{"id":10341,"date":"2005-12-01T00:00:00","date_gmt":"2005-12-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:40:09","modified_gmt":"2017-09-13T19:40:09","slug":"a-importancia-de-lembrar-vlado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-importancia-de-lembrar-vlado\/","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia de lembrar Vlado"},"content":{"rendered":"<p>Para a Hist\u00f3ria recente do Brasil e para o jornalismo<br \/>\na morte do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975,<br \/>\nnas depend\u00eancias do DOI-CODI,<br \/>\n\u00e9 um marco que prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre<br \/>\nos caminhos que trilhamos ao longo desses 30 anos.<\/p>\n<p>Primeira Parte \u2013 A CR\u00d4NICA<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea me prende vivo. Eu escapo morto\u201d \u2013 Pesadelo, Paulo C\u00e9sar Pinheiro<\/p>\n<p>01.<\/p>\n<p>O jornalista n\u00e3o deve temer chegar ao fundo do po\u00e7o na busca dos fatos, da verdade. \u00c9 preciso encarar todos os sacrif\u00edcios que esta verdade imp\u00f5e. N\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito f\u00e1cil. Mas, se n\u00e3o for assim, \u00e9 melhor procurar outra profiss\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>As palavras n\u00e3o foram exatamente essas, mas o teor da conversa, sim. Inesquec\u00edvel para o estudante do curso de jornalismo da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo, l\u00e1 no mais long\u00ednquo dos anos, 1975. A voz convicta do professor, ali\u00e1s, n\u00e3o deixa transparecer qualquer rancor. Ao contrario. N\u00e3o quer impor nada a nenhum dos presentes. Fala naturalmente ao destacar a seriedade que a profiss\u00e3o, esta sim, exige ainda mais se considerarmos a \u00e1spera realidade que vive o Pa\u00eds.<br \/>\nUm grupo de alunos amea\u00e7a reclamar. Todos \u2013 enfatiza o professor -, todos est\u00e3o convocados a trocar um prov\u00e1vel fim-de-semana ensolarado pela presen\u00e7a obrigat\u00f3ria no campus da USP. A id\u00e9ia \u00e9 fazer um \u201craio x\u201d dos problemas que a Cidade Universit\u00e1ria apresenta em termos de infra-estrutura e planejamento urbano.<br \/>\nAlgu\u00e9m lembra: os estudantes ainda n\u00e3o viram publicada sequer uma linha dos trabalhos que realizaram ao longo de quase tr\u00eas anos de curso. D\u00e1 para se imaginar que toda essa \u2018correria\u2019 ser\u00e1 em v\u00e3o. A disciplina \u00e9 Telejornalismo e n\u00e3o h\u00e1 equipamentos \u2013 sequer uma c\u00e2mera \u2013 para a realiza\u00e7\u00e3o de tamanho projeto ou de qualquer outra cobertura que fosse \u2013 a inaugura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas \u2018preciosos\u2019 espelhos d\u2019\u00e1gua artificiais em frente \u00e0 ECA, por exemplo.<br \/>\nO professor responde que trabalhar\u00e3o com m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas e posteriormente ser\u00e1 montado um document\u00e1rio audiovisual. O que importa mesmo, ressalta, \u00e9 o conte\u00fado, as reportagens, o servi\u00e7o que prestar\u00e3o \u00e0quela comunidade e seus arredores.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 formalismos, nem pose de \u201cdono da verdade\u201d. Apenas deixa bem n\u00edtido que ele n\u00e3o est\u00e1 ali s\u00f3 de passagem. Traz um aspecto cansado de quem trabalhou madrugada adentro &#8212; \u00e9 diretor de jornalismo da TV Cultura. Os alunos se convencem quando ele encerra o assunto repetindo o alerta:<br \/>\n&#8212; Se n\u00e3o for assim, \u00e9 melhor procurar outra profiss\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>02.<\/p>\n<p>Semanas depois, ao assistir ao espet\u00e1culo \u201cBrasileiro Profiss\u00e3o Esperan\u00e7a\u201d, os atores em cenas \u2013 Paulo Gracindo e a cantora Clara Nunes \u2013 mostram-se emocionalmente abalados; diria algo desconcertados. H\u00e1 uma atmosfera de tristeza e indigna\u00e7\u00e3o. Talvez as personagens de Vianinha (Oduvaldo Viana Filho) pedissem esse desassombro.<br \/>\nFim da sess\u00e3o, aplausos. E as cortinas se fecham. Os aplausos continuam. Os atores reaparecem. Clara n\u00e3o cont\u00e9m as l\u00e1grimas. Gracindo d\u00e1 a not\u00edcia:<br \/>\nS\u00e1bado, 25 de outubro de 1975. O jornalista e professor Vladimir Herzog morreu tragicamente nas depend\u00eancias do DOI-CODI de S\u00e3o Paulo.<br \/>\n&#8212; \u00c9 preciso encarar todos os sacrif\u00edcios \u2013 algu\u00e9m pensa na plat\u00e9ia.<br \/>\nEntende-se agora a tristeza e a indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>03.<\/p>\n<p>E a Hist\u00f3ria deste Pa\u00eds come\u00e7a a mudar.<br \/>\nS\u00e3o os tempos negros da repress\u00e3o. O Governo M\u00e9dici fez \u201cescola\u201d. E mesmo o general presidente Ernesto Geisel encontra s\u00e9rias dificuldades para conter \u201cabusos\u201d em S\u00e3o Paulo. Organismos militares e paramilitares agem descontroladamente em nome do que entendem \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d.