{"id":10591,"date":"2007-04-26T00:00:00","date_gmt":"2007-04-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:30:03","modified_gmt":"2017-09-13T19:30:03","slug":"de-chico-a-chiclete-integra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/de-chico-a-chiclete-integra\/","title":{"rendered":"De Chico a Chiclete (\u00cdntegra)"},"content":{"rendered":"<p>Para Maria Tchilian, Greice e Serginho Gandolphi,<br \/>\nautores do document\u00e1rio e do projeto.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de dois anos e tanto, tr\u00eas alunos do oitavo semestre de jornalismo, da Unviersidade Metodista, vieram falar comigo. Preparavam o pr\u00e9-projeto do seu trabalho de conclus\u00e3o de curso, o esperado TCC. Queriam fazer um document\u00e1rio de TV e traziam uma id\u00e9ia a partir de um t\u00edtulo genial: De Chico a Chiclet.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 poss\u00edvel, professor?<\/p>\n<p>Eles estavam ressabiados, pois alguns dos meus pares n\u00e3o viram qualquer rela\u00e7\u00e3o entre os dois nomes. E os dois momentos da m\u00fasica popular brasileira.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim? &#8211; perguntei.<\/p>\n<p>Na verdade, a pergunta foi s\u00f3 um recurso para tomar f\u00f4lego e ajeitar as id\u00e9ias na cabe\u00e7a. De pronto, a proposta me entusiasmou. Avisei-os que iria pensar no tema e como estruturar a tal trajet\u00f3ria. Todos esses a\u00eaa\u00eaa\u00eaa\u00ea do carnaval baiano n\u00e3o caiu do c\u00e9u, de gra\u00e7a, nos anos 90. Tem uma hist\u00f3ria a\u00ed. N\u00e3o poderia ser o orientador oficial do grupo. Nada entendo de TV &#8211; sempre fui um dinossauro do texto impresso. Mas, poderia, sim, tra\u00e7ar uma trajet\u00f3ria da m\u00fasica pra pular brasileira que lhes poderia ser \u00fatil.<\/p>\n<p>\u00c9 esta trajet\u00f3ria que trago at\u00e9 voc\u00eas.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>1969. Paulinho da Viola vence o \u00faltimo Festival de M\u00fasica Popular Brasileira da TV Record com a m\u00fasica \u201cSinal Fechado\u201d. A can\u00e7\u00e3o revela a dist\u00e2ncia e o reencontro de um homem e uma mulher, com uma hist\u00f3ria comum, que casualmente se cruzam no tr\u00e2nsito de uma grande cidade. Revela tamb\u00e9m a opress\u00e3o em que vive a sociedade brasileira, o cuidado no dizer as coisas, a ang\u00fastia do nada a dizer. Ou a dor de n\u00e3o poder dizer nada.<\/p>\n<p>Esse quase samba, quase bossa, quase-quase de Paulinho d\u00e1 t\u00edtulo ao elep\u00ea de Chico Buarque de 1972 em que o cantor\/compositor aparece s\u00f3 como int\u00e9rprete de v\u00e1rios autores, pois suas m\u00fasicas n\u00e3o conseguem furar o bloqueio da censura.<\/p>\n<p>Assim, como Machado de Assis definiu Capitu (&#8220;Capitu \u00e9 Capitu&#8221;), Chico Buarque \u00e9 Chico Buarque. Neste disco, aparece como autor apenas na letra em que assina como Julinho da Adelaide.<\/p>\n<p>Mais do que um codinome, Julinho da Adelaide ganha vida pr\u00f3pria nas entrevistas e reportagens. Chico o apresenta como um t\u00edpico malandro dos morros cariocas, autor de \u201cChame Um Ladr\u00e3o\u201d, faixa dois do lado A. Todos acreditam!<\/p>\n<p>Com tal recurso, consegue driblar a censura e ver aprovada outra m\u00fasica que n\u00e3o est\u00e1 no disco, mas foi registrada em vinil pelo MPB4: \u201cJorge Maravilha&#8221;.