{"id":10384,"date":"2006-10-19T00:00:00","date_gmt":"2006-10-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:28:32","modified_gmt":"2017-09-14T04:28:32","slug":"terras-de-neruda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/terras-de-neruda\/","title":{"rendered":"Terras de Neruda"},"content":{"rendered":"<p>Am\u00e1veis senhores, amadas senhoras&#8230; <\/p>\n<p>Cumpre-me a dificil tarefa de relatar neste espa\u00e7o minhas andan\u00e7as pela Am\u00e9rica Latina em janeiro de 2005. Pois \u00e9, camaradas, n\u00e3o me pe\u00e7am para explicar os motivos. Apenas me ou\u00e7am, quer dizer, leiam para entender como s\u00e3o demais os perigos dessa vida.<\/p>\n<p>Vamos ao relato, pois.<\/p>\n<p>Este pobre escriba tinha festivos planos de chegar a Santiago do Chile, fazer a travessia dos lagos andinos, ir a Patag\u00f4nia, Bariloche e Buenos Aires, onde compraria um leg\u00edtimo mocassin argentino. Se po$$\u00edvel, esticaria at\u00e9 Punta Del Leste. <\/p>\n<p>Era o plano&#8230; Mas algo aconteceu&#8230; <\/p>\n<p>Cheguei mesmo a andar pelas terras de Pablo Neruda, com ares de turista internacional e jeit\u00e3o de poeta, at\u00e9 que uma inoportuna contratura muscular me estatelou num quarto de hospital na distante Porto Mont &#8212; sul do Chile, a \u00faltima regi\u00e3o continental antes das terras geladas Patag\u00f4nia que, por isso mesmo, vou continuar conhecendo s\u00f3 pelos cart\u00f5es postais.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria longa que terminou bem e, um dia, com menos \u2018dolor\u2019, prometo contar tim-tim por tim-tim. N\u00e3o faltaram lances de a\u00e7\u00e3o (mesmo que eu estivesse literalmente travado) e personagens interessantes \u2013 o torneio de t\u00eanis que disputei em Guarapari antes da viagem, o piloto com jeito de Indiana Jones, o casal de m\u00e9dicos americanos, o prestativo guia Aguinaldo e at\u00e9 uma estranha \u2018fada\u2019&#8230;<\/p>\n<p>Para dar uma \u2018palhinha\u2019, registro aqui o b\u00e1sico: uma velha conhecida minha (e de muitos de n\u00f3s) \u2013 a Senhora Dor nas Costas \u2013 resolveu se manifestar em meio \u00e0s minhas andan\u00e7as. Como eu a tratasse com certo desd\u00e9m (desde as partidas de t\u00eanis que disputei no fim de ano em Guarapari), quando cheguei a um povoado chamado Peulla (com exatos 130 habitantes) em meio a travessia dos lagos andinos, a dita cuja \u2013 com quem convivo h\u00e1 anos, diga-se &#8211;  teve um chilique ( um, n\u00e3o&#8230; v\u00e1rios) e se transformou em contratura do m\u00fasculo paralombar direito. Ou seja, tive c\u00e2imbras nas costas. N\u00e3o me perguntem como, nem porqu\u00ea. Sei que eram dores terr\u00edveis, intermitentes (parecia que ia parir um allien) que s\u00f3 deram tr\u00e9guas depois que uma m\u00e9dica american, h\u00f3spede do hotel em que estava (pois n\u00e3o h\u00e1 sequer posto m\u00e9dico no local) me receitou um comprimido com pequena dose de morfina (Foi o que entendi pelo gesto que fez). Resultado: dormi e tive sonhos bons; malucos, entrecortados por um estado de suavidade zen, mas bons&#8230; <\/p>\n<p>No dia seguinte, um monomotor veio fazer o resgate deste pobre escriba num aeroporto improvisado com pista de terra batida e o escambau. Sobrevoamos o lind\u00edssimo lago de Todos os Santos, entre a