<br \/>\nEm setembro deste ano, ao falar para estudantes de jornalismo da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, o ent\u00e3o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S\u00e3o Paulo, Aud\u00e1lio Dantas, lembrou que, naquele momento, havia uma cis\u00e3o entre os pr\u00f3prios militares. O grupo liderado por Geisel, que tinha como mentor intelectual o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, queria devolver o governo aos civis e deu in\u00edcio a um processo de abertura democr\u00e1tica, convenientemente definida como \u201clenta, total e gradativa\u201d. Em contraponto, militares ultraconservadores, liderados pelo general S\u00edlvio Frota e pelo general Ednardo D\u2019\u00c1vila Mello, comandante do IIo.Ex\u00e9rcito de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o se dispunham em abrir m\u00e3o do Poder.<\/p>\n<p>\u201cHavia uma disputa, uma luta entre essas duas correntes. Ou seja, um movimento subterr\u00e2neo que a gente pode considerar um golpe dentro do golpe. Estabeleceu-se uma guerra dentro do pr\u00f3prio Sistema. E a sociedade ficou no meio dessa guerra. Houve uma onda de pris\u00f5es arbitr\u00e1rias que atingiu v\u00e1rios setores da sociedade. E, no in\u00edcio de outubro de 1975, atingiu aos jornalistas. Jornalistas que eram tidos como pertencentes ao Partido Comunista Brasileiro e estariam tentando reorganizar o Partid\u00e3o que estava ent\u00e3o na clandestinidade. Eram onze jornalistas presos, at\u00e9 que Herzog se apresentasse na manh\u00e3 daquele s\u00e1bado&#8230; Ele foi o d\u00e9cimo segundo\u201d. (1)<\/p>\n<p>O jornalista e escritor Rodolfo Konder era um dos jornalistas presos no DOI-CODI e chegou a falar com Herzog momentos antes de sua morte. Ele define aqueles dias de viol\u00eancia e tens\u00e3o com um prov\u00e9rbio indiano.<\/p>\n<p>\u201cQuando dois elefantes brigam, quem leva a pior \u00e9 a grama. N\u00f3s \u00e9ramos a grama naquele momento.\u201d (2)<\/p>\n<p>04.<\/p>\n<p>A morte de Vlado \u00e9 a primeira arbitrariedade a escapulir da a\u00e7\u00e3o dos censores e dos c\u00e3es de guarda do que chamavam \u2018ordem p\u00fablica\u2019. \u00c9 a primeira not\u00edcia a \u201cpassar\u201d ao brasileiro m\u00e9dio de que o Pa\u00eds est\u00e1 subjugado \u00e0 nefasta ditadura. Apesar do famigerado \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d. Apesar da aparente tranq\u00fcilidade. Apesar da propaganda massificadora sob o lema facist\u00f3ide \u201cBrasil, ame-o ou deixe-o\u201d. Apesar de tudo, havia muito a ser feito. Especialmente para quem exercia a fun\u00e7\u00e3o de jornalista, no entender do diretor de Reda\u00e7\u00e3o da revista Carta Capital, Mino Carta<\/p>\n<p>\u201cTive um grande envolvimento com este epis\u00f3dio. Entendi ali que o Pa\u00eds precisava de um jornalista e n\u00e3o apenas de um profissional de imprensa.\u201d (3)<\/p>\n<p>No livro Castelo de \u00c2mbar, Mino escreve na pelo de seu auter-ego Perc\u00facio Parla:<\/p>\n<p>\u201cA morte de Vladimir Herzog \u00e9 o ponto de ruptura. Mino sabe que a sua concep\u00e7\u00e3o de jornalismo j\u00e1 n\u00e3o se justifica \u00e0 sombra da arvorezinha, s\u00edmbolo da Abril, e o impele na dire\u00e7\u00e3o de outras experi\u00eancias.\u201d<\/p>\n<p>Durante encontro com estudantes na Universidade Metodista, o diretor de Reda\u00e7\u00e3o da Carta Capital retomou o tema e acrescentou:<\/p>\n<p>\u201cNaquele momento, apesar de tudo, apesar dos riscos, sent\u00edamos uma grande esperan\u00e7a. Acho que a morte do Herzog \u00e9 um ponto de partida muito importante. As contradi\u00e7\u00f5es da ditadura come\u00e7am efetivamente a se definir e a se revelar.\u201d (1)<\/p>\n<p>06.<\/p>\n<p>Os dias que se seguem s\u00e3o de muita movimenta\u00e7\u00e3o. E apreens\u00e3o. Pol\u00edticos do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB), jornalistas, l\u00edderes sindicais e religiosos, representantes de entidades e estudantes preparam um culto ecum\u00eanico na Catedral da S\u00e9. O arcebispo de S\u00e3o Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright (da Igreja Presbiteriana) recebem amea\u00e7as e recomenda\u00e7\u00f5es para os riscos da manifesta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se intimidam e seguem com o projeto. No dia da cerim\u00f4nia &#8212; sexta-feira, dia 31 &#8211;, a cidade amanhece tomada por comandos que, espalhados em pontos estrat\u00e9gicos, interceptam a quem bem entendem. Querem dificultar o acesso de quem planeja chegar ao ato. Mesmo assim, 8 mil pessoas lotam a Catedral e os arredores da Pra\u00e7a da S\u00e9 para reverenciar a mem\u00f3ria de Vlado.<br \/>\nDiz Aud\u00e1lio Dantas, ent\u00e3o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S\u00e3o Paulo e um dos articuladores do culto e da corajosa posi\u00e7\u00e3o dos jornalistas naqueles dias.<\/p>\n<p>\u201cAcho importante que se situe aquele momento. O culto ecum\u00eanico e todas as repercuss\u00f5es da morte de Herzog mostraram que n\u00e3o aceit\u00e1vamos a vers\u00e3o do suic\u00eddio. Houve um crescimento do movimento, a partir do Sindicato dos Jornalistas e dos estudantes. E o culto, com a presen\u00e7a do cardeal arcebispo de Pernambuco, Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, representou o principal momento em que a sociedade, por interm\u00e9dio de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es, despertou para uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podia continuar. Foi a gota d\u2019\u00e1gua, o ponto de partida para um processo que, da\u00ed para frente, cresceu no sentido de denunciar as viol\u00eancias que eram cometidas pela ditadura. E que eram inadmiss\u00edveis.