{"id":10343,"date":"2001-03-05T00:00:00","date_gmt":"2001-03-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:49:52","modified_gmt":"2017-09-13T19:49:52","slug":"vinho-e-turismo-uma-longa-historia-a-ser-contada-no-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/vinho-e-turismo-uma-longa-historia-a-ser-contada-no-rio-grande-do-sul\/","title":{"rendered":"Vinho e turismo &#8211; Uma longa hist\u00f3ria a ser contada no Rio Grande do Sul"},"content":{"rendered":"<p>Vinho e turismo. Neste bin\u00f4mio reside a f\u00f3rmula m\u00e1gica para o desenvolvimento da chamada Costa Norte do Rio Grande do Sul e que inclui cidades como Caxias do Sul, Bento Gon\u00e7alves, Farroupilha, Flores da Cunha, Garibaldi, Monte Belo, entre outras. Quem investir nesse setor dificilmente vai errar. \u201cAs estat\u00edsticas mostram o quanto ainda podemos crescer\u201d \u2013 explica o arquiteto ga\u00facho J\u00falio Posenato, especialista em arquitetura italiana no Brasil que, por sinal, \u00e9 tra\u00e7o marcante de toda a cultura vitivin\u00edfera daquela regi\u00e3o. Seu argumento \u00e9 irrefut\u00e1vel. \u201cO brasileiro bebe em m\u00e9dia dois litros de vinho por ano, enquanto o europeu 60 litros. Ou seja, ainda h\u00e1 uma longa hist\u00f3ria a ser contada\u201d.<\/p>\n<p>Posenato \u00e9 respons\u00e1vel pelo projeto do maior complexo vin\u00edcola que est\u00e1 sendo constru\u00eddo naquela regi\u00e3o e que inclui o turista em todas as etapas do processo de elabora\u00e7\u00e3o do vinho.<br \/>\nA Cantina do Mil\u00eanio, que eles denominam a maior do pa\u00eds, est\u00e1 sendo constru\u00edda em Tuiuty, a 10 quil\u00f4metros de Bento Gon\u00e7alves \u2013 maior p\u00f3lo vin\u00edcola do Pa\u00eds \u2013 num projeto de 12 milh\u00f5es de reais, sendo que 4 milh\u00f5es ser\u00e3o financiados pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDS), a uma taxa anual de 9 por cento, com dois anos de car\u00eancia e cinco anos para quitar a d\u00edvida.<\/p>\n<p>A nova cantina vai ser a sede da Vinhos Salton, empresa com um s\u00e9culo de exist\u00eancia, e dever\u00e1 estar conclu\u00edda em 2002. Constitui a primeira etapa de um parque tem\u00e1tico da uva e do vinho, onde juntamente com o incremento da produ\u00e7\u00e3o de espumantes e vinhos finos, haver\u00e1 toda uma estrutura voltada ao turismo. Tamb\u00e9m haver\u00e1 a participa\u00e7\u00e3o direta da comunidade na fabrica\u00e7\u00e3o de doces, gel\u00e9ias e macarr\u00f5es.<\/p>\n<p>O projeto de Posenato est\u00e1 dimensionado para elaborar 30 milh\u00f5es de quilos de uva por ano contra os 18 milh\u00f5es processados ano passado pela Salton, fruto de parcerias centen\u00e1rias com cerca de 900 pequenos e m\u00e9dios agricultores da regi\u00e3o. \u201cA grande novidade\u201d, diz o arquiteto, \u201c\u00e9 que, pela primeira vez no Brasil, uma cantina incorpora, desde o projeto inicial, espa\u00e7os especialmente destinados \u00e0 visita\u00e7\u00e3o tur\u00edstica e onde o turista, em percurso pr\u00f3prio conhecer\u00e1 todas as opera\u00e7\u00f5es de vinifica\u00e7\u00e3o em forma seq\u00fcencial, sem interferir nas \u00e1reas de fabrica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A Cantina do Mil\u00eanio prev\u00ea a inclus\u00e3o de passarelas internas, onde o turista vai transitar livremente e acompanhar desde a chegada das carretas, despejando toneladas de uvas, at\u00e9 o engarrafamento final e a armazenagem. Inicialmente a Cantina 2000 est\u00e1 programada para receber 60 mil turistas no primeiro ano, n\u00famero que, imagina-se, dobrar no ano seguinte \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o\u201d, conta Posenato.