e3os.<br \/>\nTenho repetido muitas vezes e agora insisto em dizer que o nosso Ipiranga \u00e9 uma verdadeira cidade educativa. Essa<br \/>\ncidade tem ainda a emoldur\u00e1-la o Parque da Independ\u00eancia e a Avenide Dom Pedro I. E n\u00e3o se pode esquecer de dizer que \u00e9 um bairro com infra-estrutura da melhor qualidade em todas as \u00e1reas de atendimento ao cidad\u00e3o.<br \/>\nAcima de tudo, \u00e9 um lugar onde se valorizam as rela\u00e7\u00f5es humanas e onde o forasteiro, como eu, pode ser recebido de bra\u00e7os abertos e, sentir de cora\u00e7\u00e3o um ipiranguista.<\/p>\n<p>Este texto pertence \u00e1 disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado em Comunica\u00e7\u00e3o Social do jornalista Rodolfo C. Martino que discorreu sobre o tema:<br \/>\nMuseu do Ipiranga. A Nova Imagem de uma Institui\u00e7\u00e3o Centen\u00e1ria, com defesa em fevereiro de 2001 no p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da UMESP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00e2nsito congestionado a qualquer hora do dia nos complexos vi\u00e1rios Escola de Engenharia Mackenzie e Maria Maluf, que inclui as avenidas do Estado, Juntas Provis\u00f3rias, Tancredo Neves, Bandeirantes, Ricardo Jafet e as vias Anchieta e Imigrantes.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10294","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10294","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10294"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10294\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13871,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10294\/revisions\/13871"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10294"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10294"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10294"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}