\u201d (1)<\/p>\n<p>Ao document\u00e1rio \u201cCatedral. Um Sil\u00eancio Em Mem\u00f3ria a Herzog\u201d, exibido pela TV Senac, em 25 de outubro de 2005, o ent\u00e3o arcebispo de S\u00e3o Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, lembrou suas palavras no culto. E o sil\u00eancio que se seguiu ap\u00f3s serem proferidas.<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m toca impunemente no homem que nasceu no cora\u00e7\u00e3o de Deus.\u201d<br \/>\n\u201cNas minhas dores, \u00f3 Senhor, fica ao meu lado\u201d- responderam os presentes. (4)<\/p>\n<p>Sil\u00eancio mais absoluto e representativo, fez-se quando foi anunciada a presen\u00e7a de Dom H\u00e9lder que, por sua postura em defesa dos oprimidos e da democracia, estava proibido pelos militares de fazer qualquer pronunciamento p\u00fablico \u2013 mesmo que fosse um serm\u00e3o dominical. Naquela sexta-feira, em pleno altar, Dom H\u00e9lder confidenciou ao ouvido de Dom Paulo:<\/p>\n<p>\u201cHoje o ch\u00e3o da ditadura come\u00e7ou a tremer. \u00c9 o come\u00e7o do fim.\u201d (4)<\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda da Catedral, os rep\u00f3rteres perguntavam o que Dom H\u00e9lder tinha a dizer:<\/p>\n<p>\u201cSenhores, h\u00e1 momentos em que o sil\u00eancio fala mais alto.\u201d (4)<\/p>\n<p>\u00c0 revista Aventuras na Hist\u00f3ria, n\u00famero 26 de outubro de 2005, o jornalista e historiador Elio Gaspari, autor do livro \u201cDitadura Encurralada\u201d que narra esse per\u00edodo, ressaltou:<\/p>\n<p>\u201cA ditadura, com sua \u2018tigrada\u2019 e seu aparato policial, revelara-se um anacronismo que procurava na anarquia um pretexto para a pr\u00f3pria reafirma\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No livro, ele d\u00e1 mais detalhes:<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 noite (de segunda, dia 27), a sede do Sindicato dos Jornalistas est\u00e1 repleta. Aud\u00e1lio Dantas preservava a todo custo sua conduta legalista. Evitava complica\u00e7\u00f5es chamando a assembl\u00e9ia de \u201creuni\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o\u201d. Mantinha os comunicados em linguagem seca, sem adjetivos. N\u00e3o dava seguimento \u00e0s sugest\u00f5es de passeatas, nem ouvidos aos estudantes. At\u00e9 que aconteceu o inevit\u00e1vel: um jornalista prop\u00f4s que o sindicato convocasse a popula\u00e7\u00e3o para um ato religioso pela mem\u00f3ria de Herzog. Acerim\u00f4nia foi marcada para sexta-feira. N\u00e3o se sabia onde, mas na manh\u00e3 seguinte o cardeal Arns tomou a iniciativa. Ofereceu a catedral da S\u00e9 e informou que l\u00e1 estaria.\u201d<\/p>\n<p>\u201cDe acordo com os costumes da ditadura, o cad\u00e1ver de Herzog deveria ser esquecido na tarde de domingo, depois de um r\u00e1pido e silencioso enterro. A vi\u00fava estendera a crise at\u00e9 segunda-feira. Pelo que acontecia em S\u00e3o Paulo, a mobiliza\u00e7\u00e3o duraria no m\u00ednimo mais quatro dias.\u201d<\/p>\n<p>Parte 2 \u2013 TRINTA ANOS DEPOIS&#8230;<\/p>\n<p>\u201cO muro caiu, olha a ponte da liberdade guardi\u00e3.<br \/>\nO bra\u00e7o do Cristo horizonte abra\u00e7a o dia de amanh\u00e3\u201d &#8212; Pesadelo, Paulo C\u00e9sar Pinheiro<\/p>\n<p>07.<\/p>\n<p>25 de outubro de 2005. Trinta anos depois.<br \/>\nO Brasil nunca mais foi o mesmo depois da morte de Vladimir Herzog.<\/p>\n<p>1976 \u2013 O metal\u00fargico Manuel Fiel Filho \u00e9 torturado e morto no Doi-Codi em S\u00e3o Paulo. O presidente Ernesto Geisel exonera o general Ednardo D\u2019\u00c1vila Mello do comando do II Ex\u00e9rcito em S\u00e3o Paulo.<br \/>\n1977 \u2013 Mais de 10 mil estudantes saem \u00e0s ruas em S\u00e3o Paulo em protesto contra o \u201cPacote de Abril\u201d decretado pelo presidente Ernesto Geisel e que prop\u00f5e o recesso parlamentar e medidas que pretendem impedir o avan\u00e7o da Oposi\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es.<br \/>\n1978 \u2013 Congresso aprova emenda constitucional que extingue o Ato Institucional no. 5. Metal\u00fargicos do ABC iniciam movimento grevista.<br \/>\n1979 \u2013 O presidente general Jo\u00e3o Batista Figueiredo aprova Lei da Anistia. Retorno dos exilados pol\u00edticos.<br \/>\n1981 \u2013 Duas bombas explodem no Rio Centro, Rio de Janeiro. Show comemorativo do 1\u00ba de Maio. Um sargento do Ex\u00e9rcito morre e um capit\u00e3o sai ferido. O artefato explodiu no colo do sargento quando o capit\u00e3o estacionava o ve\u00edculo.<br \/>\n1982 \u2013 Franco Montoro, do PMDB, se elege governador de S\u00e3o Paulo.<br \/>\n1984 \u2013 Movimento das Diretas-J\u00e1 mobiliza o Pa\u00eds. Mas, a emenda Dante de Oliveira \u00e9 derrotada no Congresso.<br \/>\n1985 \u2013 Tancredo Neves \u00e9 eleito presidente da Rep\u00fablica, no Col\u00e9gio Eleitoral, mas sequer chega a tomar posse. O vice Jos\u00e9 Sarney assume em seu lugar.<br \/>\n1986 \u2013 Lan\u00e7amento do Plano Cruzado que congelou pre\u00e7os e sal\u00e1rios.<br \/>\n1989 \u2013 Na primeira elei\u00e7\u00e3o direta para presidente desde 1960, Fernando Collor de Mello derrota Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<br \/>\n1990 &#8212; Collor anuncia o Plano Collor. Foram bloqueados saldos de contas correntes e cadernetas de poupan\u00e7a e pre\u00e7os e sal\u00e1rios s\u00e3o congelados.<br \/>\n1992 \u2013 Para escapar ao impeachment, Fernando Collor de Mello renuncia. Assume o vice Itamar Franco.<br \/>\n1994 \u2013 Lan\u00e7amento do Plano Real pelo ent\u00e3o ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.