<\/p>\n<p>\u201cEssa liga\u00e7\u00e3o vinho e turista \u00e9 um fen\u00f4meno que acontece em todas as grandes cantinas do mundo\u201d \u2013 argumenta. A favor do projeto, ele conta com o entusiasmo de todo um programa oficial de incentivo ao turismo da regi\u00e3o, denominado Turismo nas Quatro Esta\u00e7\u00f5es e que inclui passeios ao Vale do Rio das Antas, visitas a santu\u00e1rios como a igreja de S\u00e3o Pelegrino e de Nossa Senhora do Carav\u00e1gio e a cidade de Ant\u00f4nio Prado, tombada pelo Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico Nacional por possuir o mais importante acervo de arquitetura urbana em madeira da imigra\u00e7\u00e3o italiana no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 interessant\u00edssimo. Vamos repetir aqui o que acontece na regi\u00e3o de Bordeaux, na Fran\u00e7a. O vinho ser\u00e1 a grande atra\u00e7\u00e3o. O turista vai poder acompanhar todas as etapas do processo: a colheita da uva na parreira, falar com os agricultores, entender um pouco melhor a hist\u00f3ria dos italianos que aqui chegaram em meados de 1870. Depois ver a uva se transformar em vinho e toda a sofisticada tecnologia com que hoje se faz um vinho de primeira qualidade que, certamente, vai ter a mesma qualidade de um vinho chileno ou europeu&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Durante um fim-de-semana de mar\u00e7o, o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Someli\u00eas do Rio de Janeiro, Geraldo Alai de Queiroz, visitou a regi\u00e3o com 31 associados e revelou-se bastante otimista quanto ao projeto. A regi\u00e3o possui uma boa infra-estrutura de hotelaria e rodovias, atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas e uma hospitalidade \u00e0 italiana. No entanto, mais do que os parrerais, o carro-chefe de toda essa mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo o bom momento do vinho nacional.<br \/>\nPara Queiroz, o vinho brasileiro vem apresentando grande evolu\u00e7\u00e3o, apesar das dificuldades de clima e solo. Mas, em face de interfer\u00eancia do homem, o avan\u00e7o da tecnologia, os resultados v\u00eam sendo bastante expressivos. A principal casta, no meu entender, \u00e9 a do cabernet. Mas, o espumante tamb\u00e9m \u00e9 uma categoria que pode e deve, com as novas tecnologias importadas por algumas das principais cantinas do sul do Pa\u00eds, melhorar muito.<\/p>\n<p>\u201cSou otimista quanto ao futuro do vinho brasileiro, embora ainda perceba um largo caminho a ser percorrido, porque vejo que o interesse \u00e9 cada vez maior pelo produto\u201d \u2013explica. \u201cHoje, percebo em muitas pessoas a curiosidade em entender melhor o que est\u00e3o saboreando. Temos no Rio de Janeiro, por exemplo, 35 grupos de degusta\u00e7\u00e3o que se re\u00fanem de 15 em 15 dias para apreciar vinhos de todas as partes do mundo, inclusive os brasileiros. E a tend\u00eancia \u00e9 a de que esses grupos aumentem ainda mais. Associa\u00e7\u00f5es como a nossa s\u00e3o importantes, pois difundem o vinho como um produto de qualidade. Temos cursos sobre vinho, que s\u00e3o sempre super concorridos e mensalmente levamos um en\u00f3logo para falar sobre o vinho brasileiro e tamb\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o mundial\u201d.