{"id":10632,"date":"2007-06-01T00:00:00","date_gmt":"2007-06-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:27","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:27","slug":"recordacoes-de-um-reporter","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/recordacoes-de-um-reporter\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es de um rep\u00f3rter"},"content":{"rendered":"<p>Queria que o t\u00edtulo desta prov\u00e1vel s\u00e9rie, que hoje inicio, fosse \u201cRecorda\u00e7\u00f5es do escriv\u00e3o (que n\u00e3o \u00e9 o) Isa\u00edas de Caminha\u201d. Queria&#8230; <\/p>\n<p>Se fosse, seria uma clara rever\u00eancia ao romance de Lima Barreto, lan\u00e7ado 1909. N\u00e3o \u00e9, mas continua sendo. Explico: acho oportuno lembrar a trama do livro, pois mostra o dia-a-dia de um jornalista e da reda\u00e7\u00e3o de um jornal carioca (seria o precursor do Jornal do Brasil), ainda na virada do s\u00e9culo 19 para o 20. Dizem que, por causa desta obra, ainda hoje o nome de Lima Barreto n\u00e3o pode ser citado nas p\u00e1ginas do JB. A dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa. Custo a crer, mas n\u00e3o duvido. Nada mudou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de longa para t\u00edtulo de post, a denomina\u00e7\u00e3o seria pretensiosa, imprecisa e desproporcional ao que aqui pretendo: registrar rapidamente observa\u00e7\u00f5es da minha trajet\u00f3ria de rep\u00f3rter &#8216;vira-lata&#8217;. N\u00e3o vou nem levar em conta o quanto de desproporcional que h\u00e1 entre este combalido escriba e o grande escritor brasileiro. Para alguns especialistas, Barreto tem a mesma dimens\u00e3o de Machado de Assis, que \u00e9 o maioral.<\/p>\n<p>Fiquemos, ent\u00e3o, com Recorda\u00e7\u00f5es de um rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>\u00d3bvio, mas eficiente.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Voc\u00eas podem n\u00e3o acreditar. \u00c0s vezes, nem eu acredito. Mas, a primeira vez que escrevi a palavra \u201cdesquitada\u201d num texto a ser publicado houve um burburinho na Reda\u00e7\u00e3o. Seria adeq\u00fcado ou n\u00e3o usar o termo para mostrar o estado civil de uma senhora. A mat\u00e9ria era sobre o Dia da Mulher e peguei depoimentos de algumas delas que trabalhavam fora de casa. Ano que isso aconteceu: 1974. Vale s\u00f3 para ver o quanto mudou o mundo.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Escrevi num texto: mussarela de b\u00fafala. <\/p>\n<p>Quando fui olhar a mat\u00e9ria na p\u00e1gina, haviam corrigido: mussarela de b\u00fafalo. Que absurdo. <\/p>\n<p>O texto viraria piada a partir dessa simples altera\u00e7\u00e3o. Quis saber quem foi o autor da proeza. Chamaram o secret\u00e1rio gr\u00e1fico que me passou para a revis\u00e3o (ainda havia revis\u00e3o no jornal). Fui direto e reto \u00e0 mesa dos revisores. Cheguei bufando, queria a cabe\u00e7a do trapalh\u00e3o. Todos se esquivaram. Sobrou apenas uma senhora empedernida que assumiu a responsabilidade e teimou que estava correta a mudan\u00e7a. <\/p>\n<p>Vivam a cena! <\/p>\n<p>Eu tentava convenc\u00ea-la que b\u00fafalo n\u00e3o d\u00e1 leite, portanto&#8230; Mas, ela recorria ao dicion\u00e1rio para explicar a correta grafia da palavra \u201cb\u00fafalo\u201d, com acento e coisa e tal.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 b\u00fafala, minha senhora. B\u00daFALA, LA, LA. Entendeu?<\/p>\n<p>Demoraram uns bons minutos at\u00e9 a ficha cair. Desconfio que a senhora pediu as contas no dia seguinte. De tantas piadinhas que ouviu. As reda\u00e7\u00f5es tinham um implac\u00e1vel senso de humor.