{"id":10342,"date":"2005-11-28T00:00:00","date_gmt":"2005-11-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2021-07-02T22:28:06","modified_gmt":"2021-07-02T22:28:06","slug":"a-importancia-de-lembrar-vlado-jornal-da-usp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-importancia-de-lembrar-vlado-jornal-da-usp\/","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia de lembrar Vlado (Jornal da USP)"},"content":{"rendered":"<p>A morte do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, \u00e9 um marco que prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre os caminhos trilhados pelo Brasil nos \u00faltimos 30 anos<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.usp.br\/jorusp\/arquivo\/2005\/jusp746\/pag1213.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>RODOLFO C. MARTINO, ESPECIAL PARA O JORNAL DA USP<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O jornalista n\u00e3o deve temer chegar ao fundo do po\u00e7o na busca dos fatos, da verdade. \u00c9 preciso encarar todos os sacrif\u00edcios que essa verdade imp\u00f5e. N\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito f\u00e1cil. Mas, se n\u00e3o for assim, \u00e9 melhor procurar outra profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>As palavras n\u00e3o foram exatamente essas, mas o teor da conversa, sim. Inesquec\u00edvel para o estudante de Jornalismo da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA) da USP, l\u00e1 no mais long\u00ednquo dos anos, 1975. A voz convicta do professor, ali\u00e1s, n\u00e3o deixa transparecer qualquer rancor. Ao contr\u00e1rio. N\u00e3o quer impor nada a nenhum dos presentes. Fala naturalmente ao destacar a seriedade que a profiss\u00e3o, esta sim, exige, ainda mais se considerarmos a \u00e1spera realidade que o Pa\u00eds vive.<\/p>\n<p>Um grupo de alunos amea\u00e7a reclamar. Todos \u2013 enfatiza o professor \u2013, todos est\u00e3o convocados a trocar um prov\u00e1vel fim de semana ensolarado pela presen\u00e7a obrigat\u00f3ria no campus da USP. A id\u00e9ia \u00e9 fazer um \u201craio x\u201d dos problemas que a Cidade Universit\u00e1ria apresenta em termos de infra-estrutura e planejamento urbano. Algu\u00e9m lembra: os estudantes ainda n\u00e3o viram publicada sequer uma linha dos trabalhos que realizaram ao longo de quase tr\u00eas anos de curso. D\u00e1 para imaginar que toda essa \u201ccorreria\u201d ser\u00e1 em v\u00e3o. A disciplina \u00e9 Telejornalismo e n\u00e3o h\u00e1 equipamentos, sequer uma c\u00e2mera, para a realiza\u00e7\u00e3o de tamanho projeto ou de qualquer outra cobertura que fosse \u2013 a inaugura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas \u201cpreciosos\u201d espelhos d\u2019\u00e1gua artificiais em frente \u00e0 ECA, por exemplo.<\/p>\n<p>O professor responde que trabalhar\u00e3o com m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas e posteriormente ser\u00e1 montado um document\u00e1rio audiovisual. O que importa mesmo, ressalta, s\u00e3o o conte\u00fado, as reportagens, o servi\u00e7o que prestar\u00e3o \u00e0quela comunidade e seus arredores. N\u00e3o h\u00e1 formalismos, nem pose de \u201cdono da verdade\u201d. Apenas deixa bem n\u00edtido que ele n\u00e3o est\u00e1 ali s\u00f3 de passagem. Traz um aspecto cansado de quem trabalhou madrugada adentro \u2013 \u00e9 diretor de Jornalismo da TV Cultura. Os alunos se convencem quando ele encerra o assunto repetindo o alerta: \u201cSe n\u00e3o for assim, \u00e9 melhor procurar outra profiss\u00e3o\u201d.Semanas depois, no espet\u00e1culo Brasileiro: profiss\u00e3o esperan\u00e7a, os atores em cena \u2013 Paulo Gracindo e a cantora Clara Nunes \u2013 mostram-se emocionalmente abalados, desconcertados. H\u00e1 uma atmosfera de tristeza e indigna\u00e7\u00e3o. Talvez as personagens de Vianinha (Oduvaldo Viana Filho) pedissem esse desassombro. Fim da sess\u00e3o, aplausos. E as cortinas se fecham. Os aplausos