<br \/>\n1995 \u2013 Fernando Henrique \u00e9 eleito presidente.<br \/>\n1998 \u2013 Fernando Henrique \u00e9 reeleito.<br \/>\n2002 \u2013 Lula se elege presidente em sua quarta tentativa de chegar ao posto.<\/p>\n<p>08.<\/p>\n<p>25 de outubro de 2005. Trinta anos depois.<br \/>\nA mem\u00f3ria de Vladimir Herzog \u00e9 reverenciada com ampla programa\u00e7\u00e3o de eventos, organizada pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de S\u00e3o Paulo, que se intitulou \u201cVlado, 30 Anos de Vida Eterna\u201d. Houve ainda in\u00fameras iniciativas, como lan\u00e7amento de livros e document\u00e1rios, al\u00e9m de uma s\u00e9rie de realiza\u00e7\u00f5es nas escolas de jornalismo. A primeira delas, a \u201cIV Semana de Jornalismo \u2013 Herzog, 30 Anos Depois\u201d realizou-se no campus Rudge Ramos da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, promovida pela Faculdade de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas. De 20 a 22 de setembro, doze jornalistas\u2019 se revezaram em nove palestras e uma oficina. Ao lado dos professores do curso de jornalismo, discutiram o caso Herzog e o que representou para a sociedade brasileira, a evolu\u00e7\u00e3o (ou n\u00e3o?) do jornalismo nesse per\u00edodo e como se pode ampliar os limites do ensino de jornalismo para al\u00e9m das salas de aula e dos laborat\u00f3rios da universidade.<\/p>\n<p>09.<\/p>\n<p>O Brasil nunca mais foi o mesmo depois da morte do jornalista Vladimir Herzog.<br \/>\nE o jornalismo quais os rumos que tomou nesses 30 anos de Hist\u00f3ria, propositalmente aqui com H mai\u00fasculo&#8230;<br \/>\nParece que, ao perder o inimigo comum, a ditadura, &#8212; em abril de 1985 quando um civil assume a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica &#8212; os profissionais de imprensa ficaram sem o mote e sem a indigna\u00e7\u00e3o dos tempos do obscurantismo. Discute-se hoje, inclusive, se ainda somos uma categoria profissional ou apenas pleiteamos &#8212; individualmente ou em pequenas corpora\u00e7\u00f5es \u2013 uma certa estabilidade financeira, uma relativa proje\u00e7\u00e3o e a gl\u00f3ria maior da \u201camizade\u201d dos donos das grandes empresas de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 o \u00fanico lugar do mundo onde os jornalistas chamam seus patr\u00f5es de colegas\u201d \u2013 diz o jornalista Mino Carta, diretor de reda\u00e7\u00e3o da revista Carta Capital, ao participar da noite de abertura do IV Encontro de Jornalismo, ao lado do jornalista George Duque Estrada, que estava preso no DOI-CODI no dia em que Herzog morreu.(1)<\/p>\n<p>10..<\/p>\n<p>No painel da manh\u00e3 de quarta-feira (21), o jornalista Juca Kfouri explicou que, ao longo desse per\u00edodo, houve \u201cmuitos progressos e outros tantos retrocessos\u201d. Explicou tamb\u00e9m que a chegada de uma leva de novos profissionais formada pelas escolas de jornalismo deu um tom mais cr\u00edtico \u00e0s reda\u00e7\u00f5es. Em contraponto, lembrou que \u201ca garotada daquele tempo era mais pretensiosa\u201d. Saudavelmente, ousava sonhar em fazer a revolu\u00e7\u00e3o a partir do teclado das velhas Olivettis sem tampo. Salvar o mundo \u2013 esta era a proposta. Que, para ele, mesmo diante de tantos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e de todos os interesses em jogo, deve permanecer como a base de todo o procedimento jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>\u201cContinuamos a ser os chatos de plant\u00e3o. Os caras que botam o dedo na ferida. Jornalista \u00e9 para mostrar o que est\u00e1 errado. Esta \u00e9 a nossa fun\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que existe a boa not\u00edcia e \u00e9 gostoso dar a boa not\u00edcia. Mas, jornalismo \u00e9, antes de mais nada, oposi\u00e7\u00e3o.\u201d (1)<\/p>\n<p>E seja em que \u00e1rea for que voc\u00ea estiver trabalhando. Inclusive no jornalismo esportivo, especialidade de Kfouri.<\/p>\n<p>\u201cO jornalismo esportivo deve estar ligado com a realidade nacional. O futebol \u00e9 das manifesta\u00e7\u00f5es culturais mais arraigadas na alma do povo brasileiro. N\u00e3o d\u00e1 para separar isso do dia-a-dia de sua atividade como jornalista. Nunca esquecer que torcedor de futebol tamb\u00e9m \u00e9 cidad\u00e3o.\u201d (1)<\/p>\n<p>Fora do \u00e2mbito da forma\u00e7\u00e3o profissional, Kfouri ressaltou que o maior dos retrocessos est\u00e1 calcado na crise econ\u00f4mica que o setor enfrenta. E que gerou uma situa\u00e7\u00e3o de desemprego at\u00e9 ent\u00e3o inusitada.<\/p>\n<p>\u201cEm 35 anos de profiss\u00e3o nunca tinha visto nada parecido. O dizimar que houve nas<br \/>\nreda\u00e7\u00f5es. O que se fez com os sal\u00e1rios foi realmente grave. Tudo porque os donos dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o acreditaram nas pr\u00f3prias mentiras. Acharam verdadeiramente que o real era equivalente ao d\u00f3lar e se endividaram em d\u00f3lares para construir coisas que n\u00e3o eram o cora\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio. Um que foi para a lista telef\u00f4nica, outro que foi para os celulares e mais outro que foi espalhar cabos em todas as cidades do Pa\u00eds. Resultado: todos quebraram.\u201d (1)<\/p>\n<p>11.