{"id":10310,"date":"2002-11-14T00:00:00","date_gmt":"2002-11-14T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:16:08","modified_gmt":"2017-09-14T17:16:08","slug":"os-fatos-da-semana-e-a-fila-do-restaurante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/os-fatos-da-semana-e-a-fila-do-restaurante\/","title":{"rendered":"Os fatos da semana e a fila do restaurante"},"content":{"rendered":"<p>&quot;A vida e a arte de tirar conclus\u00f5es suficientes a partir de dados insuficientes&quot; (Samuel Butler)<\/p>\n<p>01. Podia ser com qualquer um de n\u00f3s; pais zelosos, m\u00e3es corujas. N\u00e3o h\u00e1 como prever o certo ou errado quando os rebentos caem na vida &#8212; e isso, mais cedo ou mais tarde, queiramos ou n\u00e3o acaba acontecendo. A\u00ed, o peso das nossas palavras e recomenda\u00e7\u00f5es perdem o tom de verdade absoluta que \u00e9 como as impregnamos sempre que tergiversamos sobre a vida para com os filhos. N\u00e3o podemos usar, neste caso, a muleta da mis\u00e9ria para desculpar os desvios de uma sociedade doentia em que os valores humanit\u00e1rios foram substitu\u00eddos pela compuls\u00e3o de ser materialmente feliz a qualquer custo. Mesmo que seja \u00e0 base de um crime hediondo. Mesmo que seja por minutos, segundos&#8230; N\u00e3o h\u00e1 como dizer que eram pais ausentes. Que n\u00e3o lhe ofertaram carinho e aten\u00e7\u00e3o. Que n\u00e3o queriam o melhor para ela e o irm\u00e3o mais novo. Na manh\u00e3 chuvosa desta quarta-feira estava prevista a reconstitui\u00e7\u00e3o do crime que abalou um Pa\u00eds destro\u00e7ado por tanta viol\u00eancia. Fez tamb\u00e9m &#8212; e principalmente &#8212; com que cada um olhasse para dentro de si pr\u00f3prio, se estarrecesse e perguntasse: para onde caminhamos?<\/p>\n<p>02. O presidente Fernando Henrique Cardoso viajou &#8212; uma emblem\u00e1tica rotina em seu mandato. Esteve em Portugal para compromissos protocolares. Como de h\u00e1bito e costume, mostrou-se elegante em seus passos e palavras. Mostrou-se feliz como sucessor, com quem ali\u00e1s se encontrou na noite anterior \u00e0 viagem num jantar no Pal\u00e1cio da Alvorada. E disse estar tranq\u00fcilo: ambos concordam em muitas quest\u00f5es. Fez uma discreta ressalva, ou melhor duas: o presidente-eleito precisa ter sob controle as alas mais radicais de seu partido (que como se sabe n\u00e3o \u00e9 o de FHC) e evitar o populismo, uma ador\u00e1vel tenta\u00e7\u00e3o para quem chega ao Poder, mas que pode comprometer toda uma administra\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o disse, mas pode se depreender de suas palavras que, mesmo priorizando os projetos sociais, o novo governo ter\u00e1 de adotar medidas de austeridade &#8212; e francamente impopulares, como a preserva\u00e7\u00e3o da al\u00edquota de 27,5 no imposto de renda &#8212; para n\u00e3o desbalancear as contas p\u00fablicas. O presidente FHC \u00e9 mesmo um grande analista da cena pol\u00edtica &#8212; na verdade, o soci\u00f3logo e diplomata nesses oito anos de mandato sempre se revelaram melhor do que o presidente de fato que todos os brasileiros sonharam ter.<\/p>\n<p>03. De olho na alta dos juros e no \u00edndice de desemprego. Os economistas recomendam uma alta nos juros para conter a instabilidade do d\u00f3lar e os movimentos cada vez mais insidiosos do monstro da infla\u00e7\u00e3o. Eles explicam: o mercado internacional de capitais est\u00e1 fechado para o Brasil. Ou seja quem tem grana no mundo n\u00e3o est\u00e1 interessado em investir no Brasil por conta de fatores internos (como a transi\u00e7\u00e3o presidencial; que vem sendo bem conduzida, todos reconhecem) e esternos (a eventualidade de uma guerra sem-fim no Iraque). O Pa\u00eds precisa deste dinheiro para dar conta do seus compromissos junto ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional &#8212; algo em torno de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Mas, se elevar os juros, cont\u00e9m o consumo, o que emperra a ind\u00fastria e o com\u00e9rcio. Nesta toada, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber aonde vamos chegar. Pior, j\u00e1 chegamos: desemprego, desemprego, desemprego. Ontem, a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias de S\u00e3o Paulo divulgou que, em outubro, o n\u00edvel de emprego na ind\u00fastria atingiu os piores \u00edndices desde 1995.<\/p>\n<p>04. Uma mega opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal de Goi\u00e1s desmantelou um amplo esquenta de roubos de carros e cargas que agia em sete estados do pa\u00eds, incluindo S\u00e3o Paulo, Minas e Mato Grosso. A for\u00e7a-tarefa reuniu 200 policiais da PF e fez 28 pris\u00f5es &#8212; vinte delas em Goi\u00e1s, onde foram presos sete policiais que trabalhavam na Delegacia de Furtos e Roubos de Ve\u00edculos Automotores. A iniciativa d\u00e1 um alento ao brasileiro de que nossas autoridades policiais possam virar o jogo da viol\u00eancia urbana e, sobretudo, a pior das viol\u00eancias: aquela que \u00e9 institucionalizada. Compet\u00eancia, n\u00e3o lhes falta.<\/p>\n<p>05. Olharam-se como se h\u00e1 tempos n\u00e3o se vissem. Conversaram amenidades. E riram um riso constrangido de quem, em algum lugar do passado, fora mais do que hoje \u00e9. Certamente aquele era um encontro casual, desses que o destino prepara para que se possamos avaliar o que se fez e o que se deixou de fazer. De repente, esqueceram do almo\u00e7o convencional com os colegas de trabalho e se deixaram ficar no corredor entre as mesas, com o prato na m\u00e3o, como s\u00f3 acontece na fila do restaurante self-service. Ali, naquele instante, com o olhar brilhante de quem quer o imposs\u00edvel, n\u00e3o havia trag\u00e9dia, presidente que sa\u00ed, presidente que entra, juros, desemprego, pol\u00edcia e ladr\u00e3o. N\u00e3o havia nada al\u00e9m da vontade de ficar, mas tinham de ir embora que amor e poesia s\u00e3o imprescind\u00edveis, mas n\u00e3o enchem barriga. E o mais grave: a fila andou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;A vida e a arte de tirar conclus\u00f5es suficientes a partir de dados insuficientes&quot; (Samuel Butler)<\/p>\n<p>01. Podia ser com qualquer um de n\u00f3s; pais zelosos, m\u00e3es corujas. 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