<\/p>\n<p>Queiroz faz uma ressalva: \u201cAt\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s era uma heresia se lev\u00e1ssemos a um de nossos encontros de degusta\u00e7\u00e3o um vinho nacional, hoje j\u00e1 h\u00e1 produtos que merecem serem avaliados. E essa nossa visita \u00e0s cantinas da regi\u00e3o \u00e9 uma prova disso\u201d.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>NOVOS TEMPOS. NOVOS VINHOS&#8230;<\/p>\n<p>A abertura do mercado brasileiro para os vinhos importados provocou uma revolu\u00e7\u00e3o na vitivin\u00edcola nacional. Na verdade, h\u00e1 \u2018males\u2019 que v\u00eam para o bem. A ind\u00fastria estava acostumada a que o Governo resolvesse seus problemas. \u00c0 primeira dificuldade que enfrentavam, formava-se uma comiss\u00e3o de empres\u00e1rios do setor e seguia-se para Bras\u00edlia pedir uma for\u00e7a oficial. Para dar mais peso \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o, nunca era demais passar pelo Congresso e pressionar deputados e senadores, especialmente os que eram da regi\u00e3o.<br \/>\nEra dito e feito. Bastava chorar as pitangas e j\u00e1 se criava um redutor das eventuais d\u00edvidas, um financiamento para a safra, coisas do g\u00eanero. O argumento era sempre o mesmo. \u201cSomos de um setor desbravador, damos empregos\u201d.<br \/>\nCom isso, os empres\u00e1rios foram ficando mal acostumados e houve uma acomoda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA paridade do d\u00f3lar, a partir da implanta\u00e7\u00e3o do Plano Real (94) mais a abertura do mercado \u00e0s importa\u00e7\u00f5es formaram um novo perf\u00edl de consumidor. O brasileiro passou a ter acesso aos vinhos internacionais, de \u00f3tima qualidade e proced\u00eancia. E melhor: a um pre\u00e7o bem acess\u00edvel. O que resultou, num curto espa\u00e7o de tempo, na explos\u00e3o das vendas.<br \/>\nS\u00f3 que a ind\u00fastria vin\u00edcola nacional n\u00e3o estava preparada para esse momento. Ao contr\u00e1rio, mostrava-se defasada em termos de tecnologia e mesmo de organiza\u00e7\u00e3o empresarial. N\u00e3o priorizava a qualidade do vinho, n\u00e3o havia metas, nem propostas. Resultado: a crise foi inevit\u00e1vel.<br \/>\nComo concorrer com produtos finos, de primeira linha, com qualidade inimagin\u00e1vel, se nossas \u201ccantinas\u201d consolidaram suas por\u00e7\u00f5es de mercado com a venda dos chamados vinhos de mesa? O pre\u00e7o era o mesmo para o vinho nacional e para o importado. Os novos h\u00e1bitos de consumo passaram a exigir mais, a conhecer mais, a se interessar pelo vinho que passaram a saborear como uma bebida mais sofisticada.<br \/>\nSimultaneamente, criaram-se as associa\u00e7\u00f5es de en\u00f3filos, que passaram a dar uma sofistica\u00e7\u00e3o ainda maior para os amantes do vinho. Promoviam \u2013 e promovem \u2013 cursos, estudos, semin\u00e1rios, degusta\u00e7\u00f5es. Incentivaram mais do que o consumo o conhecimento do que verdadeiramente \u00e9 um bom vinho. Esses clubes de someli\u00eas passaram a ser formadores de opini\u00e3o e fontes para in\u00fameras entrevistas nos mais diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o; que, de resto, passaram a abrir amplos espa\u00e7os para reportagens, coment\u00e1rios e indica\u00e7\u00f5es do que seja uma recomend\u00e1vel carta de vinhos.<br \/>\nPara aquecer ainda mais as vendas, ganha espa\u00e7o a not\u00edcia de que o vinho \u00e9 uma bebida saud\u00e1vel e que bebido com modera\u00e7\u00e3o (um c\u00e1lice no almo\u00e7o e outro no jantar) \u00e9 um excelente vasodilatador a prevenir os males do cora\u00e7\u00e3o. Diversos m\u00e9dicos reproduzem na m\u00eddia parecer favor\u00e1vel a esse diagn\u00f3stico \u2013 o que s\u00f3 faz aumentar as vendas do vinho tinto, o que melhor resultado apresenta no quesito sa\u00fade.