{"id":10387,"date":"2006-10-21T00:00:00","date_gmt":"2006-10-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:28:09","modified_gmt":"2017-09-14T04:28:09","slug":"salto-triplo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/salto-triplo\/","title":{"rendered":"Salto triplo"},"content":{"rendered":"<p>Contei essa hist\u00f3ria ontem em sala de aula, e os alunos se divertiram com o revisor trapalh\u00e3o que fui e, desconfio, sempre serei. Nas lides jornal\u00edsticas, como narro a seguir, e na vida &#8212; por mais que fa\u00e7a uma releitura dos meus passos, n\u00e3o consigo deixar de ir onde meus sonhos me levam. E, imagino, algu\u00e9m me espera&#8230;<\/p>\n<p>Mas deixemos de De&#8230;vaneios (\u00f4 palavrinha complicada, s\u00f4), e vamos aos fatos.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Corriam soltos os anos 80, e eu corria solto atr\u00e1s da grana.<br \/>\nAli\u00e1s, como ironizava um antigo sucesso do compositor Marcos Valle:<\/p>\n<p>&#8220;Corro por dinheiro, ah, ah&#8230;<br \/>\nAt\u00e9 jogar no ch\u00e3o meu corpo inteiro, ah, ah&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>(N\u00e3o me pergunte o significado desse ah, ah&#8230; Nem eu, nem o pr\u00f3prio Marcos Valle saberemos lhe explicar. Eu, porque nunca soube. Ele, porque disfar\u00e7ou quando lhe perguntei numa entrevista: \u201cSei l\u00e1, acho que \u00e9 porque as meninas do coral inventaram na hora\u201d).<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Trabalhava no jornal, e de resto me virava com os frilas que aparecessem. Sem distin\u00e7\u00e3o de credo, ra\u00e7a ou cor&#8230;<\/p>\n<p>Houve uma \u00e9poca, por exemplo, em que fazia a revista ma\u00e7om A Verdade sem ser ma\u00e7om. Diagramava a revista do S\u00e3o Paulo Futebol Clube, mesmo sendo torcedor do (vou ficar de p\u00e9 para escrever) Palmeiras. Era secret\u00e1rio gr\u00e1fico do jornal O Alborada, da col\u00f4nia espanhola e n\u00e3o sabia dizer &#8220;Ol\u00e9&#8221; em castelhano. E ficava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de uma mo\u00e7a bonita, chamada Marilene, para lhe ajudar no fechamento de Gazeta de S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n<p>Isso sem falar das mat\u00e9rias de m\u00fasica que sempre gostei de escrever &#8211; e me eram indispens\u00e1veis para me entender jornalista&#8230;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, foi com os suados proventos desse lufa-lufa que consegui comprar meu primeiro carro zero quil\u00f4metro, um inesquec\u00edvel Corcel II marrom de tantas e singelas lembran\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Inclusive a de que, depois de alguns meses, come\u00e7ou a ficar opaco como os rinocerontes de Jacarta&#8230;<\/p>\n<p>(Calma, calma, voc\u00eas logo v\u00e3o entender o porqu\u00ea da refer\u00eancia).<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Nesses tempos imemori\u00e1veis, a minha semana terminava com a secretaria gr\u00e1fica do Jornal da Orla. O seman\u00e1rio ainda hoje circula no Litoral paulista, aos domingos. E at\u00e9 ent\u00e3o era feito na pequena, mas pulsante, oficina de Gazeta do Ipiranga, capitaneada pelo Valt\u00e3o, ali na rua Bom Pastor, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Toda sexta, por volta das 18 horas, l\u00e1 estava eu a postos para o embate. \u00d3bvio que o fechamento entrava madrugada afora e, n\u00e3o raras vezes, amanhec\u00edamos por l\u00e1 mesmo, quase sempre a esperar o an\u00fancio das Casas Bahia que nunca chegava ou a procurar um PMT de uma foto (ou seja a foto da foto em condi\u00e7\u00f5es de ser impressa) que havia desaparecido, entre outras agrad\u00e1veis encrencas.