<\/p>\n<p>Para o jornalista e ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, que participou do painel da noite de quinta-feira (22), tr\u00eas aspectos pontuam \u00e0s necessidades do jornalismo atual. A saber: a qualidade da informa\u00e7\u00e3o, o equil\u00edbrio e uma cobertura mais pluralista. Mesmo assim, ele v\u00ea avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o ao jornalismo que se fazia nos anos 70 \u2013 quando morreu Herzog. \u201cMesmo assim, \u00e9 um padr\u00e3o insuficiente\u201d, argumenta Beraba.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s erramos muita informa\u00e7\u00e3o. Apuramos muito mal. Investigamos mal. O leitor que est\u00e1 cada vez mais informado, pelas diversas formas de m\u00eddia, aponta nossas defici\u00eancias.\u201d (1)<\/p>\n<p>Segundo ele, em parte isso \u00e9 resultado da m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o que o estudante de jornalismo. De resto, uma defici\u00eancia geral do estudante brasileiro. Come\u00e7a no ensino de primeiro grau, passa pelo ensino m\u00e9dio e chega capenga \u00e0s universidades. Beraba amplia essa cr\u00edtica tamb\u00e9m \u00e0s empresas midi\u00e1ticas \u201cna medida em que poucas t\u00eam investimentos na \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o e treinamento de seus profissionais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, se formos discutir os v\u00e1rios problemas que assolam a imprensa e contribuem para um questionamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua credibilidade, veremos que o ponto fundamental \u00e9 a quest\u00e3o da apura\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.\u201d (1)<\/p>\n<p>Os outros dois pontos, citados por Beraba, trafegam pela mesma avenida. Ou seja, os jornais brasileiros precisam se modernizar \u2013 n\u00e3o apenas graficamente &#8211;, mas tamb\u00e9m e principalmente em termos conceituais.<\/p>\n<p>\u201cBasta ver como os jornais fazem suas coberturas para percebemos esse desequil\u00edbrio. Ademais, os jornais precisam ser mais pluralistas nos temas que abordam, nas opini\u00f5es que trazem, nos pontos de vistas, nas an\u00e1lises, na diversidade de suas reportagens. Ou seja, sair daquela coisa monotem\u00e1tica que marca os jornais hoje em dia.\u201d (1)<\/p>\n<p>12.<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter especial do Fant\u00e1stico, Valmir Salaro, abriu a Semana na manh\u00e3 de Ter\u00e7a, dia 20. Ele salientou que \u201choje a velocidade da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 imediata\u201d. E esta \u00e9 a grande transforma\u00e7\u00e3o que vivemos nesses 30 anos. At\u00e9 em fun\u00e7\u00e3o da m\u00e3o pesada da censura, o jornalismo padecia de um maior poder de investiga\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca de Vladimir Herzog. Era combativo, por for\u00e7a de circunst\u00e2ncias e natureza. Mas, se fosse publicar algo, era indispens\u00e1vel \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de uma autoridade que comprovasse o fato.<\/p>\n<p>\u201cHoje se voc\u00ea tem um gravador, s\u00f3 com isso j\u00e1 faz uma grande reportagem para qualquer jornal, com uma baita den\u00fancia. E isso \u00e9 um ponto ao nosso favor.\u201d (1)<\/p>\n<p>Mesmo assim, Salaro acha que \u00e9 fundamental \u201cuma boa hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO jornalismo evoluiu muito. Mas, sempre precisou de uma boa hist\u00f3ria para existir. E tamb\u00e9m da curiosidade do jornalista para ir atr\u00e1s dessa boa hist\u00f3ria.\u201d (1)<\/p>\n<p>13.<\/p>\n<p>Do alto de seus 50 anos de jornalismo, o rep\u00f3rter Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro concorda com Salaro. Mas, fez uma ressalva na tarde de quarta, dia 21, quando esteve na Universidade: \u00e9 preciso voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA pessoa que tem voca\u00e7\u00e3o para ser jornalista vai ser jornalista, e dos bons. \u00c9 uma profiss\u00e3o de competi\u00e7\u00e3o, de muita cobran\u00e7a. O erro do jornalista \u00e9 mais vis\u00edvel. Fica escancarado; n\u00e3o tanto para o leitor, mas para os colegas. \u00c9 uma profiss\u00e3o estritamente vigiada. Mas, como disse, depende da voca\u00e7\u00e3o. Havendo voca\u00e7\u00e3o, o resto \u00e9 f\u00e1cil.\u201d (1)<\/p>\n<p>Para se ter uma boa hist\u00f3ria, segundo Z\u00e9 Hamilton, \u00e9 fundamental que tenhamos \u2013 e valorizamos \u2013 o bom rep\u00f3rter. E essa \u00e9 uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o nos dias atuais.<\/p>\n<p>\u201cO rep\u00f3rter \u00e9 jornalista. Mas, nem todo jornalista \u00e9 rep\u00f3rter. Voc\u00ea pode exercer a fun\u00e7\u00e3o de edi\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o, chefia disso ou daquilo, e n\u00e3o \u00e9 rep\u00f3rter.\u201d (1)<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter est\u00e1 sempre diante do novo, do inusitado. Ent\u00e3o, obrigatoriamente ele tem de partir do zero. \u201cAssumir sua ignor\u00e2ncia\u201d, como disse Z\u00e9 Hamilton.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea chega numa reportagem achando que sabe tudo, cai do cavalo rapidamente porque cada pessoa chega com um pensamento diferente. Traz algo que voc\u00ea precisa distinguir. Alguma coisa que ele sabe mais daquele assunto da reportagem. Se voc\u00ea desistir dessa santa ignor\u00e2ncia, voc\u00ea nunca ser\u00e1 um bom rep\u00f3rter.\u201d (1)<\/p>\n<p>Parte 3 &#8211; CONCLUS\u00d5ES<\/p>\n<p>\u201cQuando o muro separa uma ponte une.