<br \/>\nContraditoriamente, as grandes cooperativas produtoras de vinhos, de maior nome no mercado, enfrentam dificuldades e reconhecem que, se n\u00e3o mudar o foco da produ\u00e7\u00e3o e atenderem \u00e0s exig\u00eancias dos novos consumidores, n\u00e3o tem como sobreviver. At\u00e9 porque o Governo FHC n\u00e3o alivia e, com sua habitual sede de impostos e em perfeita sintonia com as leis de mercado e da globaliza\u00e7\u00e3o, insinua que a ind\u00fastria do vinho \u201cprecisa aprender a andar com as pr\u00f3prias pernas\u201d.<br \/>\nNeste contexto, as pequenas cantinas s\u00e3o mais \u00e1geis. Com uma produ\u00e7\u00e3o menor (a\u00ed por volta de 30 mil litros), come\u00e7am a entender o mercado e a fabricar um vinho de qualidade, que chegam a fazer frente aos importados. Esses produtos ganham o \u201capadrinhamento\u201d de algumas associa\u00e7\u00f5es e, sobretudo, come\u00e7am a ganhar mercado. Duas marcas se sobressaem: Miolo e Vaudugo.<br \/>\nAgora, o momento atual \u00e9 bastante interessante. H\u00e1 uma diferen\u00e7a em termos de real e o d\u00f3lar (dois por um), embora ainda seja grande a importa\u00e7\u00e3o de vinhos da Europa, da Argentina e Chile. As pequenas quantias que firmaram o nome na pra\u00e7a precisam agora enfrentar o desafio de produzirem mais e preservar a qualidade e algumas ind\u00fastrias mais tradicionais tamb\u00e9m passam por reformula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuem ganha com isso \u00e9 o consumidor<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>DEMOCRACIA E DISTRIBUI\u00c7\u00c3O DE RENDA<\/p>\n<p>\u00c9 interessante perceber em todo esse contexto que a ind\u00fastria do vinho tem, na verdade, caracter\u00edsticas bastante democr\u00e1ticas. E pode ser um bom exemplo do que os soci\u00f3logos chamariam de fator incentivador da distribui\u00e7\u00e3o de renda.<br \/>\nComo assim?<br \/>\nOra, a regi\u00e3o denominada de Costa Norte do Rio Grande do Sul (que inclui as cidades de Caxias, Bento Gon\u00e7alves, Farroupilha, Garibaldi, entre outras e re\u00fane os grandes produtores do Pa\u00eds) vai produzir neste ano algo em torno de 500 milh\u00f5es de quilos de uva. Desse total, apenas 30 milh\u00f5es s\u00e3o de frutos vin\u00edferas, metade brancas e a outra metade tintas. Ou seja, temos 15 milh\u00f5es de uvas disputados pelas principais ind\u00fastrias do Pa\u00eds \u2013 o que est\u00e1 fazendo a alegria dos pequenos agricultores da regi\u00e3o.<br \/>\nPlantar uva de qualidade \u00e9 um grande neg\u00f3cio hoje na regi\u00e3o. H\u00e1 quatro anos, o quilo da uva era vendido pelos pequenos agricultores \u00e0s cantinas por 0,30 centavos, hoje uma uva de qualidade pode alcan\u00e7ar a cota\u00e7\u00e3o de 1,50 real.<br \/>\nA explos\u00e3o do consumo de vinho est\u00e1 fazendo com que o pessoal volte para a terra e a regi\u00e3o n\u00e3o tenha mais o chamado \u00eaxodo rural.<br \/>\nEsse \u00e9 um campo ainda em aberto. O Pa\u00eds s\u00f3 tende a crescer. S\u00f3 quando dobrar essa produ\u00e7\u00e3o \u00e9 que o a ind\u00fastria do vinho ser\u00e1 competitiva, mesmo em termos de mercado interno.