{"id":10331,"date":"2000-11-17T00:00:00","date_gmt":"2000-11-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T22:00:30","modified_gmt":"2017-09-14T22:00:30","slug":"a-novela-as-criancas-e-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-novela-as-criancas-e-a-igreja\/","title":{"rendered":"A novela, as crian\u00e7as e a Igreja"},"content":{"rendered":"<p>&quot;A sabedoria vem de escutar; de falar vem o arrependimento&quot;<\/p>\n<p>01. Ouvi algumas entrevistas do autor de La\u00e7os de Fam\u00edlia, Manoel Carlos, experiente homem de r\u00e1dio e TV. Ele lamentou a decis\u00e3o da Justi\u00e7a de proibir a participa\u00e7\u00e3o de menores de idade, atuando como atores, na novela das oito da poderosa Rede Globo. Tal e qual o autor, outras tantas vozes bradaram sua indigna\u00e7\u00e3o para tal medida, tida e havida por todos, como arbitr\u00e1ria. Manifestaram-se atores, os pais das crian\u00e7as, jornalistas, a alta c\u00fapula global, outros autores &#8212; enfim, uma p\u00e1 de gente importante que fez quest\u00e3o de enfatizar dois pontos. Primeiro: ter\u00edamos a\u00ed um renascimento da censura, que tanto molestou nossa arte e nossa cultura durante os 21 anos de Ditadura Militar. Segundo: Estado e Igreja Cat\u00f3lica estariam veladamente juntos nessa a\u00e7\u00e3o; pois, h\u00e1 algumas semanas, a Igreja n\u00e3o disponibilizou nenhuma de suas par\u00f3quias no Rio de Janeiro para a grava\u00e7\u00e3o das cenas de um determinado casamento. A proibi\u00e7\u00e3o se deu, segundo consta, porque a Igreja n\u00e3o concorda com alguns aspectos da trama, especialmente aos que tratam das cenas de viol\u00eancia, sexo e do dilaceramento da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>02. As quest\u00f5es s\u00e3o complexas, e refletem o grau de amadurecimento da nossa democracia. Queiramos ou n\u00e3o, h\u00e1 muito o que andar nesse sentido. Uma coisa, por\u00e9m, \u00e9 bom que fique claro. N\u00e3o vale a pena comparar essa medida judicial com a censura pol\u00edtica, ideol\u00f3gica, obscurantista que tanto nos aborreceu nas d\u00e9cadas de 60 e 70. Tentar fazer essa associa\u00e7\u00e3o \u00e9 ingenuidade ou m\u00e1-f\u00e9. N\u00e3o h\u00e1 nada mais governista neste Pa\u00eds do que a Rede Globo. \u00c9 p\u00fablico e not\u00f3rio as regalias com que a emissora trata, em seus notici\u00e1rios o reinado de FHC e os seus. Basta ver quantos (nenhum) segundos da programa\u00e7\u00e3o global foram dedicados \u00e0s den\u00fancias de caixa dois na elei\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique em 98&#8230;<\/p>\n<p>03. Portanto \u00e9 bom que a gente fique esperto. Se algo na novela &#8212; ou em qualquer outro programa da TV brasileira &#8212; incomodar ao governo, ser\u00e1 tratado nos bastidores, entre as c\u00fapulas governista e da emissora, e n\u00f3s, pobres mortais, nem ficaremos sabendo. Ou s\u00f3 ficaremos sabendo depois de algum tempo. Um exemplo: na mesma elei\u00e7\u00e3o de 98, quando o candidato Luiz In\u00e1cio Lula da Silva chegou a um empate t\u00e9cnico com FHC nas pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de votos, houve uma reuni\u00e3o em Bras\u00edlia. Foi em junho e o estabelecido, entre governistas e representantes da m\u00eddia, \u00e9 que n\u00e3o deveria haver segundo turno, portanto&#8230;<\/p>\n<p>04. A quest\u00e3o da Igreja \u00e9 bem mais simples. Assim como o autor tem o direito assegurado de escrever o que bem entender, o cardeal do Rio de Janeiro, Dom Eug\u00eanio Salles, tem o direito de concordar ou n\u00e3o com o recado que a atra\u00e7\u00e3o global est\u00e1 passando para o grande p\u00fablico. Aqui, como em qualquer outra democracia, o arcebispo tem o direito de manifestar sua opini\u00e3o &#8212; e n\u00e3o concordando pode n\u00e3o querer que uma de suas par\u00f3quias seja palco das travessuras deste ou daquele cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>05. \u00c9 sempre bom ficar atento para ver como as coisas funcionam. Domingo, no Fant\u00e1stico, a Globo mostrou, em reportagem, como s\u00e3o felizes as crian\u00e7as que trabalham como atores em seus programas e novelas. J\u00e1 sabia da portaria e tentou precaver-se junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. Por\u00e9m, numa das tantas entrevistas, o autor deixou escapar um fato, no m\u00ednimo, revelador. Um dos g\u00eameos que fazem o filho da personagem Capitu se p\u00f5e a chorar sempre que v\u00ea determinado ator. Na grava\u00e7\u00e3o de uma cena em que o tal ator discutia e amea\u00e7ava Capitu, o beb\u00ea assustou-se de verdade &#8212; o que, ali\u00e1s, \u00e9 l\u00f3gico e natural que aconte\u00e7a &#8212; e desde, ent\u00e3o, n\u00e3o pode ver o homem. Ou seja, nem tudo s\u00e3o flores, maravilhas e cousa e lousa.<\/p>\n<p>06. \u00c9 isso. Vale ficar atento aos dois lados da moeda, sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;A sabedoria vem de escutar; de falar vem o arrependimento&quot;<\/p>\n<p>01. Ouvi algumas entrevistas do autor de La\u00e7os de Fam\u00edlia, Manoel Carlos, experiente homem de r\u00e1dio e TV. 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