\u201d &#8212; Pesadelo, Paulo C\u00e9sar Pinheiro<br \/>\n.<\/p>\n<p>14.<\/p>\n<p>Outubro de 2005. Manh\u00e3 do dia 3, um domingo como outro qualquer. A colunista da Folha de S.Paulo, M\u00f4nica Bergamo, abre sua coluna com a entrevista com o ex-governador de S\u00e3o Paulo, Paulo Egydio Martins. Na verdade, \u00e9 uma n\u00e3o-entrevista. Ele se mostra irredut\u00edvel em seu sil\u00eancio sobre Vlado:<\/p>\n<p>\u201cDei umas mil entrevistas sobre o Vlado. Primeiro foi uma entrevista longa para o Paulo Markun (autor do livro Vlado). Ent\u00e3o falei para todo mundo&#8230; \u00c9 uma repeti\u00e7\u00e3o enfadonha. Eu vou n\u00e3o passar mais 30 anos falando do Vlado.\u201d<\/p>\n<p>E acrescenta:<\/p>\n<p>\u201cParece um problema classista. Os jornalistas querem fazer um m\u00e1rtir. Vlado \u00e9 de fato um m\u00e1rtir. Mas e o Manuel Fiel Filho? Por que n\u00e3o me entrevistam sobre ele?\u201d<\/p>\n<p>Diante da insist\u00eancia da entrevistadora, faz um desabafo:<\/p>\n<p>\u201cEu falei duas horas para a TV Globo e s\u00f3 colocaram 30 segundos no ar (&#8230;) Sempre conversei de maneira absolutamente aberta e transparente com os jornalistas. Mas, confesso, est\u00e1 na hora de mudarmos de assunto.\u201d<\/p>\n<p>15.<\/p>\n<p>\u201cImportante conscientizar as gera\u00e7\u00f5es do futuro para nunca mais se omitir diante das injusti\u00e7as.\u201d (5)<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o acima \u00e9 do rabino Henri Sobel, feita ao document\u00e1rio \u201cA Presen\u00e7a de Herzog\u201d, exibido no domingo, dia 5 de novembro, pela TV Cultura. Um contraste \u00e0 postura intransigente do ex-governador.<br \/>\nCabe, por\u00e9m, uma ressalva. Paulo Egidyo foi governador de S\u00e3o Paulo por indica\u00e7\u00e3o do presidente Ernesto Geisel e seu nome andou na lista dos \u2018procurados\u2019 pela ala dos militares radicais que mataram Herzog. Portanto, \u00e9 compreens\u00edvel o desconforto \u2013 inclusive refor\u00e7ado pela indiferen\u00e7a com a produ\u00e7\u00e3o do Linha Direta da TV Globo, que tratou do Caso Herzog, mostrou pelo seu depoimento.<br \/>\nPaulo Egydio era o alvo, portanto. A estrat\u00e9gia da \u201ctigrada\u201d era emperrar o processo de abertura democr\u00e1tica, defendido por Geisel, Golbery e pares de caserna. Para isso, imaginavam mostrar a fragilidade do presidente Ernesto Geisel em conter o chamado \u201cavan\u00e7o comunista\u201d. Queriam tachar o governador Paulo Egydio de, no m\u00ednimo, estar acobertando uma horda de \u201cvermelhinhos\u201d nas depend\u00eancias da TV Cultura.<\/p>\n<p>\u201cA pris\u00e3o de Herzog era o primeiro passo neste sentido\u201d \u2013 disse o jornalista George Duque Estrada. (1)<\/p>\n<p>Por meio de Herzog, chegariam ao secret\u00e1rio estadual de Cultural, o empres\u00e1rio e bibli\u00f3grafo Jos\u00e9 Midlin e assim, atrav\u00e9s deste, emparedariam Egydio e conseq\u00fcentemente o presidente Ernesto Geisel.<\/p>\n<p>\u201cNa noite do s\u00e1bado em que morreu Herzog, por coincid\u00eancia, havia festa na casa do ministro do Ex\u00e9rcito, Sylvio Frota. Durante o jantar, fizeram um brinde ao \u2018futuro presidente da Rep\u00fablica\u2019. N\u00e3o era o primeiro\u201d \u2013 conta o historiador Elio Gaspari no livro \u2018A Ditadura Encurralada\u2019.<\/p>\n<p>Frota era um dos interessados no recrudescimento do Regime \u2013 e uma pedra no caminho da redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>16.<\/p>\n<p>Apesar de reconhecer as raz\u00f5es do ex-governador para n\u00e3o falar no assunto, as palavras do rabino Sobel fazem mais sentido. As novas gera\u00e7\u00f5es precisam conhecer este fato que, queiramos ou n\u00e3o, mudou a cara do Pa\u00eds. O 25 de outubro merece mesmo reflex\u00e3o \u2013 e at\u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o do que se andou fazendo nos \u00faltimos 30 anos.<br \/>\nEspecialmente no \u00e2mbito do jornalismo as discuss\u00f5es parecem hoje intermin\u00e1veis. Al\u00e9m das supracitadas pelos jornalistas que participaram da IV Semana, uma boa refer\u00eancia desse desenvolvimento est\u00e1 no livro \u2018O Jornalismo dos Anos 90\u2019, de Lu\u00eds Nassif, outro estudante da ECA nos anos 70.<\/p>\n<p>\u201cDos anos 50 a meados dos anos 60 o jornalismo foi ref\u00e9m dos partidos pol\u00edticos. De meados dos anos 60 ao final dos anos 70, ref\u00e9m da ditadura. Nos anos 80 descobriu sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o em uma sociedade de mercado moderna: ser representante dos interesses difusos da sociedade contra interesses pol\u00edticos, corporativos e setoriais.\u201d<br \/>\nO passo seguinte foi se ver como um produto, que tem que responder \u00e0s expectativas do seu p\u00fablico. A m\u00eddia passou a recorrer a departamentos de pesquisa, a leituras imediatistas do que as pesquisas mostravam, a tentar atender as demandas de curto prazo do leitor. E a\u00ed se tornou ref\u00e9m do pior censor: ditadura da opini\u00e3o p\u00fablica ou, melhor, de atuar passivamente oferecendo ao leitor aquilo que pensa que ele quer.