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>O TAL \u2018FOGUETE\u2019&#8230;<\/p>\n<p>\u201c\u00c9, filho, se n\u00e3o tivesse os foguetes, n\u00e3o ficavam nem os eucaliptos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O agricultor Adelino Pedroti, como todos na regi\u00e3o, arrasta no sotaque italiano ao falar. Na tarde de domingo, ele descansava ao lado da mulher Hilda depois de colheita deste ano quando chegou a reportagem do Jornal da Tarde. A cultura da uva representa a subsist\u00eancia para 16 mil fam\u00edlias ga\u00fachas, que plantam em suas pequenas e m\u00e9dias propriedades por toda serra ga\u00facha, onde se concentram 93,48 por cento de todo o plantio da fruta no Pa\u00eds. A colheita da safra de 2000 chegou ao recorde de 522 milh\u00f5es de quilos de uva em todo o Estado. Um n\u00famero imposs\u00edvel de ser alcan\u00e7ado em virtude das fortes chuvas que castigaram a regi\u00e3o justamente nos meses de novembro, dezembro e janeiro. Especialistas previram uma quebra m\u00ednima de 20 por cento na safra deste ano. Nada, por\u00e9m, capaz de assustar Adelino:<\/p>\n<p>\u201cFoi bom, n\u00e3o foi ruim. Mas, n\u00e3o foi como no ano passado. Choveu muito. Atrasou tudo. Mesmo assim \u2013 e com ajuda dos foguetes \u2013 deu para colher uns 52 mil quilos de uva. S\u00f3 da cabernet, que \u00e9 muito procurada pelas cantinas, e d\u00e1 um pouquinho mais de dinheiro.\u201d<\/p>\n<p>O tal \u201cfoguete\u201d que Adelino tanto fala \u00e9 um dispositivo fabricado pela Embraer, uma esp\u00e9cie de m\u00edssel com explosivos e sais que \u00e9 lan\u00e7ado pelos pr\u00f3prios agricultores de bases localizadas em pontos estrat\u00e9gicos da serra sempre que amea\u00e7adoras nuvens de granizo se aproximam da regi\u00e3o dos parreirais. Em contato com a nuvem, o foguete explode e os sais transformam o granizo em \u00e1gua. A chuva forte n\u00e3o faz o estrago que causaria uma tempestade de granizo&#8230;<\/p>\n<p>\u201cCom o granizo, a uva apodrece. N\u00e3o se aproveita nem o talo&#8230;\u201d \u2013 diz Adelino.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 constante a amea\u00e7a de chuvas nos dias de colheita, como aconteceu neste ano, nos meses de dezembro e janeiro, duplas de agricultores se revezam e chegam a dormir na base. T\u00eam que estar atento, pois a colheita de determinada \u00e1rea depende da pronta atua\u00e7\u00e3o. Cada foguete chega a custar 205 d\u00f3lares, leva onze segundos para subir e dissolve o granizo a at\u00e9 4 mil metros de altura.<\/p>\n<p>Nesta colheita, Adelino lembra que ele e os amigos chegaram a acionar uns 30 foguetes tamanha a intensidade das tempestades de granizo que amea\u00e7aram a regi\u00e3o nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro.<\/p>\n<p>\u201cTeve madrugada que passamos acordado, com um olho nos parreirais e outro nos rel\u00e2mpagos. \u00c9 muita responsabilidade. Estamos velando pela planta\u00e7\u00e3o de toda a regi\u00e3o. Ent\u00e3o, n\u00e3o se pode dormir. Uma noite, de uma tacada s\u00f3, mandamos seis foguetes para acabar com uma tempestade que vinha se aproximando&#8230;Foi mesmo um fim-de-ano cansativo. Os telefones n\u00e3o paravam de tocar durante as madrugadas mais assustadoras. Sabe como \u00e9 ningu\u00e9m quer perder seu ganha p\u00e3o\u201d \u2013 relembra.<\/p>\n<p>Aos 50 anos, Adelino conta que desde que se entende por gente est\u00e1 na lida da uva. Quando garoto, ajudava ao pai, ainda vivo que mora ao lado e tem 83 anos. Depois adulto, montou a pr\u00f3pria quinta, \u201cnada muito grande, em torno de 20 hectares\u201d. Ele cuida da planta\u00e7\u00e3o ao lado da mulher Hilda e mais dois ou tr\u00eas amigos. Os dois filhos estudam fora, mas um deles deve voltar \u2013 depois de concluir o colegial \u2013 para ajud\u00e1-lo no plantio e colheita deste ano. \u201cPlantar uva, se a gente fizer a coisa certinha, hoje d\u00e1 um dinheirinho bom\u201d.