{"id":10590,"date":"2007-04-26T00:00:00","date_gmt":"2007-04-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:32","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:32","slug":"sem-fundos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sem-fundos\/","title":{"rendered":"Sem fundos"},"content":{"rendered":"<p>Amigos, acabei de ser informado: estou sem fundos&#8230;<\/p>\n<p>Como assim?<\/p>\n<p>Explico logo para por fim a especula\u00e7\u00f5es indevidas e desnecess\u00e1rias. Explico tamb\u00e9m para, de alguma forma, refletirmos juntos sobre minha indigna\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, permitam-me, sentimento que  deve ser o mesmo de outros tantos milh\u00f5es de brasileiros na hora exata em que somos informados, pelo o contador ou algu\u00e9m que o valha, do tamanho da dentada que o tal Le\u00e3o do Imposto de Renda vai dar em nosso parco dinheiro. <\/p>\n<p>J\u00e1 perceberam do que falo, n\u00e3o?  <\/p>\n<p>Pois \u00e9. Pagar durante o ano todo paguei. Mas, mesmo assim, o bicho veio bravo, voraz \u2013 e abocanhou os trocados que me restavam no banco. N\u00e3o eram muitos, n\u00e3o. Mas, olha, subi e desci, fui e voltei, pra l\u00e1 e pra c\u00e1 \u2013 tudo para sobrar algum que me permitisse uma santa folguinha nas contas do m\u00eas. At\u00e9 que estava indo bem. Janeiro, fevereiro, mar\u00e7o, abril. Fechei a m\u00e3o o quanto pude. Mas, l\u00e1 do outro lado da linha, a voz \u00e9 pacienciosa, mas firme:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 tanto&#8230;<\/p>\n<p>Do lado de c\u00e1, acuso o golpe. \u00c9 o rapa. Ent\u00e3o, tento espernear. Fiquei sem ch\u00e3o. Respondo que \u00e9 imposs\u00edvel. Tem algum equ\u00edvoco a\u00ed. \u00c9 um absurdo. N\u00e3o vou pagar e outras broncas mais.<\/p>\n<p>Na verdade, brigo comigo mesmo. Como se nada ouvisse, o contador continua com as explica\u00e7\u00f5es cab\u00edveis, como se n\u00e3o fosse com ele. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 mesmo. Mas d\u00e1 at\u00e9 para entender. Afinal, creio at\u00e9 que, antes de come\u00e7ar o per\u00edodo de declara\u00e7\u00f5es do imposto de renda, esses senhores re\u00fanem-se num mosteiro budista e preparam-se para as mais escrachadas rea\u00e7\u00f5es de seus clientes. Imagino que seja assim. Todos devem reagir como eu diante de not\u00edcias t\u00e3o desastrosas &#8211; e que s\u00f3 eles podem nos dar.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor vai pagar em quantas vezes&#8230;<\/p>\n<p>Tal e qual uma til\u00e1pia no anzol, entregue \u00e0 pr\u00f3pria sorte, cansada de me debater em v\u00e3o, curvo-me diante do insond\u00e1vel destino de todos n\u00f3s, assalariados. Morremos na praia do sonhar.<\/p>\n<p>&#8212; Em quantas pode? &#8211; respondi <\/p>\n<p>&#8212; At\u00e9 em oito vezes, mas aviso que haver\u00e1 juros reajust\u00e1veis m\u00eas a m\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>Nova sess\u00e3o de improp\u00e9rios da minha parte, como se ele fosse culpado. Em v\u00e3o. O monge-contador continua at\u00e9 que generoso.<\/p>\n<p>&#8212; Fazemos em quantas, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Em oito.<\/p>\n<p>Desliguei o telefone. E ele, apiedado da minha sorte, at\u00e9 agradece minha aten\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o revela quanto vai cobrar pelos seus servi\u00e7os. Fico at\u00e9 sem gra\u00e7a da minha falta de polidez. Mas, ele deve entender. Mesmo assim continuei a ruminar o indigesto capim. N\u00e3o vou nem entrar na quest\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o do quanto me tungaram. N\u00e3o vou falar do sal\u00e1rio dos deputados, dos gastos do Pan, da farra dos programas sociais, da tal Lei Ruanet, enfim \u2013 deixa pra l\u00e1&#8230; <\/p>\n<p>Deixa pra l\u00e1 sen\u00e3o me irrito mais. <\/p>\n<p>N\u00e3o sei porque lembrei de um antigo filme da Atl\u00e2ntica. A Dercy Gon\u00e7alves era uma pobretona, endividada at\u00e9 \u00e0s tampas. Passa o filme todo para fazer valer seus direitos de \u00fanica herdeira de um parente distante e milion\u00e1rio. Depois de muitas atrapalhadas, consegue por a m\u00e3o em uma substancial dinheirama. <\/p>\n<p>Neste exato momento, forma-se uma roda de credores ao redor. \u00c0 medida que quita as suas d\u00edvidas, a pilha de dinheiro vai baixando, baixando&#8230; At\u00e9 que ela fica apenas com um chuma\u00e7o de notas na m\u00e3o. <\/p>\n<p>Os credores foram embora felizes. S\u00f3 restou um mendigo, de olho grande no dinheirinho.<\/p>\n<p>&#8212; Ta olhando o qu\u00ea \u2013 pergunta Dercy que, ali\u00e1s, sequer espera a resposta. D\u00e1 o dinheiro para o coitado e fica a zero, com cara de ot\u00e1ria:<\/p>\n<p>&#8212; Pega logo e some, antes que apare\u00e7a mais algu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se me deixei influenciar pelo enredo. Sei que liguei para o contador \u2013 e fiz a ressalva:<\/p>\n<p>&#8212; Mudei de id\u00e9ia. Vou pagar tudo de um s\u00f3 vez.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o perguntou. Mas fiz quest\u00e3o de explicar:<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 imaginou durante os pr\u00f3ximos oito meses, quando for pagar a cota, reviver a mesma sensa\u00e7\u00e3o de hoje, de que estou sendo espoliado&#8230;<\/p>\n<p>Nesse filme chamado vida, quando o cen\u00e1rio \u00e9 um tal Pa\u00eds de nome Brasil, trabalhamos o ano inteiro. Mas, ao imaginarmos protagonista da hist\u00f3ria, percebemos logo que fazemos sempre o papel de ot\u00e1rio. E, coitados, ficamos sempre sem nenhum.<\/p>\n<p>Vida que segue&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amigos, acabei de ser informado: estou sem fundos&#8230;<\/p>\n<p>Como assim?<\/p>\n<p>Explico logo para por fim a especula\u00e7\u00f5es indevidas e desnecess\u00e1rias. 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