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Fui entrevistar a atriz e cantora Zez\u00e9 Motta. Anos 80. Auge do sucesso da mo\u00e7a que acabara protagonizar o filme Xica da Silva. A Warner estava lan\u00e7ando um novo disco e apostava as fichas no talento de Zez\u00e9. Havia toda uma temporada de shows prevista. Sobravam expectativas. Era a musa do momento. <\/p>\n<p>Cheguei na gravadora da rua Alves Guimar\u00e3es, em Pinheiros, no hor\u00e1rio previsto. Fomos para a sala de imprensa e, mal come\u00e7o a entrevist\u00e1-la, aparece outro rep\u00f3rter. De uma revista, digamos, de celebridades. Diz que perdeu o hor\u00e1rio reservado a ele e se eu me importo de que participe da nossa conversa. <\/p>\n<p>Concordei. Fique \u00e0 vontade, disse.<\/p>\n<p>Foi o que ele fez. Danou-se a fazer perguntas do tipo \u201ccor favorita\u201d, \u201ccomida que mais gosta\u201d, \u201cm\u00fasica predileta\u201d e por a\u00ed foi. Fiquei s\u00f3 olhando e me divertindo com as respostas. <\/p>\n<p>A um dado momento, o rapaz sacou esta:<\/p>\n<p>&#8212; Em uma s\u00f3 palavra: o que \u00e9 felicidade para voc\u00ea?<\/p>\n<p>E a atriz\/cantora respondeu sem hesitar.<\/p>\n<p>&#8212; Marcos. Marcos Paulo.<\/p>\n<p>Eles eram namorados \u00e0 \u00e9poca. E a mo\u00e7a estava apaixonada pelo global.<\/p>\n<p>Aplaudi a resposta. Franca, corajosa. E, diante da perplexidade do outro jornalista, pude finalmente voltar a perguntar&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Desculpe Walt\u00e3o, mas tenho que contar.<\/p>\n<p>Esta aconteceu no tempo em que os desfiles de carnaval eram na avenida Tiradentes. L\u00e1 est\u00e1vamos eu e o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico Walter da Silva para cobrir o tal do Grupo Especial das Escolas de Samba paulistanas. Chegamos l\u00e1 pelas 19h30 e o desfile comeu solto at\u00e9 nove, dez da manh\u00e3 do dia seguinte. Foi uma maratona \u2013 e ainda hoje \u00e9 assim. <\/p>\n<p>\u00d3bvio que, em meio ao baticum, rep\u00f3rter e fot\u00f3grafo se perdem. Um corre para pegar um depoimento aqui. Outro quer fazer a foto da cabrocha ali. H\u00e1 um certo desencontro que, de resto, n\u00e3o atrapalha o trabalho de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Salvo quando o fot\u00f3grafo decide tirar uma soneca na viatura nos intervalos de uma escola e outra. Eu n\u00e3o recomendaria. Mas, foi o que o Walt\u00e3o fez \u2013 e guardou segredo.<\/p>\n<p>Passou a prov\u00e1vel campe\u00e3, Vai-Vai. E o mo\u00e7o achou que era hora de dar uma relaxada no carro. Ferrou no sono. S\u00f3 voltou depois que outra das escolas havia desfilado. Como j\u00e1 disse, ele n\u00e3o contou pra ningu\u00e9m. Pra ningu\u00e9m mesmo.<\/p>\n<p>S\u00f3 descobrimos, dias depois, quando anunciaram a vencedora do carnaval daquele ano: Rosas de Ouro. Justamente a escola que veio atr\u00e1s da Vai-Vai. Ainda hoje dou risada do Walt\u00e3o tentando explicar o inexplic\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8212; Veja bem&#8230;<\/p>\n<p>E n\u00e3o v\u00edamos nada. Cad\u00ea a foto?<\/p>\n<p>E ele:<\/p>\n<p>&#8212; Veja bem&#8230;<\/p>\n<p>Sorte que fantasias e adere\u00e7os das escolas todas sempre se parecem. Era ainda mais assim naquele tempo em que os jornais s\u00f3 traziam fotos em branco e preto.<\/p>\n<p>Veja bem, caro leitor. N\u00e3o me entenda mal. Ningu\u00e9m desconfiou. Houve at\u00e9 passista da Rosas que jurava ser ela aquela mo\u00e7a de biquininho ali, l\u00e1 no fundo da foto da primeira p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Tinha certeza que n\u00e3o era. Mas, n\u00e3o ia cortar o barato da mo\u00e7a. Mais bonita ao vivo do que na foto que, a bem da verdade, nunca existiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queria que o t\u00edtulo desta prov\u00e1vel s\u00e9rie, que hoje inicio, fosse \u201cRecorda\u00e7\u00f5es do escriv\u00e3o (que n\u00e3o \u00e9 o) Isa\u00edas de Caminha\u201d. 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