<\/p>\n<p>Adelino e a esposa t\u00eam projeto de um breve descanso. \u201cAgora a gente tira umas f\u00e9rias de dez, quinze dias \u2013 porque em raz\u00e3o das chuvas, a colheita atrasou \u2013 e depois a gente volta \u00e0 lida. Quem trabalha com uva sempre tem fun\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 diz Adelino. No que \u00e9 plenamente confirmado pela esposa Hilda, que s\u00f3 se queixa dos coment\u00e1rios das vizinhas: \u201cAqui, o pessoal sempre diz que, aos domingos, quando tiramos o auto (um conservado Opala 78 amarelo) do estacionamento, todos sabem que eu estou ao lado do meu marido para passear. Engra\u00e7ado que ningu\u00e9m diz nada quando, todos os dias, vou com ele para a ro\u00e7a no trator\u201d.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>O CONSELHO DE QUEM ENTENDE: EXPERIMENTE&#8230;<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea pode dizer que este vinho \u00e9 mais elaborado do que aquele, tem um bouquet encorpado, arom\u00e1tico, \u00e9 feito com uvas mais finas, apropriadas. Mas, n\u00e3o pode decidir pelo consumidor qual o vinho que ele mais gosta de tomar. Afinal, gosto \u00e9 uma coisa muito pessoal. Quando me perguntam qual o melhor vinho, seja brasileiro ou n\u00e3o, a resposta \u00e9 sempre a mesma. Digo ao meu interlocutor para experimentar, sem preconceitos, quantos puder \u2013 e depois, a partir da pr\u00f3pria degusta\u00e7\u00e3o, optar por esse ou por aquele\u201d.<\/p>\n<p>O conselho \u00e9 do en\u00f3logo ga\u00facho Lucindo Copat, um dos profissionais brasileiros mais premiados no Brasil e no exterior. Ele \u00e9 diretor t\u00e9cnico da Vinhos Salton, al\u00e9m de professor do Curso Superior em Especializa\u00e7\u00e3o em Enologia e Viticultura do Curso Superior da Universidade de Cadiz (Espanha). Para ele, o brasileiro anda t\u00e3o empolgado pelo charme que est\u00e1 impl\u00edcito no h\u00e1bito de beber vinhos que, n\u00e3o raras vezes, deixa que outras pessoas decidam por ele. O que n\u00e3o \u00e9 l\u00f3gico, nem cab\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cQuando se trata de vinho, n\u00e3o cabe qualquer tipo de preconceito. O vinho nacional, por exemplo, vem ganhando uma notoriedade cada vez maior. Com a abertura do mercado \u00e0s importa\u00e7\u00f5es, houve um chacoalh\u00e3o no mercado interno e os produtores tiveram que sair atr\u00e1s das novas tecnologias, melhorar a qualidade das uvas, pensar no marketing, na sofistica\u00e7\u00e3o da embalagem, envolver-se em todas as etapas do processo. Al\u00e9m do que, ficar de olho atento na concorr\u00eancia daqui e de fora\u201d.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o se ajustar aos novos tempos, vai ficar de fora. J\u00e1 foi o tempo em que apenas o esmagamento da uva garantia o vinho de qualidade. Hoje, h\u00e1 todo um processo que exige alt\u00edssima qualidade. Re\u00fane n\u00e3o apenas o processo de fermenta\u00e7\u00e3o e armazenamento, mas uma s\u00e9rie de experimentos e pesquisas que envolvem \u00e1reas como biologia, f\u00edsica e, agora, das novas tecnologias, por exemplo.