{"id":10625,"date":"2007-05-27T00:00:00","date_gmt":"2007-05-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:28","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:28","slug":"outono-de-1988","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/outono-de-1988\/","title":{"rendered":"Outono de 1988"},"content":{"rendered":"<p>Manh\u00e3 de outono de 1988. Uma das pequenas ruas arborizadas nos arredores do meu querido Parque da Aclima\u00e7\u00e3o. L\u00e1 estava eu, com caneta e bloco de anota\u00e7\u00f5es, para fazer uma reportagem sobre a obra do artista pl\u00e1stico, Gino Bruno, que falecera dez anos antes. Naquela ocasi\u00e3o, um grupo de amigos queria reverenciar sua mem\u00f3ria com a realiza\u00e7\u00e3o de uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna. <\/p>\n<p>Foi a primeira vez que visitei o ateli\u00ea de um pintor \u2013 no caso, o genro de Bruno, S\u00edlvio Alves, um dos idealizadores da mostra. Fiquei encantado com o festival de cores que banhavam o lugar de amplas janelas a permitir a plena invas\u00e3o da luz solar.<\/p>\n<p>Lembro da \u00eanfase que Alves deu \u00e0 necessidade de que o Pa\u00eds tinha (e tem) de preservar a sua identidade cultural, a partir de seus expoentes art\u00edsticos. \u201cSe em vida o grande p\u00fablico mal os conhece (os artistas), imagine, ent\u00e3o, depois que morrem\u201d \u2013 ponderou. Conclui que a reportagem precisaria ser a mais esclarecedora poss\u00edvel \u2013 did\u00e1tica at\u00e9 \u2013 e foi com este prop\u00f3sito que a escrevi para a Revista Afinal, onde foi publicada em 14 de junho de 1988.<\/p>\n<p>\u00c9 este texto que recuperei e, a partir de hoje, disponibilizo aqui. <\/p>\n<p>RETROSPECTIVA VALIOSA<\/p>\n<p>* O MASP vai expor, pela primeira vez, a obra de Gino Bruno<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana de vida, o pintor Gino Bruno acalentou a id\u00e9ia de ver ma retrospectiva de suas obras no Museu de Arte de S\u00e3o Paulo. Como se pressentisse a morte, Bruno procurou o amigo Pietro Maria Bardi, que se mostrou vivamente interessado em realizar a exposi\u00e7\u00e3o. Os detalhes foram todos acertados, mas dias depois (8 de setembro de 1977), o pintor morreu de enfarte aos 78 anos. \u201cO sonho, no entanto, permaneceu vivo em cada um de seus disc\u00edpulos, em cada um de seus admiradores\u201d \u2013 ressalta S\u00edlvio Alves, pintor, aluno e genro de Gino Bruno.<\/p>\n<p>S\u00edlvio \u00e9 um dos principais coordenadores do movimento de artistas pl\u00e1sticos que est\u00e1 organizando, para o segundo semestre deste ano, a t\u00e3o almejada retrospectiva no MASP. <\/p>\n<p>\u201cEstamos recolhendo as diversas obras de Gino Bruno nos museus e acervos particulares. Queremos reunir o maior n\u00famero poss\u00edvel de telas para tra\u00e7ar um perfeito painel da obra impressionista de Gino Bruno que, particularmente, considero um dos expoentes de nossa pintura, ao lado de C\u00e2ndido Portinari e Lazar Segall\u201d, explica S\u00edlvio em seu ateli\u00ea pr\u00f3ximo ao Parque da Aclima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele entusiasma-se ao comentar a obra do mestre, um artista reconhecido e premiado no Brasil e no Exterior.<\/p>\n<p>\u201cMeu sogro possu\u00eda um tra\u00e7o pessoal inconfund\u00edvel\u201d, explica S\u00edlvio. \u201cSempre foi bastante elogiado e, mesmo participando de movimentos renovadores como a Semana de Arte de 22, jamais se deixou levar pelos modismos. Tinha uma personalidade marcante \u2013 tra\u00e7o, ali\u00e1s, que passou para sua obra\u201d.<\/p>\n<p>S\u00edlvio lembra um texto do poeta Menotti Del Picchia, de 1947, verdadeira elegia ao trabalho de Gino Bruno: \u201cEnquanto os demais exp\u00f5em, polemizam, discutem, negam-se, elogiam-se, xingam-se \u2013 este pintor pinta. Pinta com fervor, com exaspera\u00e7\u00e3o, com absor\u00e7\u00e3o total do seu tempo\u201d.<\/p>\n<p>Em outra cr\u00f4nica, n\u00e3o menos elogiosa, Del Picchia compara a obra de Gino Bruno \u00e0 de C\u00e2ndido Portinari. Diz o cr\u00edtico e escritor: \u201cPortinari \u00e9 a t\u00e9cnica a servi\u00e7o da imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 a inquieta\u00e7\u00e3o em m\u00faltiplos caminhos. Bruno \u00e9 a t\u00e9cnica e a obstina\u00e7\u00e3o. A luta em profundidade (&#8230;) Portinari d\u00e1-me a id\u00e9ia de um astr\u00f4nomo que anseia por descobrir novas gal\u00e1xias e estrelas. Gino Bruno sugere-me o qu\u00edmico pesquisando a ess\u00eancia da mat\u00e9ria.Um \u00e9 din\u00e2mico e condoreiro e o outro est\u00e1tico e l\u00edrico\u201d.<\/p>\n<p>Natural da prov\u00edncia de Adria, na It\u00e1lia, Gino Bruno veio ainda crian\u00e7a para o Brasil, junto com os pais. Sempre viveu em S\u00e3o Paulo, onde estudou no Liceu de Artes e Of\u00edcios. Foi contempor\u00e2neo de pintores como Anita Malfati, Paulo Rossi Ozir, Tarsila Amaral, que agitaram a Semana de Arte Moderna em fevereiro de 1922.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 um pa\u00eds sem mem\u00f3ria\u201d, desabafa S\u00edlvio Alves. \u201cEm termos de artes visuais, ent\u00e3o, nem se fala. Sequer existe um acervo que assegure para a posteridade o not\u00e1vel conjunto de obras de artistas nacionais. Se em vida o grande p\u00fablico mal os conhece, imagine, ent\u00e3o, depois que morrem\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, S\u00edlvio e um grupo de amigos \u2013 todos apaixonados pela pintura \u2013 empenham-se para divulgar a obra de Gino Bruno, \u201crespons\u00e1vel por uma valiosa, inestim\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura brasileira\u201d.<\/p>\n<p>(* No blog, tem foto.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manh\u00e3 de outono de 1988. Uma das pequenas ruas arborizadas nos arredores do meu querido Parque da Aclima\u00e7\u00e3o. L\u00e1 estava eu, com caneta e bloco de anota\u00e7\u00f5es, para fazer uma reportagem sobre a obra do artista pl\u00e1stico,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10625"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10625\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17269,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10625\/revisions\/17269"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}