{"id":10390,"date":"2006-10-23T00:00:00","date_gmt":"2006-10-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2025-03-29T14:27:01","modified_gmt":"2025-03-29T14:27:01","slug":"viver-de-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/viver-de-musica\/","title":{"rendered":"Viver de m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<p>Escrever \u00e9 sempre um ato solit\u00e1rio. Mesmo quando sabemos que h\u00e1 algu\u00e9m, do outro lado da tela ou pr\u00f3ximo de n\u00f3s, disposto a ler o nosso recado&#8230; Escrever, de qualquer modo, sempre mexe com o Sr. Imponder\u00e1vel de Almeida que N\u00e9lson Rodrigues consagrou e, n\u00e3o raras vezes, revela situa\u00e7\u00f5es outras, latentes a cada ser, sobre as quais n\u00f3s, meros escrivanhadores, n\u00e3o temos o menor controle&#8230;<\/p>\n<p>Pero Vaz Caminha que o diga!<\/p>\n<p>Mas, nossa hist\u00f3ria \u00e9 outra, e conto a seguir:<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Quando a mo\u00e7a bonita que sempre<br \/>\nchegava atrasada, pois vinha de uma<br \/>\ncidade do interior, entrava na sala de aula,<br \/>\no galocha do Haroldo n\u00e3o tinha d\u00favidas&#8230;<\/p>\n<p>Tudo aquilo existia e n\u00e3o era miragem<br \/>\nde um promissor empres\u00e1rio, no ramo de parafusos,<br \/>\nque resolveu fazer um MBA na PUC s\u00f3 porque<br \/>\na vida andava um t\u00e9dio&#8230;<\/p>\n<p>Em segundos, ela se apropriava, sem dizer<br \/>\npalavra, de todas as cores, sons e aten\u00e7\u00f5es<br \/>\nda sala, e por um desses inexplic\u00e1veis dons<br \/>\nda natureza passava a ser a pr\u00f3pria raz\u00e3o<br \/>\nde ser da aula, do curso, da vida&#8230;<\/p>\n<p>Haroldo sempre foi um exagerado<br \/>\npara certos sentimentos&#8230;<br \/>\nLogo se viu afinz\u00e3o da mo\u00e7a que mal conhecia,<br \/>\nmas sentava ao seu lado todas as aulas&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>&#8212; Investi tudo, meu querido ( por vezes,<br \/>\nHaroldo se imaginava carioca da gema,<br \/>\ns\u00f3 \u00e0s vezes). Percebi que a mo\u00e7a<br \/>\ngostava de m\u00fasica, MPB. Quem n\u00e3o<br \/>\ngosta, n\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o, falei \u00e9 mam\u00e3o com<br \/>\na\u00e7\u00facar, macuco no embornal. Sou eu<br \/>\nna fita. \u00cata paradinha boa. \u00c9 minha praia&#8230;<\/p>\n<p>Como sentavam pr\u00f3ximos, n\u00e3o tanto<br \/>\nquanto ele queria, mas o suficiente<br \/>\npara que se estabelecesse uma<br \/>\ncerta cumplicidade para \u2018tocar\u2019 aquelas<br \/>\naulas chat\u00edssimas, teve o que considerou<br \/>\numa id\u00e9ia brilhante&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Desenhei caprichosamente, no meu<br \/>\ncaderno com letras suficientemente grandes<br \/>\npara que ela pudesse ler&#8230; SERIA<br \/>\nUM EQU\u00cdVOCO VIVER SEM M\u00daSICA&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Enquanto ditraidamente sublinhava<br \/>\nv\u00e1rias vezes a palavra M\u00daSICA, ainda com<br \/>\nos olhos no papel para disfar\u00e7ar,<br \/>\nHaroldo ouviu o barulho do arrastar de uma<br \/>\ncadeira e o movimento r\u00e1pido de quem<br \/>\nsai \u00e0s pressas. Era ela&#8230;<\/p>\n<p>Com um palavr\u00e3o que n\u00e3o ouso repetir aqui<br \/>\ncomemorou o golpe de mestre. De pronto se<br \/>\nauto-convenceu da perfei\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ela n\u00e3o resistiu&#8230; E quem resistiria?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a sa\u00edra da sala<br \/>\nvisivelmente transtornada&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>No intervalo, fui ter com eles e,<br \/>\nsem saber do ocorrido, os encontro<br \/>\napoiados na murada da escada,<br \/>\nem frente ao pr\u00e9dio&#8230;<\/p>\n<p>Vejo que ela tem<br \/>\nolhos avermelhados de quem<br \/>\nhavia chorado e ar de quem caiu<br \/>\nem si. Haroldo, reparo, \u00e9 todo<br \/>\nexpectativa. Pronto a recolher<br \/>\nos frutos de mais uma conquista&#8230;<\/p>\n<p>Ela sequer repara que cheguei,<br \/>\ne comenta em voz alta para Haroldo<br \/>\ne quem quisesse ouvir&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Foi revelador o que voc\u00ea escreveu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora, deixe de bobagem.<\/p>\n<p>N\u00e3o escrevi nada assim t\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Achei o coment\u00e1rio meio c\u00ednico, mas<br \/>\nquis ouvir o resto da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211;Verdade, Haroldo. Namorei um cara tr\u00eas anos,<br \/>\nnos separamos e s\u00f3 agora descobri a for\u00e7a<br \/>\nde um sentimento&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como assim &#8211; diz um Haroldo, algo surpreso..<\/p>\n<p>&#8212; Ele era M\u00daSICO e viver sem ele<br \/>\ntem sido um grande equ\u00edvoco. Foi revelador<br \/>\no que voc\u00ea escreveu&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Depois desse dia, nunca mais soube deles.<br \/>\nHaroldo trancou matr\u00edcula por absoluto desinteresse<br \/>\n\u00e0 Ret\u00f3rica da Comunica\u00e7\u00e3o Aplicada aos N\u00fameros e \u00e0s Estat\u00edsticas, seja l\u00e1 o que essa<br \/>\ndisciplina quer dizer.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a fez o mesmo. Imagino que preferiu<br \/>\ndesfazer o equ\u00edvoco e viver<br \/>\nde m\u00fasica. Ou melhor, para o m\u00fasico&#8230;<\/p>\n<p>O que seria dos romances sem os equ\u00edvocos e as retic\u00eancias<\/p>\n<p>&#8211; e ponto final.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrever \u00e9 sempre um ato solit\u00e1rio. Mesmo quando sabemos que h\u00e1 algu\u00e9m, do outro lado da tela ou pr\u00f3ximo de n\u00f3s, disposto a ler o nosso recado&#8230; Escrever, de qualquer modo,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10390","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10390","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10390"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10390\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33972,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10390\/revisions\/33972"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10390"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10390"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10390"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}