{"id":10348,"date":"2005-10-25T00:00:00","date_gmt":"2005-10-25T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2022-10-25T17:38:11","modified_gmt":"2022-10-25T17:38:11","slug":"para-reverenciar-herzog-e-rever-os-limites-do-ensino-de-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/para-reverenciar-herzog-e-rever-os-limites-do-ensino-de-jornalismo\/","title":{"rendered":"Para reverenciar Herzog e rever os limites do ensino de jornalismo"},"content":{"rendered":"<p>&#8212; Ent\u00e3o, naquele tempo, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica&#8230;<br \/>\n&#8212; Conclua, meu querid\u00edssimo Duque, conclua&#8230;<br \/>\n&#8212; Mas, estou respondendo, a pergunta da estudante, Mino&#8230;<br \/>\n&#8212; Sim, mas faz meia-hora&#8230;E ela s\u00f3 lhe pediu uma orienta\u00e7\u00e3o de como enfrentar o mercado de trabalho e olha onde voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1, na R\u00fassia&#8230;<\/p>\n<p>Os amigos e jornalistas, Mino Carta e Duque Estrada, riram do inusitado da situa\u00e7\u00e3o. Afinal, n\u00e3o estavam na mesa de um restaurante \u2013 para eles, o lugar ideal para finalizar a noite \u2013 ou mesmo nas depend\u00eancias da revista Carta Capital, onde trabalham desde 1994. Eram, sim, o centro das aten\u00e7\u00f5es de centenas de jovens estudantes que se reuniram, no audit\u00f3rio Sigma do campus Rudge Ramos, para participar da primeira noite de palestras da IV Semana de Jornalismo, promovida pela Faculdade de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, em S\u00e3o Bernardo do Campo.<br \/>\nO tom politicamente correto e cerimonioso, habitual desses encontros em universidades, resistiu apenas alguns minutos \u00e0s ironias de Mino e \u00e0 ret\u00f3rica de Duque. Com a verve dos velhos jornalistas, que adoravam uma pol\u00eamica, ambos transportaram para o palco do Sigma as acaloradas \u2013 e deliciosas \u2013 discuss\u00f5es t\u00edpicas das reda\u00e7\u00f5es dos anos 70. \u00c0quela \u00e9poca, mais do que colegas de trabalho, os jornalistas eram amigos. E, se me permitem registrar, os sonhos de salvar o mundo flanavam, soltos e vivos, por aquelas paragens esfuma\u00e7adas tendo como trilha sonora, para o inevit\u00e1vel debate de todo o dia, o batucar irritadi\u00e7o das m\u00e1quinas de escrever.<br \/>\nAo fim do encontro, l\u00e1 se foram Mino e Duque para um restaurante em S\u00e3o Paulo. J\u00e1 \u00e0 entrada do t\u00e1xi come\u00e7avam outra pol\u00eamica: o presidente Ernesto Geisel teria colocado o cargo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos seus pares, os militares, durante o epis\u00f3dio Vladimir Herzog?<br \/>\n&#8212; S\u00f3 voc\u00ea acredita nisso, Duque. O Geisel renunciar, ora&#8230;<br \/>\n&#8212; Mas eu tenho informa\u00e7\u00f5es seguras, Mino&#8230;<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>A bem da verdade, este era um dos prop\u00f3sitos da Semana de Jornalismo. Trazer para a Academia um pouco da hist\u00f3ria do jornalismo brasileiros nos \u00faltimos 30 anos. N\u00e3o por outro motivo, a Semana reverenciou a mem\u00f3ria do jornalista Wladimir Herzog, assassinado pela ditadura em 25 de outubro de 1975.<br \/>\nA partir desta singela homenagem \u2013 que acabou por involuntariamente inaugurar um ciclo de eventos que lembraram o jornalista, \u00e0s v\u00e9speras dos 30 anos de seu tr\u00e1gico desaparecimento &#8211;, a proposta da Semana completou-se com a discuss\u00e3o de uma tem\u00e1tica que propunha ir ampliar os limites do ensino de jornalismo.