{"id":10383,"date":"2006-10-18T00:00:00","date_gmt":"2006-10-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T20:02:26","modified_gmt":"2017-09-15T20:02:26","slug":"o-cochilo-do-rei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-cochilo-do-rei\/","title":{"rendered":"O cochilo do Rei"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Eu n\u00e3o posso mais ficar aqui a esperar&#8230;<br \/>\n Que um dia, de repente, voc\u00ea volte para mim &quot;.<\/p>\n<p>Erasmo Carlos estava entusiasmado. Ali\u00e1s, como n\u00e3o se sentia desde aquele fat\u00eddico domingo em que chegou \u00e0 TV Record. L\u00e1, foi informado que o Jovem Guarda havia sido retirado da programa\u00e7\u00e3o dominical. N\u00e3o lhe deram grandes explica\u00e7\u00f5es. Mas, f\u00e1cil entender. Bastou lembrar John Lennon: o sonho acabou&#8230;<\/p>\n<p>De 66 a meados de 68, o programa foi sucesso absoluto. Consagrou definitivamente a chamada m\u00fasica da juventude (esse tal de i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea) e transformou Roberto Carlos, parceiro de f\u00e9 e irm\u00e3o camarada, em \u00eddolo m\u00e1ximo dos brasileiros.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Erasm\u00e3o curtiu certa fossa, e incertos tempos de ostracismo. <\/p>\n<p>&#8212; P\u00f4, bicho, s\u00f3 sabia fazer aquilo. Ir l\u00e1 no Teatro Record e cantar minhas m\u00fasicas. Tudo girava em torno da nossa apari\u00e7\u00e3o na TV &#8211; explicou Erasmo anos depois em entrevista a um jovem e promissor rep\u00f3rter, que humildemente prefiro n\u00e3o declinar o nome.<\/p>\n<p>Roberto continuou, como se dizia \u00e0 \u00e9poca, na crista da onda. Era quase unanimidade nacional. Tinha a gravadora CBS aos p\u00e9s, pois continuava grande \u2018vendedor\u2019 de discos. Chegou mesmo a ousar um v\u00f4o internacional, quando venceu o Festival de San Remo, da It\u00e1lia, com a bel\u00edssima &quot;Canzone Per Te&quot;.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Sem outro jeito, Erasm\u00e3o ficou na dele. Fez algumas parcerias com Benjor. Mas, nada aconteceu. Agora, n\u00e3o. Tinha certeza que as coisas iriam mudar. Foi o pr\u00f3prio Roberto quem lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Bicho, vamos fazer uma m\u00fasica inesquec\u00edvel, a mais bela entre tantas que j\u00e1 fizemos. E quem vai gravar, originalmente, \u00e9 voc\u00ea. Depois, sim, pensamos nas can\u00e7\u00f5es do meu disco anual.<\/p>\n<p>Palavra de Rei n\u00e3o volta atr\u00e1s. Assim aconteceu. Trabalharam por semanas. Reuniam-se com freq\u00fc\u00eancia, em hor\u00e1rios os mais absurdos. Mas, compensava. Tudo estava indo \u00e0s mil maravilhas. A tem\u00e1tica era a de sempre. A hist\u00f3ria de um grande amor que amea\u00e7a se perder nas sinuosas curvas da vida. At\u00e9 t\u00edtulo j\u00e1 haviam escolhido. &quot;Sentado \u00e0 Beira do Caminho&quot;, que tal? <\/p>\n<p>(H\u00e1 quem diga que a inspira\u00e7\u00e3o veio do maneiro blues \u201cThe Docks of The Bays\u201d, de Ottis Redding, que fez um t\u00edmido sucesso por aqui. Mas, deixemos de suspeitas e continuemos nossa hist\u00f3ria.) <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Numa determinada noite, marcaram de se encontrar para terminar de vez o trabalho. Estavam felizes, e algo cansados. S\u00f3 lhes faltava o refr\u00e3o que uniria todos os versos. E desse uma levada menos depr\u00ea \u00e0 can\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Horas depois, Erasmo estava inquieto. Andava pra l\u00e1 e pra c\u00e1 na ampla sala da casa de Roberto, no Morumbi. Ora batucava baixinho no viol\u00e3o. Ora balbuciava palavras a esmo. Nada que valesse \u00e0 pena. Resolveu apelar para o amigo que, imaginava, estar empenhado na mesma e torturante busca. <\/p>\n<p>Olhou para o lado, cad\u00ea o Roberto? Foi descobri-lo estirado no sof\u00e1, a saborear um belo cochilo. Pap\u00e9is desarrumados sobre a mesa, caneta no ch\u00e3o. Roberto dormia sono majestoso. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>O amigo se indignou.<\/p>\n<p>&#8212; O que \u00e9 isto Roberto? O que \u00e9 isto? Eu me descabelo (nesse per\u00edodo, todos us\u00e1vamos longas madeixas) para achar a rima, e voc\u00ea dormindo, bicho. Meu Deus! O que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>Roberto abriu um olho, depois outro. Passou a m\u00e3o rosto, e tentou se recompor diante do amigo. Para disfar\u00e7ar, se p\u00f4s a cantarolar, sem que se desse conta:<\/p>\n<p>\u201cPreciso acabar logo com isto.<br \/>\n  Preciso lembrar que eu existo,<br \/>\n  Eu existo, eu existo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Pronto. Ali surgia o refr\u00e3o que Erasmo tanto perseguiu de olhos abertos, e o Rei descobriu nos confins dos sonhos \u2013 onde guardamos nossos amores e segredos, al\u00e9m do aben\u00e7oado desejo de ser o que se \u00e9.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>\u201cSentado \u00e0 Beira do Caminho\u201d foi um estouro de vendas. Recolocou Erasmo nas paradas de sucesso. E ainda hoje reaparece em tocantes regrava\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma das preciosas can\u00e7\u00f5es do novo CD de Andr\u00e9a Boccelli. Em italiano, chama-se \u201cL\u2019Appuntamento\u201d.<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Eu n\u00e3o posso mais ficar aqui a esperar&#8230;<br \/>\n Que um dia, de repente, voc\u00ea volte para mim &quot;.<\/p>\n<p>Erasmo Carlos estava entusiasmado. 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