continuam. Os atores reaparecem. Clara n\u00e3o cont\u00e9m as l\u00e1grimas. Gracindo d\u00e1 a not\u00edcia: s\u00e1bado, 25 de outubro de 1975, o jornalista e professor Vladimir Herzog morreu tragicamente nas depend\u00eancias do DOI-Codi de S\u00e3o Paulo. \u201c\u00c9 preciso encarar todos os sacrif\u00edcios\u201d, algu\u00e9m pensa na plat\u00e9ia. Entende-se agora a tristeza e a indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E a hist\u00f3ria deste pa\u00eds come\u00e7a a mudar. S\u00e3o os tempos da repress\u00e3o. O governo M\u00e9dici fez \u201cescola\u201d. E mesmo o general presidente Ernesto Geisel encontra s\u00e9rias dificuldades para conter \u201cabusos\u201d em S\u00e3o Paulo. Organismos militares e paramilitares agem descontroladamente em nome do que entendem \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d.<br \/>\nGolpe no golpe<\/p>\n<p>Em setembro deste ano, o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S\u00e3o Paulo na \u00e9poca da morte de Vlado, Aud\u00e1lio Dantas, participou da 4a Semana de Jornalismo \u2013 Herzog, 30 Anos Depois, promovida pela Faculdade de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo. No encontro, ele lembrou que havia uma cis\u00e3o entre os pr\u00f3prios militares. O grupo liderado por Geisel, que tinha como mentor intelectual o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, queria devolver o governo aos civis e deu in\u00edcio a um processo de abertura democr\u00e1tica, convenientemente definida como \u201clenta, total e gradativa\u201d.<\/p>\n<p>Em contraponto, militares ultraconservadores, liderados pelo general S\u00edlvio Frota e pelo general Ednardo D\u2019\u00c1vila Mello, comandante do 2o Ex\u00e9rcito de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o se dispunham a abrir m\u00e3o do poder. \u201cHavia uma disputa, uma luta entre essas duas correntes. Ou seja, um movimento subterr\u00e2neo que a gente pode considerar um golpe dentro do golpe. Estabeleceu-se uma guerra dentro do pr\u00f3prio sistema. E a sociedade ficou no meio dessa guerra. Houve uma onda de pris\u00f5es arbitr\u00e1rias que atingiu v\u00e1rios setores da sociedade. E, no in\u00edcio de outubro de 1975, atingiu os jornalistas, que eram tidos como pertencentes ao Partido Comunista Brasileiro e estariam tentando reorganizar o Partid\u00e3o, ent\u00e3o na clandestinidade. Foram 11 jornalistas presos at\u00e9 que Herzog se apresentasse na manh\u00e3 daquele s\u00e1bado. Ele foi o d\u00e9cimo segundo\u201d, disse Aud\u00e1lio Dantas.<\/p>\n<p>A morte de Vlado foi a primeira arbitrariedade a escapulir da a\u00e7\u00e3o dos censores e dos c\u00e3es de guarda do que chamavam \u201cordem p\u00fablica\u201d. Foi a primeira not\u00edcia a \u201cpassar\u201d ao brasileiro m\u00e9dio de que o Pa\u00eds estava subjugado \u00e0 nefasta ditadura. Apesar do famigerado \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d. Apesar da aparente tranq\u00fcilidade. Apesar da propaganda massificadora sob o lema facist\u00f3ide \u201cBrasil, ame-o ou deixe-o\u201d.<br \/>\nRuptura<\/p>\n<p>Apesar de tudo, havia muito a ser feito. Especialmente para quem exercia a fun\u00e7\u00e3o de jornalista, no entender do diretor de Reda\u00e7\u00e3o da revista Carta Capital, Mino Carta, tamb\u00e9m presente na 4a Semana de Jornalismo da Metodista. \u201cTive um grande envolvimento com esse epis\u00f3dio. Entendi ali que o Pa\u00eds precisava de um jornalista e n\u00e3o apenas de um profissional de imprensa\u201d, afirmou. No livro Castelo de \u00e2mbar, Carta escreve na pele de seu alter ego Perc\u00facio Parla: \u201cA morte de Vladimir Herzog \u00e9 o ponto de ruptura. Mino sabe que a sua concep\u00e7\u00e3o de jornalismo j\u00e1 n\u00e3o se justifica \u00e0 sombra da arvorezinha, s\u00edmbolo da Abril, e o impele na dire\u00e7\u00e3o de outras experi\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>No encontro na Metodista, o diretor de Reda\u00e7\u00e3o da Carta Capital retomou o tema e acrescentou: \u201cNaquele momento, apesar de tudo, apesar dos riscos, sent\u00edamos uma grande esperan\u00e7a. Acho que a morte do Herzog \u00e9 um ponto de partida muito importante. As contradi\u00e7\u00f5es da ditadura come\u00e7aram efetivamente a se definir e a se revelar\u201d.