<br \/>\nMuito al\u00e9m dos planos educacionais e da adjetiva\u00e7\u00e3o que hoje caracteriza \u201co novo jornalismo\u201d de novo &#8212; liter\u00e1rio, investigativo, institucional etc etc &#8211;, a proposta queria, sim, revelar quem eram os jornalistas daquele per\u00edodo, quais os sonhos, as propostas profissionais e de vida? E quem somos hoje, n\u00f3s, jornalistas? Os caminhos que percorremos e que temos a percorrer? Quais os nossos compromissos, as conquistas, as derrotas, os projetos individuais e coletivos? Ainda somos uma categoria profissional? O quanto de sonhos resta em nosso alforje de historiador do cotidiano?<br \/>\nPara jogar luz sobre essas quest\u00f5es, a Fajorp convidou doze jornalistas que se revezaram durante tr\u00eas dias \u2013 20, 21 e 22 de setembro \u2013 em nove palestras e uma oficina. No momento em que o Pa\u00eds vive outra de suas crises pol\u00edticas e institucionais, quando o desalento grassa em todas as \u00e1reas, n\u00e3o seria exagerado dizer que o encontro resgatou \u2013 ao menos para aquela plat\u00e9ia de futuros jornalistas &#8212; um bom naco das esperan\u00e7as perdidas em \u00e2mbito profissional. Diria mais: ficou claro que a avenida entre mercado de trabalho e universidade precisa mesmo ter m\u00e3o dupla, em que todos os interessados possam trafegar harmoniosa e decisivamente em nome da cidadania e de uma sociedade mais justa e contempor\u00e2nea.<br \/>\n*<\/p>\n<p>Uma significativa parcela de tudo o que aconteceu na Semana estamos registrando agora na edi\u00e7\u00e3o deste suplemento especial, gra\u00e7as a uma parceria entre Fajorp e Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC. A publica\u00e7\u00e3o, feita pelos alunos de jornalismo da Metodista, traz a participa\u00e7\u00e3o dos jornalistas convidados, a hist\u00f3ria de vida de Vlado e dos 62 anos\u00a0de atua\u00e7\u00e3o do Sindicato em defesa do direito dos trabalhadores e pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds.<br \/>\nMais do que um referendo de fatos hist\u00f3ricos, vit\u00f3rias ou de discuss\u00f5es et\u00e9reas, creio que o resultado final, tanto da Semana como deste jornal, \u00e9 o desafio de continuarmos atentos na defesa de um Brasil verdadeiramente de todos os brasileiros \u2013 desafio este que passa, inevitavelmente, por diversos caminhos, mas tem no jornalismo um de seus pilares de sustenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTudo ainda estar por ser feito, por ser conquistado. Se vale uma assertiva, fiquemos pois com a do rep\u00f3rter Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro, outro ilustre participante do encontro. Do alto de seus 50 anos de reportagens, deixou um recado final para os estudantes e, de quebra, para todos n\u00f3s: \u201cAs \u00fanicas certezas que tenho na vida s\u00e3o: primeiro, que a azeitona escura \u00e9 tingida. Segundo, que geralmente a torneira da esquerda \u00e9 a que tem \u00e1gua quente. De resto, minha gente, \u00e9 preciso apurar\u201d.<\/p>\n<p>* Herzog Especial &#8211; Suplemento especial editado pela Faculdade de Jornalismo e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo. (Texto de apresenta\u00e7\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212; Ent\u00e3o, naquele tempo, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica&#8230;<br \/>\n&#8212; Conclua, meu querid\u00edssimo Duque, conclua&#8230;<br \/>\n&#8212; Mas, estou respondendo, a pergunta da estudante, Mino&#8230;<br \/>\n&#8212; Sim, mas faz meia-hora&#8230;E ela s\u00f3 lhe pediu uma orienta\u00e7\u00e3o de como enfrentar o mercado de trabalho e olha onde voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10348","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10348"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10348\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27793,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10348\/revisions\/27793"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}