{"id":10624,"date":"2007-05-26T00:00:00","date_gmt":"2007-05-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:28","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:28","slug":"vinte-segundos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/vinte-segundos\/","title":{"rendered":"Vinte segundos"},"content":{"rendered":"<p>Da s\u00e9rie \u201co leitor tem sempre raz\u00e3o\u201d. <\/p>\n<p>Respondo a Analy C., amiga e jornalista que n\u00e3o vejo h\u00e1 mil\u00eanios. Ela me envia um texto publicado na revista Nova de maio e quer saber o que eu escreveria sobre o tema: a lei da atra\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>\u00c9 de autoria de um dos gurus da auto-ajuda, Roberto Shinyashiki, e prop\u00f5e que somos respons\u00e1veis por tudo de bom ou ruim que atra\u00edmos em nossas vidas. Conta uma s\u00e9rie de casos comuns aos nossos ouvidos \u2013 de pessoas que n\u00e3o emplacam uma certa, seja na vida afetiva, seja na profissional \u2013 e d\u00e1 uma lista de a\u00e7\u00f5es que, se respeitada, nos leva \u00e0 rota da felicidade. <\/p>\n<p>A mat\u00e9ria \u00e9 longa. Os procedimentos, um tanto rob\u00f3ticos, tipo: \u201cFa\u00e7a uma lista de desejos\u201d ou \u201cColoque energia nas suas realiza\u00e7\u00f5es\u201d. Mais: \u201cObserve suas cren\u00e7as negativas\u201d e \u201cAvance apesar dos fantasmas\u201d. E finalmente: \u201cCelebre Sempre!&quot; <\/p>\n<p>Confesso que deste \u00faltimo eu gostei. <\/p>\n<p>Assim como gosto sempre de lembrar a cena de um filme de Woody Allen. Ele interpreta um roteirista de TV que tem os originais dos textos que escreve, sistematicamente, alterados pela produ\u00e7\u00e3o, pelo diretor do programa e at\u00e9 pelo dono da emissora. Um belo dia, ele explode. N\u00e3o concorda com um reparo med\u00edocre que fizeram e sai, corredores afora, desancando a tudo e a todos. <\/p>\n<p>Palavr\u00f5es pra c\u00e1, palavr\u00f5es pra l\u00e1, acontece o \u00f3bvio: <\/p>\n<p>\u201cRUAAAAA!!!\u201d <\/p>\n<p>Nosso her\u00f3i diz que era isso mesmo que iria fazer e continua o p\u00e9riplo de xingamentos. J\u00e1 na rua, do lado de fora da emissora, olha abestalhado a impon\u00eancia do pr\u00e9dio onde trabalhava e conclui: <\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 vinte segundos de felicidade e, agora mam\u00e3e, estou desempregado. <\/p>\n<p>II. <\/p>\n<p>De volta ao artigo. <\/p>\n<p>Li mas n\u00e3o me aprofundei na an\u00e1lise, n\u00e3o. Reconhe\u00e7o, por\u00e9m, que uma certa disciplina s\u00f3 deve nos fazer bem. Ter uma \u2018pegada\u2019 otimista pode abrir portas. Saber organizar-se para enfrentar os desafios di\u00e1rios \u00e9 postura corret\u00edssima. Ser o que hoje esses senhores chamam de \u201cpr\u00f3-ativo\u201d, uma d\u00e1diva. <\/p>\n<p>Convenhamos, por\u00e9m. Ser\u00e1 que d\u00e1 para segurar essa barra 24 horas por dia, todos os dias? E as voltas das voltas que o mundo d\u00e1? A saber. De repente, n\u00e3o mais que de repente, abre a porta e surge a mo\u00e7a de sorriso largo e olhar que cativa, o que fa\u00e7o? \u00c9 o acaso. Quer deixar um envelope para algu\u00e9m que n\u00e3o est\u00e1 e me encontra. Proponho um caf\u00e9 para prolongar a perman\u00eancia dela por ali ou saco do bolso a listinha, leio atentamente e concluo: <\/p>\n<p>&#8212; Nem vem que hoje n\u00e3o \u00e9 o dia de voc\u00ea chegar. <\/p>\n<p>Outro exemplo. Agora \u00e9 voc\u00ea, Analy. <\/p>\n<p>Sei l\u00e1, imagine-se na Reda\u00e7\u00e3o a colocar \u201ctodas as energias positivas\u201d em suas  tarefas e surge um daqueles \u201cpepina\u00e7os\u201d comuns ao dia-a-dia dos jornalistas. Rebata logo, Analy, rebata: <\/p>\n<p>&#8212; Ch\u00f4, fantasma. Some, desaparece. N\u00e3o pautei voc\u00ea. <\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que vai se repetir a hist\u00f3ria dos \u201cvinte segundos de felicidade\u201d.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Me parece um pouco t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. Ou aquele preceito, fan\u00e1tico e miticamente religioso: se for bonzinho, ganhar\u00e1s o reino dos c\u00e9us. E aqui aproveito para contar outra filosofada de Woody Allen, que ali\u00e1s est\u00e1 bem retratada nos filmes \u201cMatch Point\u201d e \u201cMelinda, Melinda\u201d &#8212; assistam!