<\/p>\n<p>O refr\u00e3o diz:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o gosta de mim.<br \/>\nMas sua filha gosta\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 um quase rock, quase bai\u00e3o em que dizem Chico se referia \u00e0 filha do presidente Ernesto Geisel, Luci, que adorava suas can\u00e7\u00f5es. Um contra-senso visto que os censores do Governo Geisel eram implac\u00e1veis com as letras do autor de \u201cRoda Viva\u201d.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Os baianos Gil e Caetano voltam de Londres transformados. Gil flerta com o rock (&#8220;Get To Bahia&#8221;) e o existencialismo (&#8220;Oriente&#8221;). Caetano vai nas \u00e1guas do experimentalismo (Ara\u00e7\u00e1 Azul) e da provoca\u00e7\u00e3o andr\u00f3gina em seus shows.<\/p>\n<p>Em 76, lan\u00e7a um disco pol\u00eamico: Bicho. Prop\u00f5e que todos caiam na dan\u00e7a mesmo em tempos obscuros.<\/p>\n<p>A letra da can\u00e7\u00e3o &#8220;Odara&#8221; tem um apelo indiscut\u00edvel:<\/p>\n<p>\u201cDeixa eu dan\u00e7ar<br \/>\nPro meu corpo ficar odara<br \/>\nMinha cara<br \/>\nMinha cuca ficar odara<br \/>\nDeixe eu cantar<br \/>\nQue \u00e9 pro mundo ficar odara<br \/>\nPra ficar tudo j\u00f3ia rara<br \/>\nQualquer coisa que<br \/>\nse sonhara<br \/>\nCanto e dan\u00e7o que dar\u00e1\u201d<\/p>\n<p>Gilberto Gil, \u00e0 mesma \u00e9poca, conclui a trilogia de discos \u2013 Refazenda, Refavela \u2013 com Realce, em que sacramenta, luminoso e iluminado:<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais purpurina melhor\u201d.<\/p>\n<p>Refazenda tem apego a aldeia, \u00e0s origens baianas, ao sert\u00e3o. Refavela fala de urbanidade e Realce cai no mundo, \u00e0s favas os limites. Num show do Col\u00e9gio Equipe em S\u00e3o Paulo \u00e9 vaiado pelos componentes da Libelu (Liberdade e Luta) e outras alas das esquerdas estudantil. No show do dia seguinte, um domingo \u00e0 tarde, como resposta apresenta a vers\u00e3o \u201cN\u00e3o, N\u00e3o Chore Mais\u201d, de Bob Marley. Ao que se tem registro, \u00e9 a primeira apari\u00e7\u00e3o do reggae por aqui.<\/p>\n<p>&#8220;Amigos presos,<br \/>\namigos sumidos assim.<br \/>\nEu sei&#8230; Pra nunca mais &#8220;.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na segunda metade dos anos 70, o cr\u00edtico musical, compositor e jornalista, N\u00e9lson Motta, fala que a MPB vive uma nova fase. E, a partir de ent\u00e3o, o que vale \u00e9 a \u2018M\u00fasica Pra Pular Brasileira\u2019. Na esteira dessa declara\u00e7\u00e3o, \u00e9 empres\u00e1rio e idealizador do grupo Fren\u00e9ticas que re\u00fane seis ex-gar\u00e7onetes da primeira discoteca brasileira, chamada \u2018Circo Voador\u2019, no Rio de Janeiro. De propriedade do mesmo Nelson Motta e popularizada pela novela Dancing Days, com Ant\u00f4nio Fagundes e S\u00f4nia Braga.<\/p>\n<p>De certo modo implanta-se, mesmo em tempos de redemocratiza\u00e7\u00e3o, a gandaia musical. E raros s\u00e3o os que n\u00e3o se divertem sacudindo o esqueleto &#8212; o que at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 70 era quase uma heresia. Afinal, diziam, \u201cvivemos em plena ditadura\u201d.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Ainda nos anos 70, como m\u00fasica dan\u00e7ante e de alguma import\u00e2ncia a vit\u00f3ria de \u201cFio Maravilha\u201d, de Jorge Benjor, interpretada por Maria Alcina no Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o e o fen\u00f4meno \u201cSecos e Molhados\u201d, com a apari\u00e7\u00e3o de Ney Matogrosso e seus requebros censurados pela TV.