{"id":10327,"date":"2002-12-20T00:00:00","date_gmt":"2002-12-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:14:44","modified_gmt":"2017-09-14T17:14:44","slug":"na-trilha-do-bom-combate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/na-trilha-do-bom-combate\/","title":{"rendered":"Na trilha do bom combate"},"content":{"rendered":"<p>&quot;E a Palavra se fez carne e veio morar no meio de n\u00f3s&quot; (Evangelho segundo Jo\u00e3o 1,14)<\/p>\n<p>01. Ele n\u00e3o sabia como explicar aquele velho h\u00e1bito de visitar igrejas diariamente. Mas, era rigoroso no cumprimento do ritual. Na verdade, ficava ali por dez, quinze minutos a balbuciar baixinho Pai-nosso e Ave-maria, a invocar esse ou aquele santo, a repetir mecanicamente jaculat\u00f3rias que aprendeu no seu tempo de crian\u00e7a no col\u00e9gio marista. Para jogar o futebol de domingo no campo de terra batida, vestindo o uniforme azul e branco do Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, os garotos eram &quot;obrigados&quot; a assistir \u00e0 missa das oito, sob o olhar atento do venerando Irm\u00e3o Justino.<\/p>\n<p>02. Essas lembran\u00e7as e outras tantas lhe povoavam a mente nesses momentos de rara serenidade. O pensamento se libertava das amarras do dia-a-dia e se punha a viajar por hist\u00f3rias e personagens imposs\u00edveis de surgir na lida de afazeres e compromissos. Como quem nada quer, remexia o imprevis\u00edvel ba\u00fa da mem\u00f3ria, refletia sobre a vida e ponderava sobre futuros projetos. Acostumou-se assim a se preparar para o longo dia de trabalho. Era hora de pesar os pr\u00f3s e os contras, isso e aquilo, o quero ou n\u00e3o-quero constante que a vida nos cobra.<\/p>\n<p>03. Em muitas ocasi\u00f5es, imaginou-se como um destemido guerreiro moicano a auscultar o ch\u00e3o a fim de decifrar o enigm\u00e1tico futuro que lhe estava reservado. Era um bom homem. Por isso, assim como o anti-her\u00f3i dos faroestes americanos, pensava nele pr\u00f3prio e, outras tantas vezes, no seu povo que estava sempre a espera desse tal novo tempo.<\/p>\n<p>04. A cena tornou-se recorrente neste final de ano: o velho \u00edndio escolhe o lugar exato na infind\u00e1vel plan\u00edcie e ajoelha-se em absoluto sil\u00eancio. Encosta o ouvido ao ch\u00e3o para saber com exatid\u00e3o o tamanho da encrenca que teria pela frente nos pr\u00f3ximos dias. Invariavelmente essa encrenca era personificada pelo tropel dos cavalos de milhares de soldados cara-p\u00e1lidas ou de uma caravana de aventureiros numa louca corrida atr\u00e1s do ouro que ele nem sabia existir nas entranhas da terra que habitava.<\/p>\n<p>05. Hoje as encrencas atendem por nomes mais enigm\u00e1ticos como &quot;Mercado&quot;, &quot;Sistema&quot;, &quot;Risco Brasil&quot;, &quot;Especula\u00e7\u00e3o&quot;, sabe-se l\u00e1 o que mais&#8230; Ele estava convicto de n\u00e3o possuir a sabedoria dos velhos paj\u00e9s embora o grisalho dos cabelos lhe garantia uma certa experi\u00eancia de vida e algum engenho na arte de dimensionar os passos que fazem o caminho.<\/p>\n<p>06. Pois era isso. Exatamente isso que lhe preocupava no limiar do ano santo de 2003: seu povo, ap\u00f3s anos de um embate desigual, recuperou a esperan\u00e7a, a auto-estima e o velho sonho de Justi\u00e7a social. Est\u00e1 otimista na f\u00e9, mas sabe que ter\u00e1 duras batalhas pela frente. Ele n\u00e3o gostaria de v\u00ea-la andar para tr\u00e1s como aconteceu em epis\u00f3dios recentes de Collors, FHCs, planos econ\u00f4micos, falsos milagres e outros desencantos. O que fazer?<\/p>\n<p>07. Respirou fundo e fechou os olhos como a intuir o amanh\u00e3. A esperan\u00e7a e a f\u00e9 venceram o medo. Que venha, pois, o novo ano e tantos desafios. E que Deus nos aben\u00e7oe e nos inspire a combater o bom combate. Feliz Natal, caro leitor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;E a Palavra se fez carne e veio morar no meio de n\u00f3s&quot; (Evangelho segundo Jo\u00e3o 1,14)<\/p>\n<p>01. 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