<\/p>\n<p>Copat acha que o Brasil \u00e9 mesmo o pa\u00eds da cacha\u00e7a e da cerveja. Mas, que h\u00e1 um grande espa\u00e7o ainda a ser conquistado pela ind\u00fastria do vinho. Ainda mais agora que se fala em associar a vitivinicultura \u00e0 ind\u00fastria do turismo. \u201c\u00c9 muito interessante porque sociabiliza a economia. Hoje, o bom produtor de uva reina aqui no Sul. O resultado de sua colheita \u00e9 disputado pelas cantinas que disputam o mercado interno dos vinhos finos. H\u00e1 uma distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, criam-se empregos e, al\u00e9m de tudo, preserva-se toda a hist\u00f3ria desta regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio se diz um bom exemplo. Antes de ser um en\u00f3logo reconhecido internacionalmente, com viagem marcada para \u00c1frica do Sul, outro grande produtor de vinho internacional, \u00e9 filho de agricultor que acompanhava o pai na lavoura das uvas.<\/p>\n<p>\u201cDizem que um en\u00f3logo \u00e9 profundo conhecedor da mat\u00e9ria prima do vinho que \u00e9 a uva. A transforma\u00e7\u00e3o da uva em vinho \u00e9 um segundo passo. Mas, se n\u00e3o houver envolvimento, a gente n\u00e3o vai chegar a lugar nenhum. Acho que a especializa\u00e7\u00e3o pelas t\u00e9cnicas e processos podemos aperfei\u00e7oar e entender melhor nas escolas (Copat \u00e9 formado pela Universidade de Juan Agostin Maza, em Mendoza, Argentina, como p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na Alemanha e na Espanha), mas o amor ao trabalho que se est\u00e1 fazendo, isso vem de fam\u00edlia, \u00e9 coisa que se aprende ainda crian\u00e7a. Dizem que por tr\u00e1s de um c\u00e1lice de vinho, h\u00e1 sempre uma boa hist\u00f3ria. \u00c9 por a\u00ed.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>O CONSUMO NO BRASIL E NO MUNDO<\/p>\n<p>n Cada brasileiro toma hoje 2 litros de vinho por ano, 500 ml a mais do que h\u00e1 tr\u00eas anos. O aumento m\u00e9dio \u00e9 de 33 por cento.<br \/>\nn Em S\u00e3o Paulo, principal mercado, a m\u00e9dia por habitante subiu de 2,51 para 4,1 litros anuais, alta de 60 por cento.<br \/>\nn O Brasil ocupa hoje um modesto 49\u00ba posto no ranking mundial de consumo per capita.<br \/>\nn Maior pa\u00eds produtor, a Fran\u00e7a perdeu a lideran\u00e7a em termos de consumo per capita para o pequeno Luxemburgo (63,41 contra 60, 11 por cento). It\u00e1lia fica em terceiro (58,1), seguida por Portugal (53,1).<br \/>\nn Entre os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, a Argentina aparece em oitavo (53,1) e o Uruguai em d\u00e9cimo (33,51).<br \/>\nn A produ\u00e7\u00e3o de vinhos finos e comuns cresceu 47 por cento no pa\u00eds em 99 em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Pulou de 184,7 milh\u00f5es para 272,3 milh\u00f5es de litros.<br \/>\nn No ano de passado, a produ\u00e7\u00e3o de vinhos brasileiros chegou a casa dos 329, 2 milh\u00f5es de litros assim distribuidos: tinto comum (208 milh\u00f5es), tinto vin\u00edfera (18,5 milh\u00f5es), branco comum (45 milh\u00f5es), branco vin\u00edfera (37 milh\u00f5es), rosado comum (20 milh\u00f5es) e rosado vin\u00edfera (709 mil).<br \/>\nn A m\u00e9dia de consumo \u00e9 de duas garrafas de tinto para uma de branco, propor\u00e7\u00e3o que era inversa h\u00e1 cinco anos.<br \/>\nn A propaga\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos sobre os efeitos ben\u00e9ficos do vinho tinto sobre as doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 apontada como a principal causa dessa virada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vinho e turismo. 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