{"id":10593,"date":"2007-04-28T00:00:00","date_gmt":"2007-04-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:32","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:32","slug":"eu-ajudante-de-agrimensor-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/eu-ajudante-de-agrimensor-parte-2\/","title":{"rendered":"Eu, ajudante de agrimensor &#8211; Parte 2"},"content":{"rendered":"<p>IV.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 estudantes de jornalismo que ainda hoje se espantam com o termo \u2018agrimensor\u2019, imaginem a minha express\u00e3o quando a Dona Yolanda voltou da rua com uma verdade inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8212; Acabou a moleza. Voc\u00ea come\u00e7a amanh\u00e3 como ajudante de agrimensor. Vai trabalhar com o Alberto, meu primo, filho do tio J\u00falio.<\/p>\n<p>Para mim, tudo era uma grande novidade. N\u00e3o conhecia o Alberto, menos ainda o tio J\u00falio e, principalmente, o que viria a ser ajudante de agrimensor. A m\u00e3e estava decidida<\/p>\n<p>&#8212; Depois voc\u00ea conversa com seu pai.<\/p>\n<p>Lembro: estava preparando meu time de futebol de bot\u00e3o para um importante compromisso naquela tarde. Enfrentar\u00edamos o time do Astrogildo no campo de eucatex da casa dele \u2013 ou seja, no est\u00e1dio do advers\u00e1rio. Nem isso Dona Yolanda levou em considera\u00e7\u00e3o. Para ela, seria um cala-boca em todos que falavam de mim.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o, tentei argumentar com a verdade dos fatos.<\/p>\n<p>&#8212; M\u00e3e, amanh\u00e3 \u00e9 s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Como resposta, ouvi um indiferente \u201ce da\u00ed!\u201d.<br \/>\nPercebi, ent\u00e3o, que n\u00e3o haveria escapat\u00f3ria.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>E n\u00e3o teve mesmo.<\/p>\n<p>Manh\u00e3 de s\u00e1bado cinzento. L\u00e1 estou no come\u00e7o da avenida Ipiranga. 7 da matina. Ainda desacoro\u00e7oado com a realidade que me espera \u2013 e que, me parece, \u00e0 primeira vista bem pior do que o pai me explicara.<\/p>\n<p>&#8212; Agrimensor, top\u00f3grafo s\u00e3o a mesma coisa. Voc\u00eas v\u00e3o fazer a medi\u00e7\u00e3o e mapear as ruas para eventuais futuras obras ou mesmo um reparo. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo. Ser\u00e1 uma boa experi\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o era o fim do mundo ver todo mundo com cara de fim de semana e eu ali sem estar a fim de trabalhar. Mas, confesso, n\u00e3o me senti confort\u00e1vel ao ser apresentado a duas varinhas brancas com as extremidades vermelhas, \u00e0 trena e ao prumo. Era o meu kit  &#8216;oper\u00e1rio-padr\u00e3o&#8217;, muito prazer.  <\/p>\n<p>N\u00e3o riam, por favor, que eu paro a hist\u00f3ria por aqui&#8230;<\/p>\n<p>Minha fun\u00e7\u00e3o era razoavelmente simples. O top\u00f3grafo, primo Alberto, se posicionava no marco zero da rua, com um aparelho medidor sobre um trip\u00e9 (parecia uma mistura de c\u00e2mera de TV com um bin\u00f3culo, tinha visor, lente e tudo), e eu e mais outro ajudante estic\u00e1vamos a trena at\u00e9 determinado ponto. Grit\u00e1vamos a metragem que ele anotava num caderno de c\u00e1lculos e posicion\u00e1vamos a r\u00e9gua para que ele olhasse pelo visor da trapitonga e \u2018fechasse\u2019 com outras medidas que, na verdade, nunca me interessaram. <\/p>\n<p>Feito isso, ele vinha at\u00e9 onde est\u00e1vamos e n\u00f3s segu\u00edamos em frente para nova rodada de n\u00fameros e c\u00e1lculos que, repito, n\u00e3o me interessavam nadinha.<\/p>\n<p>Assim segu\u00edamos at\u00e9 o fim da rua&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 que n\u00e3o me sa\u00ed mal neste primeiro dia \u2013 especialmente na hora do almo\u00e7o, pago pela empresa. Fui apresentado a um tal de \u201cpicadinho\u201d, consistente prato pronto, que derrubei em segundos, acompanhado de um guaran\u00e1, refrigerante \u00e0 \u00e9poca s\u00f3 nos fins de semana e olhe l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Primo, voc\u00ea come r\u00e1pido, hein.<\/p>\n<p>Foi a vez de Alberto se espantar.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Terminamos os trabalhos por volta das 17 horas. A equipe do agrimensor Alberto encontrou-se com outra equipe medidora da mesma empresa na rua Nestor Pestana. Eles vieram da Consola\u00e7\u00e3o e todos saudamos o feliz encontro e, principalmente, o fim do expediente. Estava em cacos.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde o servi\u00e7o arrastou-se. Efeito da leseira que o picadinho provocou? Prov\u00e1vel. Ou o desalento por testemunhar as pessoas sem nada a fazer, indo aos cinemas ou mesma deixando-se largar em bares e restaurantes? Com certeza.  <\/p>\n<p>Eu ali. Pra l\u00e1 e pra c\u00e1. Estica daqui, puxa dali. Olha o prumo. Acerta a r\u00e9gua. Ser\u00e1 que eu perderia minha vaga de quarto-zagueiro titular do time de v\u00e1rzea da Vila Carioca, o invicto Bras\u00edlia (invicto porque perdia todas). \u00c0quela hora, o jogo devia estar correndo solto. Ser\u00e1 que trabalhar\u00edamos todos os s\u00e1bados? Ah, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah, sim, primo. Segunda-feira passo \u00e0s 8 na sua casa. Vamos come\u00e7ar uma medi\u00e7\u00e3o l\u00e1 pelos lados do aeroporto. Querem abrir uma via expressa l\u00e1. Vai se chamar avenida dos Bandeirantes&#8230;<\/p>\n<p>Era o primo Alberto, top\u00f3grafo, avisando da nossa pr\u00f3xima jornada. Hist\u00f3rica e breve jornada, como v\u00eaem. Que prometo contar amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IV.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 estudantes de jornalismo que ainda hoje se espantam com o termo \u2018agrimensor\u2019, imaginem a minha express\u00e3o quando a Dona Yolanda voltou da rua com uma verdade inabal\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10593","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10593","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10593"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10593\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17300,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10593\/revisions\/17300"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}