<\/p>\n<p>Os dias que se seguiram foram de muita movimenta\u00e7\u00e3o. E apreens\u00e3o. Pol\u00edticos do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB), jornalistas, l\u00edderes sindicais e religiosos, representantes de entidades e estudantes preparam um culto ecum\u00eanico na Catedral da S\u00e9. O arcebispo de S\u00e3o Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright, da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (Ipub), recebem amea\u00e7as e recomenda\u00e7\u00f5es para os riscos da manifesta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se intimidam e seguem com o projeto. No dia da cerim\u00f4nia \u2013 sexta-feira, dia 31 \u2013, a cidade amanheceu tomada por comandos que, espalhados em pontos estrat\u00e9gicos, interceptam a quem bem entendem. Querem dificultar o acesso de quem planeja chegar ao ato. Mesmo assim, 8 mil pessoas lotam a catedral e os arredores da Pra\u00e7a da S\u00e9 para reverenciar a mem\u00f3ria de Vlado.<\/p>\n<p>Diz Aud\u00e1lio Dantas, um dos articuladores do culto e da corajosa posi\u00e7\u00e3o dos jornalistas naqueles dias: \u201cAcho importante que se situe aquele momento. O culto ecum\u00eanico e todas as repercuss\u00f5es da morte de Herzog mostraram que n\u00e3o aceit\u00e1vamos a vers\u00e3o do suic\u00eddio. Houve um crescimento do movimento, a partir do Sindicato dos Jornalistas e dos estudantes. E o culto, com a presen\u00e7a do cardeal arcebispo de Pernambuco, Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, representou o principal momento em que a sociedade, por interm\u00e9dio de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es, despertou para uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podia continuar. Foi a gota d\u2019\u00e1gua, o ponto de partida para um processo que, da\u00ed para frente, cresceu no sentido de denunciar as viol\u00eancias que eram cometidas pela ditadura. E que eram inadmiss\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>No document\u00e1rio Catedral. Um sil\u00eancio em mem\u00f3ria a Herzog, exibido pela TV Senac em 25 de outubro deste ano, o arcebispo de S\u00e3o Paulo em 1975, Dom Paulo Evaristo Arns, lembrou suas palavras no culto. E o sil\u00eancio que se seguiu ap\u00f3s serem proferidas. \u201cNingu\u00e9m toca impunemente no homem que nasceu no cora\u00e7\u00e3o de Deus\u201d, disse. \u201cNas minhas dores, \u00f3, Senhor, fica ao meu lado\u201d, responderam os presentes.<br \/>\nO culto ecum\u00eanico realizado em 31 de outubro de 1975: indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\nCome\u00e7o do fim<\/p>\n<p>Sil\u00eancio mais absoluto e representativo fez-se quando foi anunciada a presen\u00e7a de Dom H\u00e9lder, que, por sua posi\u00e7\u00e3o em defesa dos oprimidos e da democracia, estava proibido pelos militares de fazer qualquer pronunciamento p\u00fablico \u2013 mesmo que fosse um serm\u00e3o dominical. Naquela sexta-feira, em pleno altar, Dom H\u00e9lder confidenciou ao ouvido de Dom Paulo: \u201cHoje o ch\u00e3o da ditadura come\u00e7ou a tremer. \u00c9 o come\u00e7o do fim\u201d. \u00c0 sa\u00edda da catedral, os rep\u00f3rteres perguntavam o que Dom H\u00e9lder tinha a dizer: \u201cSenhores, h\u00e1 momentos em que o sil\u00eancio fala mais alto\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 revista Aventuras na hist\u00f3ria, de outubro de 2005, o jornalista e historiador Elio Gaspari, autor do livro A ditadura encurralada, que narra esse per\u00edodo, ressaltou: \u201cA ditadura, com sua \u2018tigrada\u2019 e seu