{"id":10578,"date":"1976-07-30T00:00:00","date_gmt":"1976-07-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:19:38","modified_gmt":"2017-09-15T19:19:38","slug":"e-o-novo-sempre-vem-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/e-o-novo-sempre-vem-2\/","title":{"rendered":"E o novo sempre vem&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>II.<\/p>\n<p>E O NOVO SEMPRE VEM&#8230;<\/p>\n<p>Os anos 60. Corridos e saudavelmente tumultuados. Musicalmente, ent\u00e3o, eram agitados, revolvidos, revirados por movimentos que se sucediam, se intercalavam e, n\u00e3o raras vezes, chegavam a se defrontar. Sempre convulsionados pelas peri\u00f3dicas explos\u00f5es dos festivais que espocavam aqui e ali \u2013 invariavelmente com grande repercuss\u00e3o. E de quebra, bem, de quebra ainda havia a cumplicidade e o registro da televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Tempos idos e vividos. Tempos euf\u00f3ricos, sem d\u00favida. Dos auspiciosos encontros musicais no velho Teatro Paramount, comandados por Walter Silva, o Pica-pau. Da brasilidade do Fino da Bossa, com Elis e Jair Rodrigues. Da rever\u00eancia do Bossasaudade que mexeu no ba\u00fa de sonhos e encantos de Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro. Da revolu\u00e7\u00e3o bem-comportada, inconsciente e juvenil de Roberto, Erasmo e Wanderl\u00e9a, a Jovem Guarda. E do Tropicalismo at\u00e9 como resultado de tudo o que se fez, se assimilou, se vivenciou durante a d\u00e9cada. <\/p>\n<p>Para muitos o movimento encabe\u00e7ado pelos baianos Gil e Caetano foi o cl\u00edmax de um ciclo de ineg\u00e1vel riqueza para a m\u00fasica popular brasileira. Quer em termos est\u00e9ticos, quer em em termos culturais e sociais.<\/p>\n<p>Fim da d\u00e9cada. Emblematicamente Paulinho da Viola canta \u2018Sinal Fechado\u2019 no \u00faltimo Festival da Record. Eram os pren\u00fancios de que o sonho estava prestes a se acabar. Caetano se indisp\u00f5e com a uivante plat\u00e9ia do Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o e em pleno Maracan\u00e3zinho grita sua indigna\u00e7\u00e3o: <\/p>\n<p>\u201c\u00c9 essa a juventude que quer tomar o Poder neste Pa\u00eds?\u201d <\/p>\n<p>Juntamente com Gil, que se limita a um fagueiro \u201cAquele Abra\u00e7o\u201d, parte para Londres. Antes deles, Geraldo Vandr\u00e9, que entre outras quest\u00f5es tamb\u00e9m falou de flores, tamb\u00e9m sai do Pa\u00eds. Motivos id\u00eanticos aos que levaram Chico Buarque para a It\u00e1lia. Enquanto isso, Milton Nascimento recebe e aceita os primeiros convites para apresenta\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos. O mesmo acontece com Edu Lobo e muitos outros. Nada mais pode ser feito. Nada que tenha a mesma garra, a mesma carga de inova\u00e7\u00f5es ou sequer os mesmos compromissos e consci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 MAIS OU MENOS POR ESSA \u00c9POCA, pouco tempo depois, que a gera\u00e7\u00e3o de briga come\u00e7a a aparecer. Vindos de v\u00e1rios pontos do Pa\u00eds, cantores\/compositores\/m\u00fasicos foram chegando em bandos, tribos ou mesmo isoladamente ao que eles pr\u00f3prios convencionaram chamar de Sulmaravilha. <\/p>\n<p>Traziam em seus alforjes experi\u00eancias diversas, muitas id\u00e9ias, outras tantas emo\u00e7\u00f5es, sons diferentes e h\u00edbridos. Trouxeram novas can\u00e7\u00f5es. Ao contrario dos antecessores, os Belchior, os Bosco, os Melodia, os Gonzaguinha n\u00e3o adotaram uma linha definida e coletiva para o trabalho de cada um. Mesmo em grupos, preservaram a individualidade e detestavam r\u00f3tulos, imposi\u00e7\u00e3o e a alcunha de \u201cnovos\u201d. <\/p>\n<p>De cara, os obst\u00e1culos come\u00e7am a pintar: a indiferen\u00e7a dos programadores de emissoras de r\u00e1dio, o hor\u00e1rio nobre da TV irremediavelmente perdido para a telenovela, o desinteresse das gravadoras e as mazelas empresariais.