\u201d<br \/>\n\u201cEste \u00e9 o grande dilema da imprensa de opini\u00e3o do s\u00e9culo 21: atender \u00e0s expectativas imediatas de seu leitor ou ser uma guardi\u00e3 dos valores da civiliza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Um pouco dessa provocante tem\u00e1tica permeou os debates da Semana de Jornalismo da FAJORP. Valeu-se principalmente dos relatos dos not\u00e1veis jornalistas convidados. Eles puderam, de certa forma, assinalar o peso da individualidade no alargar os limites que o mercado muitas vezes se nos imp\u00f5e. Ficou claro aos estudantes: essa marca s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mediante compet\u00eancia t\u00e9cnica e uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e contempor\u00e2nea. Tal proje\u00e7\u00e3o foi real\u00e7ada pela recente legitima\u00e7\u00e3o da validade do diploma de gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo nas esferas judiciais.<br \/>\nTudo isso aumenta significativamente o peso das escolas de jornalismo. Aumenta a nossa responsabilidade.<\/p>\n<p>17.<\/p>\n<p>Por tudo o que representou &#8212; e foi escrito acima &#8211;, o caso Vladimir Herzog \u00e9 emblem\u00e1tico para a Hist\u00f3ria recente do Pa\u00eds. Para a Hist\u00f3ria do Jornalismo, por\u00e9m, diria que \u00e9 um marco e ainda hoje joga luz \u00e0s discuss\u00f5es de uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que permanece em foco. A saber:<br \/>\na) nos \u00faltimos 30 anos, foi um dos raros momentos em que o Sindicato dos Jornalistas do Estado de S\u00e3o Paulo desempenhou papel de lideran\u00e7a e aglutinador do interesse de toda a categoria. Sua atua\u00e7\u00e3o, comandada por Aud\u00e1lio Dantas, foi vital para a proje\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da \u2018barbarie\u2019 junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>(Essa lideran\u00e7a, diria, come\u00e7ou a se esboroar com a malsucedida greve de 1979. Por quest\u00f5es pol\u00edticas\/partid\u00e1rias, os jornalistas se engalfinharam numa luta pelo controle do Sindicato em que todos perdemos.)<\/p>\n<p>b) \u00e9 fato que a press\u00e3o feita, da base (a reda\u00e7\u00e3o) para a dire\u00e7\u00e3o dos jornais, foi importante para a divulga\u00e7\u00e3o da verdade \u2013 Herzog morreu assassinado pelos torturadores. Esta conquista permitiu que se alastrasse para al\u00e9m dos limites do suport\u00e1vel a a\u00e7\u00e3o da censura nos jornais.<\/p>\n<p>c) os \u201cpatr\u00f5es\u201d aproveitaram-se dessa brecha para negociarem, com o ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a, Alo\u00edsio Falc\u00e3o, solu\u00e7\u00f5es que mais lhe aprouvessem. Numa delas, a fam\u00edlia negociou o fim da censura com a demiss\u00e3o do \u201citaliano\u201d que comandava a reda\u00e7\u00e3o de Veja. O \u201citaliano\u201d em quest\u00e3o era o jornalista Mino Carta.<\/p>\n<p>d) mesmo assim, diria, foi outro raro momento em que empres\u00e1rios dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e profissionais de imprensa estiveram do mesmo lado, com um inimigo comum: a ditadura. Os primeiros porque vislumbravam um tempo democr\u00e1tico, especialmente bom para a amplia\u00e7\u00e3o dos seus neg\u00f3cios. Os segundos, a partir de uma ing\u00eanua compreens\u00e3o de que era fun\u00e7\u00e3o do jornalista \u201cpor o dedo na ferida, intervir, salvar a humanidade\u201d.<\/p>\n<p>e) a lembran\u00e7a e discuss\u00e3o do caso Herzog trazem \u00e0 tona uma realidade distante das novas gera\u00e7\u00f5es \u2013 sejam estudantes de jornalismo, sejam profissionais rec\u00e9m-formados. Esta t\u00f4nica trata das implica\u00e7\u00f5es sociais e transformadoras que acarreta o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>f) hoje o glamour de ser jornalista est\u00e1 em alta \u2013 muito provavelmente, a partir da notoriedade que a televis\u00e3o consagra a quem apare\u00e7a na telinha, seja apresentando um noticioso, seja como participante de um abomin\u00e1vel reality show.<\/p>\n<p>g) talvez por isso os profissionais de imprensa est\u00e3o mais preocupados com a ascens\u00e3o social e financeira \u2013 nenhum dem\u00e9rito nisso, ali\u00e1s \u2013 do que propriamente exercer as fun\u00e7\u00f5es cr\u00edtica e fiscalizadora que todo e qualquer jornalista deve exercer.<\/p>\n<p>Por isso a import\u00e2ncia de lembrar Herzog.<\/p>\n<p>17.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u2013 e principalmente \u2013 \u00e9 importante lembrar Vlado nesses dias em que o Brasil vive mais uma de suas crises pol\u00edticas e institucionais.<br \/>\nPol\u00edtica, sim, porque a esperan\u00e7a, em vista aos \u00faltimos acontecimentos, deu lugar ao medo e retomamos o velhor bord\u00e3o drummondiano: \u201cE agora, Jos\u00e9?\u201d<br \/>\nA esperan\u00e7a perdeu-se em valdomiros, mensal\u00f5es, dirceus, correios, val\u00e9rios e assemelhados.<br \/>\nInstitucional, sim. A pecha da corrup\u00e7\u00e3o paira amea\u00e7adora sobre os tr\u00eas poderes \u2013 Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio &#8212; e os homens p\u00fablicos que se situam entre culpados e\/ou omissos.<\/p>\n<p>Importante lembrar Vlado porque muitos j\u00e1 esqueceram \u2013 ou nunca tiveram not\u00edcias \u2013 das excresc\u00eancias que todo Regime arbitr\u00e1rio perpetra onde se instala, com perdas inexor\u00e1veis para as camadas mais populares. Tamb\u00e9m porque nunca \u00e9 demais reafirmar os valores democr\u00e1ticos e universais.<\/p>\n<p>Importante lembrar Vlado para que possamos reiterar a f\u00e9 neste Pa\u00eds e na sua gente.<\/p>\n<p>Parte 4 \u2013 P\u00d3SFACIO<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea corta um verso, eu escrevo outro\u201d \u2013 Pesadelo, Paulo C\u00e9sar Pinheiro<\/p>\n<p>18.