aparato policial, revelara-se um anacronismo que procurava na anarquia um pretexto para a pr\u00f3pria reafirma\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No livro, ele d\u00e1 mais detalhes: \u201c\u00c0 noite (de segunda, dia 27), a sede do Sindicato dos Jornalistas est\u00e1 repleta. Aud\u00e1lio Dantas preservava a todo custo sua conduta legalista. Evitava complica\u00e7\u00f5es chamando a assembl\u00e9ia de \u2018reuni\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o\u2019. Mantinha os comunicados em linguagem seca, sem adjetivos. N\u00e3o dava seguimento \u00e0s sugest\u00f5es de passeatas, nem ouvidos aos estudantes. At\u00e9 que aconteceu o inevit\u00e1vel: um jornalista prop\u00f4s que o sindicato convocasse a popula\u00e7\u00e3o para um ato religioso pela mem\u00f3ria de Herzog. A cerim\u00f4nia foi marcada para sexta-feira. N\u00e3o se sabia onde, mas na manh\u00e3 seguinte o cardeal Arns tomou a iniciativa. Ofereceu a catedral da S\u00e9 e informou que l\u00e1 estaria\u201d.<\/p>\n<p>Outubro de 2005. A colunista da Folha de S. Paulo M\u00f4nica Bergamo abre sua coluna do dia 2, domingo, com uma entrevista com o ex-governador de S\u00e3o Paulo Paulo Egydio Martins. Na verdade, \u00e9 uma n\u00e3o-entrevista. Ele se mostra irredut\u00edvel em seu sil\u00eancio sobre Vlado: \u201cDei umas mil entrevistas sobre o Vlado. Primeiro foi uma entrevista longa para o Paulo Markun (autor do livro Vlado). Ent\u00e3o falei para todo mundo. \u00c9 uma repeti\u00e7\u00e3o enfadonha. Eu n\u00e3o vou passar mais 30 anos falando do Vlado\u201d. E acrescenta: \u201cParece um problema classista. Os jornalistas querem fazer um m\u00e1rtir. Vlado \u00e9 de fato um m\u00e1rtir. Mas e o Manuel Fiel Filho? Por que n\u00e3o me entrevistam sobre ele?\u201d. Diante da insist\u00eancia da entrevistadora, faz um desabafo: \u201cEu falei duas horas para a TV Globo e s\u00f3 colocaram 30 segundos no ar. Sempre conversei de maneira absolutamente aberta e transparente com os jornalistas. Mas, confesso, est\u00e1 na hora de mudarmos de assunto\u201d.<\/p>\n<p>Desconforto \u2013 \u201cImportante conscientizar as gera\u00e7\u00f5es do futuro para nunca mais se omitir diante das injusti\u00e7as.\u201d Essa declara\u00e7\u00e3o \u00e9 do rabino Henri Sobel, feita ao document\u00e1rio A presen\u00e7a de Herzog, exibido no dia 5 de novembro pela TV Cultura. Um contraste \u00e0 postura intransigente do ex-governador. Cabe, por\u00e9m, uma ressalva. Paulo Egydio foi governador de S\u00e3o Paulo por indica\u00e7\u00e3o do presidente Ernesto Geisel e seu nome andou na lista dos \u201cprocurados\u201d pela ala dos militares radicais que mataram Herzog. Portanto, \u00e9 compreens\u00edvel o desconforto.<\/p>\n<p>Paulo Egydio era o alvo. A estrat\u00e9gia da \u201ctigrada\u201d era emperrar o processo de abertura democr\u00e1tica, defendido por Geisel, Golbery e pares de caserna. Para isso, imaginavam mostrar a fragilidade do presidente Ernesto Geisel em conter o chamado \u201cavan\u00e7o comunista\u201d. Queriam tachar o governador Paulo Egydio de, no m\u00ednimo, estar acobertando uma horda de \u201cvermelhinhos\u201d nas depend\u00eancias da TV Cultura. \u201cA pris\u00e3o de Herzog era o primeiro passo nesse sentido\u201d, disse o jornalista George Duque Estrada, tamb\u00e9m presente na 4a Semana de Jornalismo da Metodista.<\/p>\n<p>Por meio de Herzog, chegariam ao secret\u00e1rio estadual da Cultura, o empres\u00e1rio e bibli\u00f3filo Jos\u00e9 Mindlin, e assim, atrav\u00e9s deste, emparedariam Egydio e conseq\u00fcentemente o presidente Ernesto Geisel. \u201cNa noite do s\u00e1bado em que morreu Herzog, por coincid\u00eancia, havia festa na casa do ministro do Ex\u00e9rcito, S\u00edlvio Frota. Durante o jantar, fizeram um brinde ao \u2018futuro presidente da Rep\u00fablica\u2019. N\u00e3o era o primeiro\u201d, conta Gaspari em A ditadura encurralada. Frota era um dos interessados no recrudescimento do regime \u2013 e uma pedra no caminho da redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar de reconhecer as raz\u00f5es do ex-governador para n\u00e3o falar no assunto, as palavras do rabino Sobel fazem mais sentido. As novas gera\u00e7\u00f5es precisam conhecer esse fato que, queiramos ou n\u00e3o, mudou a cara do Pa\u00eds.