<\/p>\n<p>Duas p\u00e9rolas anarquicas inconceb\u00edveis para tempos tristes e ditatoriais. Mas, que agradaram a todos &#8211; e mais alguns. Coisas do Brasil&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem chame os anos 80 de a d\u00e9cada perdida em termos culturais. At\u00e9 o papa vira pop. A MPB, idem.<\/p>\n<p>Configura-se o predom\u00ednio do rock a partir da explos\u00e3o da Blitz logo no in\u00edcio da d\u00e9cada. Lulu Santos (com N\u00e9lson Motta como parceiro em v\u00e1rias m\u00fasicas), Legi\u00e3o, Paralamas, Tit\u00e3s e Cazuza integram o primeiro time dessa gera\u00e7\u00e3o. Que ainda tem L\u00e9o Jaime, Lob\u00e3o, Marina Lima, Ira e menos cotados.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada tamb\u00e9m fica marcada pelos grandes festivais, agora com outro formato. A celebra\u00e7\u00e3o substitui a competi\u00e7\u00e3o. Protestos mesmo, s\u00f3 quando a m\u00fasica acaba. Ou quando o pessoal vaia o rock bem-comportado do Kid Abelha e Herbet Viana, de olho na vocalista Paula Toller, manda a \u2018galera\u2019 ir pra casa aprender a tocar guitarra. Holywood Rock, Rock in Rio e assemelhados s\u00e3o sempre realizados em est\u00e1dios com ampla capacidade de lota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Importante destacar que, nesse per\u00edodo, quem se consagra como grande nome de vendas \u00e9 a paulistana Rita Lee. S\u00f3 que, com um som de letras insinuantes e bem-humoradas. As melodias simples, muitas vezes, trazem o andamento das velhas marchinhas carnavalescas. \u201cChega Mais\u201d, \u201cLan\u00e7a Perfume\u201d e todas as outras que ainda hoje as r\u00e1dios n\u00e3o se cansam de tocar.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 a baianidade ou a nordestinidade que p\u00f5e o esqueleto para requebrar. E para isso talvez seja importante voltarmos aos anos 70.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Fiz essa meia volta, na verdade, s\u00f3 para dar liga ao texto. Voc\u00eas me entender\u00e3o, acreditem.<\/p>\n<p>Meus caros, \u201c\u00e9 ferro na boneca, \u00e9 no gog\u00f3, nen\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Com essa belezura de filosofia aportaram no sulmaravilha, em fins dos anos 60, tr\u00eas baianos e uma carioca, mas baiana de alma, cora\u00e7\u00e3o e escambo.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, era um terror defrontar-se com Moraes Moreira, Paulinho Boca-de-Cantor, Baby Consuelo e o compositor Moraes, ainda an\u00f4nimos cantantes das quebradas paulistanas. Eram uma vers\u00e3o tupiniquim da gera\u00e7\u00e3o hippye, com exageros e desmantelos. Dos cabelos \u00e0s roupas. Das apresenta\u00e7\u00f5es quase amadoras \u00e0 m\u00fasica estridente.<\/p>\n<p>Mas, em termos de balan\u00e7o e inventividade, os Novos Baianos revelaram-se imbat\u00edvel a partir do disco Acabou Chorare. Neste trabalho, j\u00e1 com a participa\u00e7\u00e3o de Pepeu Gomes, Dadi e outros, misturaram chorinho, rock, samba e o que mais pintasse. Foi um estrondo \u2013 uma tijolada nos vitrais das obviedades e do conservadorismo.