<\/p>\n<p>No dia 1\u00ba de abril 1964, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony convalescia de uma interven\u00e7\u00e3o de apendicite em sua casa no Posto Seis, Rio de Janeiro, quando foi \u2018convocado\u2019 pelo poeta Carlos Drummond de Andrade a assistir \u201cas confusas opera\u00e7\u00f5es que se processavam no Forte de Copacabana\u201d. No dia seguinte, o jornal Correio da Manh\u00e3 sa\u00eda \u00e0s ruas com a cr\u00f4nica \u201cDa Salva\u00e7\u00e3o da P\u00e1tria\u201d, a primeira de uma s\u00e9rie que Cony escreveria sobre sua estupefa\u00e7\u00e3o diante da nova ordem social, e que seriam reunidas no livro O Ato e O Fato.<br \/>\nA cr\u00f4nica termina assim:<\/p>\n<p>\u201cDas janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos len\u00e7\u00f3is, em sinal de vit\u00f3ria. Um cadillac p\u00e1ra perto do \u201cSix\u201d e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino tamb\u00e9m Nacional e declaram todos que a P\u00e1tria est\u00e1 salva.<br \/>\nMinha filha, ao meu lado, exige uma explica\u00e7\u00e3o para aquilo tudo.<br \/>\n&#8212; \u00c9 carnaval, papai?<br \/>\n&#8212; N\u00e3o.<br \/>\n&#8212; \u00c9 campeonato do mundo?<br \/>\n&#8212; Tamb\u00e9m n\u00e3o.<br \/>\nEla fica sem saber o que \u00e9. E eu tamb\u00e9m fico. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.\u201d<\/p>\n<p>19.<\/p>\n<p>Onze anos depois, Herzog n\u00e3o suportou \u201co gosto amargo\u201d. E pagou com a vida. E o Brasil nunca mais foi o mesmo depois de Herzog.<br \/>\nNo dizer de Frei Beto:<\/p>\n<p>\u201cFuraram os olhos da Justi\u00e7a, mas n\u00e3o lhe ensurdeceram nem lhe apagaram a mem\u00f3ria. 30 anos depois, Vladimir Herzog \u00e9 um cad\u00e1ver insepulto, subversivo, paradigm\u00e1tico. Tratado como um verme numa depend\u00eancia policial-militar, figura para sempre na galeria de her\u00f3is e m\u00e1rtires brasileiros.\u201d<\/p>\n<p>Parte 5 \u2013 REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>20.<\/p>\n<p>MARKUN, Paulo (org.). Vlado. Ed. Brasiliense, S\u00e3o Paulo,1985.<br \/>\nCARTA, Mino. O Castelo de \u00c2mbar. Ed. Record, Rio de Janeiro,2000.<br \/>\nJORD\u00c3O, Fernando Pacheco. Dossi\u00ea Herzog Pris\u00e3o, Tortura e Morte no Brasil. Ed. Global, S\u00e3o Paulo, 2005.<br \/>\nPEROSA, Lilian M.F. de Lima. Cidadania Proibida. O Caso Herzog Atrav\u00e9s da Imprensa. Edi\u00e7\u00f5es Imprensa Oficial e Sindicato dos Jornalistas do Estado de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo, 2001<br \/>\nPILAGALLO, Oscar. O Brasil em Sobressalto 80 Anos de Hist\u00f3ria Contados pela Folha. Ed. PubliFolha, S\u00e3o Paulo, 2002.<br \/>\nGASPARI, Elio. A Ditadura Encurralada O Sacerdote e O Feiticeiro. Ed. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2004.<br \/>\nNASSIF, LU\u00cdS. O Jornalismo dos Anos 90. Ed. Futura, S\u00e3o Paulo. 2003.<br \/>\nCONY, CARLOS HEITOR. O Ato e o Fato. Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, Rio de Janeiro, 1964. Relan\u00e7ado pelo Companhia das Letras. S\u00e3o Paulo, 2004.<\/p>\n<p>Como mataram Herzog. Revista Aventuras na Hist\u00f3ria. Ed. Abril, S\u00e3o Paulo, Outubro 2005.<br \/>\nVlado, 30 anos depois A hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser esquecida. Jornal dos Jornalistas \/ Unidade. \u00d3rg\u00e3o mensal do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de S\u00e3o Paulo. N\u00famero 279. Outubro, 2005.<br \/>\n\u201cJ\u00e1 dei mil entrevistas sobre o Vlado\u201d. Entrevista com Paulo Egydio Martins. Folha de S.Paulo, P\u00e1gina E2, 3 de outubro de 2005.<br \/>\nFREI BETTO. Herzog, mem\u00f3ria subversiva. Artigo publicado no site Comunique-se (www.comunique-se.com.br) em 25 de outubro de 2005.<\/p>\n<p>(1) Semana de Jornalismo da Faculdade de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, 2005.<br \/>\n(2) O Caso Herzog. Programa Linha Direta. Rede Globo, 2004.<br \/>\n(3) Programa Roda Viva. Entrevista com Mino Carta, 2001.<br \/>\n(4) Catedral, Um sil\u00eancio em mem\u00f3ria a Herzog. V\u00eddeo document\u00e1rio. Dire\u00e7\u00e3o: Marcos Carvalho Barbosa. Roteiro e produ\u00e7\u00e3o: D\u00e9bora Roberta Ferreira dos Santos, Deise da Cruz Silva, Fernando C\u00e9sar Batista de Almeida, Juliana Ambold, Marcela Correia de Oliveira, Marcos Carvalho Barbosa, Mayra Araujo Monteiro, Silas Teodoro de Castro Shimoda. Orienta\u00e7\u00e3o: Valdir Bofetti. Instituto Municipal de S\u00e3o Caetano do Sul \u2013 IMES. 2005.<br \/>\n(5) A Presen\u00e7a de Herzog. TV Cultura, 2005.<\/p>\n<p>* Revista Estudos de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Faculdade de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo. Ano 3. N\u00famero 6.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a Hist\u00f3ria recente do Brasil e para o jornalismo<br \/>\na morte do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975,<br \/>\nnas depend\u00eancias do DOI-CODI,<br \/>\n\u00e9 um marco que prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre<br \/>\nos caminhos que trilhamos ao longo desses 30 anos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10341","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10341"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13861,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10341\/revisions\/13861"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}