<br \/>\nJornalismo<\/p>\n<p>O 25 de outubro merece mesmo reflex\u00e3o \u2013 e at\u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o do que se andou fazendo nos \u00faltimos 30 anos. Especialmente no \u00e2mbito do jornalismo, as discuss\u00f5es parecem hoje intermin\u00e1veis. Uma boa refer\u00eancia desse desenvolvimento est\u00e1 no livro O jornalismo dos anos 90, de Lu\u00eds Nassif, outro estudante da ECA nos anos 70. \u201cDos anos 50 a meados dos anos 60, o jornalismo foi ref\u00e9m dos partidos pol\u00edticos. De meados dos anos 60 ao final dos anos 70, ref\u00e9m da ditadura. Nos anos 80 descobriu sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o em uma sociedade de mercado moderna: ser representante dos interesses difusos da sociedade contra interesses pol\u00edticos, corporativos e setoriais\u201d, escreve Nassif. \u201cO passo seguinte foi se ver como um produto, que tem que responder \u00e0s expectativas do seu p\u00fablico. A m\u00eddia passou a recorrer a departamentos de pesquisa, a leituras imediatistas do que as pesquisas mostravam, a tentar atender \u00e0s demandas de curto prazo do leitor. E a\u00ed se tornou ref\u00e9m do pior censor: ditadura da opini\u00e3o p\u00fablica ou, melhor, de atuar passivamente oferecendo ao leitor aquilo que pensa que ele quer. Esse \u00e9 o grande dilema da imprensa de opini\u00e3o do s\u00e9culo 21: atender \u00e0s expectativas imediatas de seu leitor ou ser uma guardi\u00e3 dos valores da civiliza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Por tudo o que representou, o caso Vladimir Herzog \u00e9 emblem\u00e1tico para a hist\u00f3ria recente do Pa\u00eds. Para a hist\u00f3ria do jornalismo, por\u00e9m, diria que \u00e9 um marco e ainda hoje joga luz sobre uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que permanecem em foco. A saber:<\/p>\n<p>1) Nos \u00faltimos 30 anos, foi um dos raros momentos em que o Sindicato dos Jornalistas do Estado de S\u00e3o Paulo desempenhou papel de lideran\u00e7a e aglutinador do interesse de toda a categoria. Sua atua\u00e7\u00e3o, comandada por Aud\u00e1lio Dantas, foi vital para a proje\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>2) \u00c9 fato que a press\u00e3o feita da base (a reda\u00e7\u00e3o) para a dire\u00e7\u00e3o dos jornais foi importante para a divulga\u00e7\u00e3o da verdade \u2013 Herzog morreu assassinado pelos torturadores.<\/p>\n<p>3) Os \u201cpatr\u00f5es\u201d aproveitaram-se dessa brecha para negociar, com o ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a, Armando Falc\u00e3o, solu\u00e7\u00f5es que mais lhes aprouvessem. Numa dessas ocasi\u00f5es, a fam\u00edlia Civita, propriet\u00e1ria da Editora Abril, negociou o fim da censura na revista Veja com a demiss\u00e3o do diretor de Reda\u00e7\u00e3o Mino Carta, segundo relata o jornalista em Castelo de \u00e2mbar.<\/p>\n<p>4) Mesmo assim, foi outro raro momento em que empres\u00e1rios dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e profissionais de imprensa estiveram do mesmo lado, com um inimigo comum: a ditadura.<\/p>\n<p>5) A lembran\u00e7a e discuss\u00e3o do caso Herzog trazem \u00e0 tona uma realidade distante das novas gera\u00e7\u00f5es. Essa t\u00f4nica trata das implica\u00e7\u00f5es sociais e transformadoras que acarreta o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>6) Hoje o glamour de ser jornalista est\u00e1 em alta \u2013 muito provavelmente, a partir da notoriedade que a televis\u00e3o consagra a quem apare\u00e7a na telinha.