<\/p>\n<p>Para Woody, sorte existe e \u00e9 fundamental na vida das pessoas \u2013 \u00e9 o tema do drama \u201cMatch Point\u201d. N\u00f3s, humanos, preferimos n\u00e3o acreditar nisso para que n\u00e3o fiquemos \u00e0 merc\u00ea sabe-se l\u00e1 do qu\u00ea. Ent\u00e3o, recorremos a algumas regras que, se n\u00e3o forem quebradas ou, no m\u00ednimo, n\u00e3o forem quebradas publicamente, nos trar\u00e3o uma vida tranq\u00fcila e razoavelmente feliz. <\/p>\n<p>De outro modo, e aqui entra o intrigante \u201cMelinda, Melinda\u201d, os instrumentos que comp\u00f5em o painel de nossas vidas s\u00e3o basicamente os mesmos. H\u00e1 quem os manipule para formatar um dramalh\u00e3o mexicano e h\u00e1 quem os domine  em tom de doce enredo de uma \u201ctrailler rom\u00e2ntico\u201d, com final feliz e trilha sonora de Carl Porter e Sinatra.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Vou lhe dar outro exemplo cinematogr\u00e1fico. <\/p>\n<p>Vem do filme \u201cAs Pontes de Madison\u201d. A dona de casa tem uma vida vulgar a cuidar do marido, um fazendeiro remediado, e de um casal de filhos aborrecentes. Os tr\u00eas precisam viajar por uma semana e ela (Meryl Streep) fica sozinha para cuidar do dia-a-dia do s\u00edtio. Eis sen\u00e3o quando aparece um fot\u00f3grafo charmoso e silencioso (Clint Eastwood) a clicar a regi\u00e3o para a National Geografic. <\/p>\n<p>Perceba: o cara n\u00e3o \u00e9 fraco, n\u00e3o. Tem estilo e pegada. E foi bater com os costados na casa da pacata senhora a fim de informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Onde era tal lugar, como se chega l\u00e1, em que horas a luz incide sobre a ponte famosa e cousa e lousa e maripousa.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que aconteceu o acontecido. <\/p>\n<p>Com a conviv\u00eancia, ficam amigos. Muito amigos. Rola um clima legal entre os dois, tanto que a gente, na plat\u00e9ia, fica na maior torcida. <\/p>\n<p>S\u00f3 que a fam\u00edlia volta num dia de chuva torrencial. E a senhorinha n\u00e3o sabe o que faz. O fot\u00f3grafo j\u00e1 terminou seu trabalho e s\u00f3 espera a decis\u00e3o. <\/p>\n<p>A cena \u00e9 qualquer coisa. Antol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Chove que chove. Ela est\u00e1 na cabine do caminh\u00e3ozinho furreba do marido \u2013 marido que, diga-se, nada sabe. Iam para a cidade, me parece. Numa encruzilhada, encontram com a camioneta do fot\u00f3grafo, tamb\u00e9m parada. Chove que chove, eu disse. H\u00e1 aquele momento de hesita\u00e7\u00e3o entre os motoristas. Quem passa primeiro. Vinte segundos, talvez. A m\u00e3o da mo\u00e7oila se aproxima da ma\u00e7aneta para abrir a porta e saltar rumo ao carro do \u2018lindo lind\u00e3o\u2019. Todos respiram fundo no cinema. Torcem para que ela diga sim \u00e0 vida. Afugente os fantasmas, coloque energia positiva no gesto e&#8230; <\/p>\n<p>E nada acontece.<\/p>\n<p>De volta ao s\u00edtio, a senhora encontra uma das c\u00e2meras do homem. Que guarda com carinho.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Desculpe-me caso algum leitor n\u00e3o tenha assistido ao filme. Estraguei o grande momento. Mas, foi necess\u00e1rio. Vou explicar o porqu\u00ea. Recentemente, encontrei uma amiga que \u2013 l\u00e1 pelas tantas \u2013 fez o caminho inverso da hero\u00edna do filme. Fiquei feliz com o reencontro. Quis saber da sua vida e lhe perguntei sobre o novo amor, tamb\u00e9m com algu\u00e9m da turma dos retratistas. Citei o filme, por acaso.<\/p>\n<p>A resposta foi sintom\u00e1tica.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!, meu caro, nem lhe conto. Devia ter ficado s\u00f3 com a m\u00e1quina e mandado o fot\u00f3grafo andar. <\/p>\n<p>S\u00e3o os tais vinte segundos, minha cara.<br \/>\nEles decidem tudo. Ou quase tudo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da s\u00e9rie \u201co leitor tem sempre raz\u00e3o\u201d. <\/p>\n<p>Respondo a Analy C., amiga e jornalista que n\u00e3o vejo h\u00e1 mil\u00eanios. 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