cordilheira dos Andes e a fina estampa do vulc\u00e3o Ozorno. Conheci as preciosidades na ida, pois cheguei a Peulla de \u2018catamarano\u2019 (uma barca\u00e7a), em viagem que durou quase duas horas e h\u00e1 quem a acuse de ser a impiedosa causa dos meus ais. <\/p>\n<p>Na \u2018avioneta\u2019, viajei numa maca improvisada, dessas de resgate que se v\u00ea quando h\u00e1 acidentes em S\u00e3o Paulo. E s\u00f3 consegui enxergar mesmo o teto cinza encardidinho e ouvir o \u2018rooooommmm\u2019 do motor. Ali\u00e1s, n\u00e3o sei se foi efeito da noite anterior, mas nesses 40 minutos de v\u00f4o me lembrei da inesquec\u00edvel Bras\u00edlia azul, ano 78, que comprei no p\u00e1teo da Volks naqueles priscos e bons tempos. Foi o meu segundo carro, se bem me lembro&#8230;<\/p>\n<p>Essa \u2018viajada que dei por conta pr\u00f3pria talvez tenha sido uma forma de bloqueio. S\u00f3 quando aterrissamos, fui lembrar que aquele lago \u2013 dito pelo guia no dia anterior \u2013 \u00e9 maior do que a cidade de S\u00e3o Paulo em extens\u00e3o e tem cerca de 350 metros de profundidade. Ufa&#8230;Ali\u00e1s, quaisquer 45 cent\u00edmetros de \u00e1gua j\u00e1 me afogariam, pois sequer conseguia me sustentar sentado&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 no hospital em Porto Mont, o diagn\u00f3stico do m\u00e9dico chileno foi preciso: S\u00edndrome de Dollor Lombar. Rem\u00e9dio: antiinflamat\u00f3rio com soro na veia, relaxante muscular de oito em oito horas, luz infravermelha duas vezes ao dia e tr\u00eas dias sem sair da cama, repouso absoluto&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 desgaste, disse o bom senhor de branco que me atendeu solicitamente.<\/p>\n<p>Confesso que achei razo\u00e1vel o parecer do doutor, depois confirmado pelos exames que fiz, incluindo raio x e tomografia da coluna. S\u00f3 lamentei mesmo ter que dar raz\u00e3o ao bom homem quando completou o diagn\u00f3stico com a seguinte frase:<\/p>\n<p>&#8212; Fique tranq\u00fcilo, Don Rodolfo. O senhor vai ficar bom. \u00c9 assim: quando voc\u00ea n\u00e3o p\u00e1ra. \u00c9 a vida que p\u00e1ra voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>Dias depois, Don Rodolfo respirou aliviado por deixar aquele fim-de-mundo \u2013 ali\u00e1s, como os pr\u00f3prios chilenos chamam aquelas paragens. Precisaria agora enfrentar outras tantas perip\u00e9cias antes de chegar a S\u00e3o Paulo. O roteiro inicial j\u00e1 era, teria de refazer tudo. Mas, agora estava exausto para pensar ou planejar qualquer coisa. E, mesmo com o corpo em cacos, prostrado fisicamente, sentiu a alma leve, estranhamente saltitante, a lhe soprar uma inadequada proposta para aquele momento&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9, um dia a gente volta&#8230; No m\u00ednimo, para rever aquela fada madrinha que lhe apareceu, em sonhos na madrugada de Peulla. Era um tanto estranha. Vestia-se de cinza, igualzinho \u00e0s recepcionistas do hotel. Mas, que interessante, usava uma bolsa de \u00e1gua quente no lugar da varinha de cond\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Am\u00e1veis senhores, amadas senhoras&#8230; <\/p>\n<p>Cumpre-me a dificil tarefa de relatar neste espa\u00e7o minhas andan\u00e7as pela Am\u00e9rica Latina em janeiro de 2005. 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