{"id":10340,"date":"2006-02-01T00:00:00","date_gmt":"2006-02-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T20:36:06","modified_gmt":"2017-09-15T20:36:06","slug":"uma-fantastica-viagem-chamada-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/uma-fantastica-viagem-chamada-jornalismo\/","title":{"rendered":"Uma fant\u00e1stica viagem chamada jornalismo"},"content":{"rendered":"<p>(* Jorge Tarquini)<\/p>\n<p>Hoje eu quero falar um pouco de sonhos. Desde que me conhe\u00e7o por gente, ouvia aquela pergunta cl\u00e1ssica: \u201co que voc\u00ea vai ser quando crescer?\u201d. <\/p>\n<p>Teve um tempo em que respondia com orgulho: \u201cpalha\u00e7o de circo\u201d. <\/p>\n<p>Esse sonho n\u00e3o sobreviveu muito tempo, substitu\u00eddo pela id\u00e9ia de ser astronauta. Um sonho embalado por um momento inesquec\u00edvel. Meu pai me acordou, numa noite fria de junho de 1969, para que eu visse, numa TV cheia de chuviscos, a imagem do homem pisando na lua. <\/p>\n<p>Como n\u00e3o aceitavam astronautas mirins, e virar adulto levaria uma eternidade, eu precisaria de outro sonho enquanto esperasse. E minhas aten\u00e7\u00f5es, contra todas as probabilidades para uma crian\u00e7a hiperativa, se voltaram para algo, \u00e0 primeira vista, menos glamuroso. <\/p>\n<p>A sorte de crescer em uma casa de leitores vorazes, mesmo que n\u00e3o t\u00e3o abastados, fez de livros, jornais e revistas um brinquedo inusitado: uma janela m\u00e1gica para entender o mundo.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m para sonhar com ele. Ao menos, foi assim que meu pai me explicou. Era o bom e velho papel sujo de tinta na forma de letras m\u00e1gicas feitas por uns tais \u201cjornalistas\u201d. <\/p>\n<p>O emaranhado de letras vinha impresso em diversos jornais e numa tal de revista Realidade, cuja tipografia bast\u00e3o facilitava o trabalho de minha m\u00e3e na tarefa de me alfabetizar. <\/p>\n<p>Afinal, aos cinco anos, eu nunca aprenderia sozinho a brincar com tudo aquilo \u2013 e esse seria mais um sonho esquecido. Mas, felizmente, minha m\u00e3e conseguiu.  Eu entendi a brincadeira das letras. <\/p>\n<p>Com elas, descobri o poder de ir a qualquer lugar, a qualquer tempo. Era como se eu pudesse ser quem eu quisesse e conhecer lugares e at\u00e9 pessoas inating\u00edveis \u2013 ao menos na minha cabe\u00e7a. <\/p>\n<p>Um soldado na guerra, um artista de cinema e at\u00e9 um pol\u00edtico, por que n\u00e3o? <\/p>\n<p>Quanto mais eu aprendia, mais dif\u00edcil ficava escolher o que ser quando crescer. <\/p>\n<p>No mundo, havia tantas coisas al\u00e9m do circo ou das espa\u00e7onaves. E nem tudo era belo. Havia uma tal de Guerra do Vietn\u00e3. <\/p>\n<p>Havia um tal de AI-5. Havia tamb\u00e9m uma palavra dif\u00edcil e inesquec\u00edvel: subversivo. <\/p>\n<p>Mas havia tamb\u00e9m algo de muito errado comigo. Meus her\u00f3is n\u00e3o eram mais o Homem Morcego e nem tampouco o National Kid. <\/p>\n<p>Eu admirava simples nomes impressos que diziam quem havia escrito tudo aquilo naqueles jornais e revistas t\u00e3o cheios de magia. Ler o que eles escreviam nos tornou verdadeiros amigos de inf\u00e2ncia, amigos do tipo \u201cinvis\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Lembro-me de ter ficado muito chateado com a quarta mal\u00e1ria que Luigi Mamprin, bravo fot\u00f3grafo italiano radicado no Brasil, contraiu em mais uma miss\u00e3o com os irm\u00e3os Villas-Boas pela Amaz\u00f4nia. <\/p>\n<p>Os horrores da guerra dos vietcongs ganharam um rosto quando, mesmo escondido de meu pai, consegui ver a imagem de Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro ferido naquele pa\u00eds t\u00e3o distante, v\u00edtima de uma guerra que n\u00e3o era sua. <\/p>\n<p>Mas havia tamb\u00e9m momentos de pura euforia: as fotos e os textos de Lemyr Martins mostrando a conquista do tri-campeonato diretamente do M\u00e9xico e, dois anos mais tarde, a vit\u00f3ria de Emerson na F\u00f3rmula 1. <\/p>\n<p>Outros textos, para minha tristeza, s\u00f3 aprendi a entender um pouco mais tarde, como os que produzia Cl\u00e1udio Abramo. Eles n\u00e3o contavam, simplesmente, o que havia acontecido, mas falavam de coisas muito s\u00e9rias, que eu ainda n\u00e3o estava preparado para compreender. <\/p>\n<p>Mas valeu a insist\u00eancia na leitura: demorou, mas eu acabei entendendo a regra do jogo com o qual jogava Abramo.   <\/p>\n<p>Havia um tal Nelson Rodrigues, que falava de futebol como quem descreve um espet\u00e1culo de deuses nos gramados. Mais tarde, descobri que ele tamb\u00e9m era disc\u00edpulo de Dion\u00edsio, o deus do teatro. Talvez por isso meus pais n\u00e3o me deixassem ler seus folhetins&#8230;<\/p>\n<p>Aqueles meus tantos her\u00f3is do papel podiam falar de tudo, pois iam a qualquer lugar s\u00f3 para contar o que viram e espalhar, com suas palavras, o saber calcado na verdade; a informa\u00e7\u00e3o baseada na viv\u00eancia, naquele poder estranho de perguntar aos outros, na cara-dura, coisas que nem sempre eles queriam responder. E escrever sobre tudo isso para quem quisesse saber. <\/p>\n<p>\u00c9, eles eram \u201cjornalistas\u201d. Por mais que crescesse ouvindo que tal jornalista havia sido preso, outro havia sido deportado, outro ainda havia sumido ou sido morto, o sonho de ser como eles persistia e se fortalecia, ao passo que eu entendia melhor o papel dessas pessoas que, no fundo, n\u00e3o eram como um engenheiro, um dentista, um m\u00e9dico. <\/p>\n<p>O que eles faziam n\u00e3o era muito f\u00e1cil de explicar, mas t\u00e3o f\u00e1cil de entender. <\/p>\n<p>Assim como o ar, vital, mas que n\u00e3o se v\u00ea, o que eles faziam n\u00e3o tinha pre\u00e7o. Ut\u00f3pico, eu sei. <\/p>\n<p>Mas meu sonho virou realidade. Nos meus 22 anos de jornalismo, muitas das utopias e dos mitos foram derrubados, para o bem e para o mal. Mas tive a felicidade de encontrar e trabalhar com alguns dos meus her\u00f3is de inf\u00e2ncia. Sim, Luigi, Lemyr, Setti e tantos outros, inclusive muitos que chegaram depois. E continuei aprendendo muito com eles e tamb\u00e9m com cada um de voc\u00eas, agora meus ex-alunos, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Assim, o que era sonho virou paix\u00e3o. E a paix\u00e3o virou realidade. Uma realidade dura, de muitas horas de trabalho, outras tantas de sono perdido. <\/p>\n<p>Um cotidiano de esfor\u00e7os nem sempre reconhecidos ou recompensados financeiramente. Mas \u00e9 uma realidade de plenitudes, quando se faz aquilo que sempre se sonhou com paix\u00e3o. E paix\u00e3o n\u00e3o se explica, se vive. <\/p>\n<p>Nada \u00e9 perfeito. Por que o jornalismo deveria ser?<br \/>\nMas nossa batalha, a batalha de voc\u00eas a partir de agora, \u00e9 buscar essa perfei\u00e7\u00e3o, por mais v\u00e3o que seja o esfor\u00e7o. \u00c9 buscar a verdade. Por mais ut\u00f3pico que isso possa parecer. \u00c9 buscar a isen\u00e7\u00e3o, por mais abstrato que possa significar. \u00c9 muitas vezes passar por cima de convic\u00e7\u00f5es pessoais em nome da tal objetividade. <\/p>\n<p>\u00c9 ter o profissionalismo \u00e0 frente at\u00e9 mesmo da vaidade e de outras  emo\u00e7\u00f5es, por\u00e9m sem deixar de ser plenamente humano. Um delicado equil\u00edbrio. Uma arte, esse nosso jornalismo.  <\/p>\n<p>As tenta\u00e7\u00f5es para que se  prostituam esses sonhos n\u00e3o v\u00e3o faltar pelo caminho. J\u00e1 discutimos muitas vezes sobre isso e certamente passaremos a vida toda a discutir. <\/p>\n<p>Dignidade \u00e9 um artigo que n\u00e3o se encontra no mercado de segunda m\u00e3o. Um jornalista s\u00f3 se vende uma vez. <\/p>\n<p>Hoje estamos aqui para celebrar uma conquista de voc\u00eas, o m\u00e1gico momento de sonhos que se tornam realidade. <\/p>\n<p>Sonhar n\u00e3o custa nada. Mas espero que voc\u00eas nunca vendam seus sonhos. Pois eles n\u00e3o t\u00eam pre\u00e7o. <\/p>\n<p>Que Deus os aben\u00e7oe nessa fant\u00e1stica viagem chamada jornalismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(* Jorge Tarquini)<\/p>\n<p>Hoje eu quero falar um pouco de sonhos. Desde que me conhe\u00e7o por gente, ouvia aquela pergunta cl\u00e1ssica: \u201co que voc\u00ea vai ser quando crescer?\u201d. <\/p>\n<p>Teve um tempo em que respondia com orgulho: \u201cpalha\u00e7o de circo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10340","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10340","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10340"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10340\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17510,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10340\/revisions\/17510"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10340"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10340"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10340"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}