<\/p>\n<p>\u00c9 de se imaginar, portanto, que todas cheg\u00e1vamos algo cansado da labuta da semana e com uma pressa danada de ir embora. Afinal, era sexta-feira, internacionalmente consagrado como dia do que hoje chamam modernamente de balada.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer que computadores ainda eram ETs entre n\u00f3s, jornalistas. Escrev\u00edamos nossas reportagens na m\u00e1quina de escrever em laudas. Posteriormente, elas passavam para o editor que as encaminhava para o diagramador que fazia o desenho da p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Com as devidas marca\u00e7\u00f5es de tamanho de letra, estilo de fonte e largura de coluna, seguiam nas m\u00e3os de boy para a Digita\u00e7\u00e3o, onde simp\u00e1ticos rapazes e belas mo\u00e7as teclavam letra por letra tudo o que estava nas laudas.<\/p>\n<p>Nossas mat\u00e9rias se transformavam em um enfileirado de letrinhas com forma e tamanho para caber numa p\u00e1gina de jornal. Essas tiras iam para um departamento chamado Past-up, onde eram coladas por arte-finalistas, organizadamente, em acr\u00edlicos do tamanho adeq\u00fcado \u00e0 p\u00e1gina de jornal. As p\u00e1ginas eram matrizes para a fotomec\u00e2nica que a transformava em filme, que depois se transformariam em chapa de zinco at\u00e9 ir para a impressora.<\/p>\n<p>Um processo detalhado. Cada departamento tinha um prazo para cumprir o ritual, passo a passo. Assim, dava-se um fluxo normal, com todos a produzir seq\u00fcencialmente e a cumprir prazos.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Ainda em meio a esse bolol\u00f4, havia um departamento chamado Revis\u00e3o. Funcionava assim, em duplas. Um dos revisores lia, em voz alta, o xerox do texto digitado. O segundo revisor acompanhava, atento, os originais da reportagem. Assim, se evitava os chamados erros de digita\u00e7\u00e3o como \u2018palavrascoladas\u2019 ou com \u2018letrasss\u2019 a mais ou outras falhas do g\u00eanero.<\/p>\n<p>Feito isso, o texto voltava para a digita\u00e7\u00e3o, onde eram feitas as emendas e seguia o tr\u00e2mite natural.<\/p>\n<p>N\u00e3o raras vezes, a Revis\u00e3o, com o necess\u00e1rio preciosismo, atrasava todo o andamento do jornal. Enquanto pilhas de textos acumulavam-se sobre a ampla mesa de trabalho, os revisores n\u00e3o tinham como apressar o ritmo da leitura. Era natural nesta hora, a press\u00e3o dos demais funcion\u00e1rios, parados a espera de servi\u00e7o. Ficavam por ali, a rodear a mesa, como quem n\u00e3o quer nada, a olhar o rel\u00f3gio, a dar indiretas, tipo \u201choje, s\u00f3 amanh\u00e3\u201d ou \u201cseis da manh\u00e3 \u00e9 cedo, pra n\u00f3s hoje\u201d.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Nessas situa\u00e7\u00f5es, o melhor fazer era juntar o pessoal e improvisar outras duplas numa esp\u00e9cie de mutir\u00e3o \u2018salva p\u00e1tria\u2019. Foi o que fiz num dessas sextas encrencadas. Chamei o simp\u00e1tico chefe da foto-mec\u00e2nica, o amigo Qu\u00e9rcia, para darmos o exemplo.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 come\u00e7ar a leitura para constatar um Qu\u00e9rcia espert\u00edssimo.<\/p>\n<p>&#8212; Ops, est\u00e1 faltando ponto aqui. Oi, oi, oi, repetiu o \u2018s\u2019 ali. Epa, pulou um trecho&#8230;<\/p>\n<p>Que beleza. Fiquei impressionado. Ele era do ramo. Logo outros se juntaram a n\u00f3s. E a montanha de textos indo abaixo.