<\/p>\n<p>Mesmo assim continuaram, alguns at\u00e9 estoicamente. E foram se impondo. Abriram e conquistaram novos espa\u00e7os. Deram vez \u00e0 sua m\u00fasica \u2013 invariavelmente elogiada pelos cr\u00edticos, mas distante do grande p\u00fablico. <\/p>\n<p>Mesmo assim, de show em show, ano a ano, sedimentaram um trabalho, no m\u00ednimo, honesto, sincero e \u2013 talvez a maior contribui\u00e7\u00e3o \u2013 comprometido com a realidade brasileira. Com as agruras e as preocupa\u00e7\u00f5es de um tempo obscuro, marcado pelo autoritarismo. <\/p>\n<p>&#8212; Eles s\u00e3o muitos, mas n\u00e3o podem voar, diz a can\u00e7\u00e3o de Ednardo.<\/p>\n<p>Um exemplo t\u00edpico dessa gera\u00e7\u00e3o, o cantor\/compositor Raimundo Fagner Candido Lopes, aos 26 anos incompletos, foi quem melhor definiu a posi\u00e7\u00e3o pouco c\u00f4moda dos autores da \u00e9poca. Saliente-se que ele pr\u00f3prio agencia a pr\u00f3pria carreira, pois reconhece que \u201ca paci\u00eancia com os mercadores da m\u00fasica terminou h\u00e1 muito tempo\u201d. <\/p>\n<p>&#8212; Eu sou um cara que consigo as coisas porque vou l\u00e1 e brigo. N\u00e3o quero saber se tem secret\u00e1ria mandando eu entrar ou n\u00e3o. Vou l\u00e1 e pergunto qual \u00e9? Quando voc\u00ea conversa com esses caras de gravadoras, parece que voc\u00ea est\u00e1 falando de laranjas e bananas. Os caras que mais odeiam m\u00fasica s\u00e3o os que trabalham com ela. A m\u00fasica brasileira est\u00e1 num quase, numa v\u00e9spera. O sistema \u00e9 o que atrasa a explos\u00e3o. Se derem vez as pessoas certas, a\u00ed o neg\u00f3cio estoura. Mas, do jeito que est\u00e1, a gente s\u00f3 pode mesmo chegar no dono da gravadora e esculhambar.<\/p>\n<p>H\u00e1 aproximadamente dois anos, esse quase, essa v\u00e9spera se fizer sentir mais acentuadamente. Em 1974, at\u00e9 um festival, de ingl\u00f3ria lembran\u00e7a, se promoveu para a divulga\u00e7\u00e3o de novos autores. Foi o \u2018Abertura\u2019, lembram? Antes disso, o mago Raul Seixas, outro ilustre representante dos malditos, liderou a lista dos mais vendidos, com \u2018Ouro de Tolo\u2019 (300 mil c\u00f3pias). Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc enfileiraram, no ano passado, v\u00e1rias composi\u00e7\u00f5es na mesma lista \u2018dos mais mais\u2019. E, como prova indiscut\u00edvel de consolida\u00e7\u00e3o junto ao p\u00fablico, nada menos que dez desses \u2018rec\u00e9m-chegados\u2019 lan\u00e7aram elep\u00eas nos primeiros seis meses deste ano. Todos cuidadosamente elaborados e com uma divulga\u00e7\u00e3o alguns pontos mais atuantes.<\/p>\n<p>Isso sem contar o recurso extremo: a inclus\u00e3o de algumas m\u00fasicas em trilhas sonoras de telenovelas, caso espec\u00edfico de Luiz Melodia (\u201cJuventude Transviada\u201d), Ednardo (\u201cPav\u00e3o Mysterioso\u201d) e Jo\u00e3o Bosco\/Alcir Blanc (\u201cLatin Lover\u201d).<\/p>\n<p>Inegavelmente, depois de consagrados entre cr\u00edticos e celebridades do mundo musical, a gera\u00e7\u00e3o de briga parece estar conquistando finalmente o merecido reconhecimento popular. Sinal que pode ser facilmente detectado na boa receptividade dos discos de Walter Franco (Revolver), Luiz Melodia (Maravilhas Contempor\u00e2neas) e Alceu Valen\u00e7a (Alceu Valen\u00e7a Vivo). Ou no expressivo acolhimento que o p\u00fablico vem dedicando \u00e0s m\u00fasicas de Belchior,<br \/>\nque contribu\u00edram e muito para o consistente \u00eaxito do show de Elis Regina (\u201cFalso Brilhante\u201d) e que constam do disco \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d. <\/p>\n<p>O que de certa forma atesta a predestina\u00e7\u00e3o registrada pelo autor cearense em \u201cComo Nossos Pais\u201d: <\/p>\n<p>\u201cO novo sempre vem\u201d, mesmo que alguns anos mais tarde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>II.<\/p>\n<p>E O NOVO SEMPRE VEM&#8230;<\/p>\n<p>Os anos 60. Corridos e saudavelmente tumultuados. 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