{"id":10398,"date":"2006-10-29T00:00:00","date_gmt":"2006-10-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T20:02:25","modified_gmt":"2017-09-15T20:02:25","slug":"as-marcas-do-meu-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/as-marcas-do-meu-tempo\/","title":{"rendered":"As marcas do meu tempo"},"content":{"rendered":"<p>Desalento.<\/p>\n<p>Com este sentimento \u2013 pr\u00f3prio \u00e0s can\u00e7\u00f5es de Taiguara \u2013 v\u00e3o \u00e0s urnas hoje os brasileiros da minha gera\u00e7\u00e3o &#8211; sejamos generosos com o conceito antigo de gera\u00e7\u00e3o, 20 anos; portanto entre 45 e 65, pouco mais, pouco menos.<\/p>\n<p>Pelo notici\u00e1rio que os jornais estampam, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender o porqu\u00ea. Nossos melhores sonhos de um Brasil representativo \u2013 \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda \u2013 despencaram, um ap\u00f3s outro, em vertiginosa seq\u00fc\u00eancia de fracassos e decep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Perdemos o passo da Hist\u00f3ria, e n\u00e3o conseguimos virar a p\u00e1gina para chegarmos ao cap\u00edtulo da justi\u00e7a social e da dignidade.<\/p>\n<p>\u00c9 um triste legado que deixamos aos mais jovens \u2013 ali\u00e1s, \u00e9 percept\u00edvel a falta de expectativas e de bons projetos entre a garotada.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Como diria Gilberto Gil, numa de suas primeiras can\u00e7\u00f5es, Louva\u00e7\u00e3o, &quot;eu tiro os outros por mim&quot;. Por isso, valho-me da minha trajet\u00f3ria como eleitor para dar premissas ao que digo. <\/p>\n<p>Votei pela primeira vez para Presidente como a maioria dos brasileiros em 89. Acreditava em M\u00e1rio Covas, e nele votei no primeiro turno. No segundo turno, descrente, anulei o voto. Ainda hoje n\u00e3o me convenci se fiz certo ou errado. Um amigo petista me dizia \u00e0 \u00e9poca:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea ajudou Collor a se eleger.<\/p>\n<p>Achei um certo exagero, pr\u00f3prio aos militantes do PT de ent\u00e3o, senhores absolutos da verdade e da justi\u00e7a. Mas, vamos em frente&#8230;<\/p>\n<p>Em 94, n\u00e3o tive d\u00favidas em escolher o ent\u00e3o ministro Fernando Henrique Cardoso. Era uma refer\u00eancia, diria, uspiniana, um intelectual de &#8216;esquerda&#8217;, soci\u00f3logo de renome internacional. Uma reserva moral que se transformou em grossa decep\u00e7\u00e3o. O Brasil que, sorridente, anunciava em seus pronunciamentos s\u00f3 existiu no espa\u00e7o vazio dos seus pronunciamentos.<\/p>\n<p>Em 98, fui de Lula. Ressabiado, mas fui. A compra dos votos para reelei\u00e7\u00e3o de FHC, as privatiza\u00e7\u00f5es, o Brasil ao abandono. Era-me inevit\u00e1vel dar um passo \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>FHC venceu no primeiro turno, com uma boa for\u00e7a dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2002, estava convicto: a vez era de Lula e do PT. <\/p>\n<p>Como v\u00eaem, n\u00e3o sou petista. Mas o Lulinha \u201cpaz e amor\u201d me convenceu. Pareceu um caminho novo, comprometido com o social.  A esperan\u00e7a venceu o medo.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>E assim chegamos a 2006. Chegamos na esteira de uma s\u00e9rie de esc\u00e2ndalos nunca dantes anunciados pela M\u00eddia. Mas, para ser rigorosamente justo, tamb\u00e9m nunca dantes (gostei da palavra), jornais, revistas, emissoras de TV tiveram tanta gana em anunciar esc\u00e2ndalos. Mas, v\u00e1 l\u00e1, existem, est\u00e3o a\u00ed. Precisam mesmo ser apurados e os respons\u00e1veis que arquem com as san\u00e7\u00f5es devidas.<\/p>\n<p>Enfim, poderia listar uma s\u00e9rie de nomes aqui. De Lula a FHC. De Maluf a Brizola. De Collor a Sarney. De ACM a Miguel Arraes. Qu\u00e9rcia, Z\u00e9 Dirceu, entre outros. Todos desabrocharam e viraram flores do p\u00e2ntano&#8230;<\/p>\n<p>Pol\u00edticos que se dizem da nova gera\u00e7\u00e3o, digamos, como Alckmim e A\u00e9cio, tamb\u00e9m n\u00e3o inspiram confian\u00e7a porque representam um sistema pol\u00edtico\/partid\u00e1rio decadente que a\u00ed est\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas e d\u00e9cadas. Que anuncia mudar tudo para nada mudar.<\/p>\n<p>S\u00e3o, a meu ver, a perpetua\u00e7\u00e3o do que o jurista e escritor, Raymundo Faoro, um dia chamou de &quot;os donos do Poder&quot;.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Valho-me para terminar de uma cita\u00e7\u00e3o do pensador italiano Ant\u00f4nio Gramsci. Sejamos, pois, \u201cc\u00e9ticos no pensamento e otimistas na a\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 bem prov\u00e1vel que, para a constru\u00e7\u00e3o de uma Na\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e justa, seja mesmo indispens\u00e1vel vencer tais etapas, demolir mitos e construir a verdade de um Brasil de todos os brasileiros.<\/p>\n<p>Nunca a frase me soou t\u00e3o necess\u00e1ria e urgente \u2013 e olha que n\u00e3o foram poucas as vezes que a escrevi em forma de desejo e f\u00e9 no amanh\u00e3.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Um adendo.  <\/p>\n<p>Taiguara foi um cantor\/compositor de sucesso na virada dos anos 70. Autor de uma can\u00e7\u00e3o-hino para \u00e9poca, chamada &#8216;Hoje&#8217;, que inspirou o t\u00edtulo e o tom destas linhas malescritas. <\/p>\n<p>Seus versos iniciais dizem:<\/p>\n<p>&quot;Hoje trago em meu corpo as marcas do meu tempo.<br \/>\n Meu desespero, a vida num momento.<br \/>\n A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Taiguara foi perseguido pela Ditadura e se auto-exilou. Morreu em 14 de fevereiro de 1996.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desalento.<\/p>\n<p>Com este sentimento \u2013 pr\u00f3prio \u00e0s can\u00e7\u00f5es de Taiguara \u2013 v\u00e3o \u00e0s urnas hoje os brasileiros da minha gera\u00e7\u00e3o &#8211; sejamos generosos com o conceito antigo de gera\u00e7\u00e3o,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10398","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10398","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10398"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10398\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17462,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10398\/revisions\/17462"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}