<\/p>\n<p>Meia hora depois, empolgado, Qu\u00e9rcia decretou:<\/p>\n<p>&#8212; Agora, eu leio, chefia&#8230;<\/p>\n<p>Como dizer n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Fique \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que percebi porque o apelido dele era Qu\u00e9rcia. Era o pr\u00f3prio pol\u00edtico ao ler um discurso para o plen\u00e1rio vazio. Monoc\u00f3rdio, arrastado, com tom solene a mastigar as letras e saborear as palavras e o momento. O assunto tamb\u00e9m n\u00e3o ajudava. Falava de umas altera\u00e7\u00f5es na pele dos rinocerontes das Ilhas de Jacarta &#8211; falei que apareceriam!!!<\/p>\n<p>\u201cQuem escolheu esse tema?\u201d, eu me perguntava sonolento. \u201cAcho que faltou mat\u00e9ria, l\u00e1 na Baixada\u201d, e a voz do Qu\u00e9rcia longe, longe, cada vez mais longe&#8230; \u201cIsso aqui \u00e9 material de ag\u00eancia\u201d. \u201cMeu Deu, que sono!!!\u201d<\/p>\n<p>S\u00f3 acordei com a comemora\u00e7\u00e3o do Qu\u00e9rcia.<\/p>\n<p>&#8212; Ufa! Terminamos, chefia. Bom texto, bem digitado. Quase n\u00e3o houve erros&#8230;<\/p>\n<p>Respirei aliviado. Ningu\u00e9m percebeu o cochilo. Logo levantei e fui lavar o rosto, tomar um caf\u00e9 (arghh), frio, amargo e fraco, adequado \u00e0quela hora da noite.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Na segunda pela manh\u00e3, mal entro no jornal, recebo o aviso.<\/p>\n<p>&#8212; O pessoal de Santos ligou uma pancada de vezes. Querem falar com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Repassei o que aconteceu na sexta. Nenhum grande \u2018pepino\u2019. N\u00e3o sobraram an\u00fancios de fora \u2013 que \u00e9, na verdade, o que interessa aos donos de jornal. Uma mudancinha na primeira, mas nada de transcendental. Fechamos na hora aprazada, por volta das tr\u00eas e meia. Desencanei, n\u00e3o era nada.<\/p>\n<p>Foi quando o Qu\u00e9rcia entrou na Reda\u00e7\u00e3o, com um exemplar do Jornal da Orla na m\u00e3o. Sem dizer uma palavra, abriu na p\u00e1gina de Ci\u00eancias e pude ver tr\u00eas setas vermelhas, feitas com aqueles canet\u00f5es apropriados a flagar erros e nos humilhar. Indicavam que houve tr\u00eas saltos enormes. Par\u00e1grafos inteiros foram engolidos pelo nada do meu sono, o que de resto tornou aquela mat\u00e9ria chata numa chatice intelig\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8212; Eles est\u00e3o furiosos, chefia. Perguntaram quem revisou comigo.<\/p>\n<p>&#8212; E voc\u00ea disse que fui eu. Acho que me distrai, enfim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Disse. Mas, eles n\u00e3o acreditaram.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?<\/p>\n<p>&#8212; Disseram que foi o Jo\u00e3o do Pulo, o rei do salto triplo.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Pois \u00e9. Desde ent\u00e3o, durante todo o tempo que trabalhei no Jornal da Orla, os pacotes de originais que eram endere\u00e7ados a mim, todas as sextas, chegavam com o seguinte encaminhamento:<\/p>\n<p>Da reda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara Rodolfo \u2018Jo\u00e3o do Pulo\u2019 Martino, o rei do salto triplo.<\/p>\n<p>Sempre e sempre escrito com aquele canet\u00e3o vermelho, apropriado a nos humilhar.<\/p>\n[Texto publicado no livro &#8220;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&#8221;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contei essa hist\u00f3ria ontem em sala de aula, e os alunos se divertiram com o revisor trapalh\u00e3o que fui e, desconfio, sempre serei. 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