<\/p>\n<p>O sucesso dos Novos Baianos inflou o ego de seus participantes que logo se lan\u00e7aram em carreira solo. Moraes Moreira foi o primeiro a sair. Baby e Pepeu logo seguiram o mesmo destino, depois de serem proibidos de entrar na Disneyl\u00e2ndia para n\u00e3o fazer concorr\u00eancia ao Mickey e ao Pato Donald. Paulinho Boca de Cantor, mais reticente, esperou um tempo, mas tamb\u00e9m caiu na estrada numa carreira mais modesta. O baixista Dadi foi compor junto com o tecladista Mu e o Armandinho o grupo A Cor do Som.<\/p>\n<p>O guitarrista Armandinho \u00e9 filho do lend\u00e1rio, fundador do primeiro trio el\u00e9trico: O Trio El\u00e9trico de Dod\u00f4 e Osmar. O disco Muitos Carnavais, de Caetano Veloso (que inclui a agitada \u201cChuva, Suor e Cerveja\u201d) e hits como \u201cFesta do Interior\u201d (gravada por Gal Costa) e \u201cPombo Correio\u201d, ambas de Moraes, \u201cPalco\u201d de Gilberto Gil com A Cor do Som, \u201cMasculino Feminino\u201d de Pepeu e \u201cMenino do Rio\u201d (Caetano Veloso) e \u201cTel\u00farica\u201d com Baby Consuelo e prepararam terreno para o resgate do trio el\u00e9trico e do carnaval baiano.<\/p>\n<p>Assim os anos 80 se encerram com a alta do carnaval baiano. E o surgimento dos precursores do ax\u00e9: Luiz Caldas, Cid Guerreiro e o grupo Asa de \u00c1guia.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>A nova d\u00e9cada desponta sob a \u00e9gide do Governo Collor. Da m\u00fasica sertaneja (em 89, Xit\u00e3ozinho e Choror\u00f3 realizaram o primeiro show num casa considerada tipicamente classe m\u00e9dia em S\u00e3o Paulo, o Olympia) e da lambada (creiam, mas \u00e9 verdade e dou f\u00e9). O principal nome do dito g\u00eanero, igualmente dan\u00e7ante, voc\u00eas devem lembrar, era o qualquer-coisa Beto Barbosa. N\u00e3o tor\u00e7am o nariz, mas a garotada deu de gostar do molejo do cidad\u00e3o e a lambada, por mais chinfrim que pare\u00e7a, foi importante para implodir todo e qualquer preconceito quanto aos ritmos do norte e nordeste.<\/p>\n<p>Em 92, a baiana Daniela Mercoury vem a S\u00e3o Paulo caitituar seu primeiro disco e a praga do ax\u00e9-music se espalha por toda a cidade, estado, Pa\u00eds. A\u00ed, o sulmaravilha descobre que existem outras bandas, entre as quais o Chiclete Com Banana.<\/p>\n<p>O resto da hist\u00f3ria&#8230; Bem. Para ser sincero, n\u00e3o sei contar. Mas, aposto, a garotada que me l\u00ea sabe de cor e salteado. P\u00f5e salteado nisso.<\/p>\n<p>&#8220;Tira o p\u00e9 do ch\u00e3o, galera!&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Maria Tchilian, Greice e Serginho Gandolphi,<br \/>\nautores do document\u00e1rio e do projeto.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de dois anos e tanto, tr\u00eas alunos do oitavo semestre de jornalismo, da Unviersidade Metodista,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-10591","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leia-esta-cancao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10591","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10591"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10591\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13851,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10591\/revisions\/13851"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10591"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10591"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10591"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}