<\/p>\n<p>7) Talvez por isso os profissionais de imprensa est\u00e3o mais preocupados com a ascens\u00e3o social e financeira \u2013 nenhum dem\u00e9rito nisso, ali\u00e1s \u2013 do que propriamente com exercer as fun\u00e7\u00f5es cr\u00edtica e fiscalizadora que todo e qualquer jornalista deve exercer.<br \/>\nPor isso, a import\u00e2ncia de lembrar Herzog.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante lembrar Vlado nestes dias em que o Brasil vive mais uma de suas crises pol\u00edticas e institucionais. Pol\u00edtica, sim, porque a esperan\u00e7a deu lugar ao medo, perdendo-se em Valdomiros, mensal\u00f5es, Dirceus, Correios, Val\u00e9rios e assemelhados. Institucional, sim: a pecha da corrup\u00e7\u00e3o paira sobre os tr\u00eas Poderes e sobre os homens p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Importante lembrar Vlado porque muitos j\u00e1 se esqueceram das excresc\u00eancias que todo regime arbitr\u00e1rio perpetra onde se instala. Tamb\u00e9m porque nunca \u00e9 demais reafirmar os valores democr\u00e1ticos e universais. Importante lembrar Vlado para que possamos reiterar a f\u00e9 neste pa\u00eds e na sua gente.<br \/>\nSalva\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria<\/p>\n<p>No dia 1\u00ba de abril 1964, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony convalescia de uma interven\u00e7\u00e3o de apendicite em sua casa no Posto Seis, Rio de Janeiro, quando foi \u201cconvocado\u201d pelo poeta Carlos Drummond de Andrade a assistir \u201c\u00e0s confusas opera\u00e7\u00f5es que se processavam no Forte de Copacabana\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o jornal Correio da Manh\u00e3 sa\u00eda \u00e0s ruas com a cr\u00f4nica \u201cDa salva\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria\u201d, a primeira de uma s\u00e9rie que Cony escreveria sobre sua estupefa\u00e7\u00e3o diante da nova ordem social, e que seriam reunidas no livro O ato e o fato. A cr\u00f4nica termina assim:<\/p>\n<p>\u201cDas janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos len\u00e7\u00f3is, em sinal de vit\u00f3ria. Um Cadillac p\u00e1ra perto do \u2018Six\u2019 e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino tamb\u00e9m Nacional e declaram todos que a p\u00e1tria est\u00e1 salva.<br \/>\nMinha filha, ao meu lado, exige uma explica\u00e7\u00e3o para aquilo tudo.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 carnaval, papai?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o.<br \/>\n\u2013 \u00c9 campeonato do mundo?<br \/>\n\u2013 Tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela fica sem saber o que \u00e9. E eu tamb\u00e9m fico. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.\u201d<br \/>\nOnze anos depois, Herzog n\u00e3o suportou \u201co gosto amargo\u201d. E pagou com a vida. E o Brasil nunca mais foi o mesmo. No dizer de Frei Beto: \u201cFuraram os olhos da Justi\u00e7a, mas n\u00e3o lhe ensurdeceram nem lhe apagaram a mem\u00f3ria. Trinta anos depois, Vladimir Herzog \u00e9 um cad\u00e1ver insepulto, subversivo, paradigm\u00e1tico. Tratado como um verme numa depend\u00eancia policial-militar, figura para sempre na galeria de her\u00f3is e m\u00e1rtires brasileiros\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, \u00e9 um marco que prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre os caminhos trilhados pelo Brasil nos \u00faltimos 30 anos<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.usp.br\/jorusp\/arquivo\/2005\/jusp746\/pag1213.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>RODOLFO C.<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10342","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10342"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10342\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25485,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10342\/revisions\/25485"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}