{"id":10725,"date":"1978-01-28T00:00:00","date_gmt":"1978-01-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T20:04:33","modified_gmt":"2017-09-13T20:04:33","slug":"voce-ja-leu-este-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/voce-ja-leu-este-homem\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea j\u00e1 leu este homem"},"content":{"rendered":"<p>Na opini\u00e3o do publicit\u00e1rio Neil Ferreira, ele \u00e9 um dos mais l\u00facidos c\u00e9rebros de nosso tempo. Para os jornalistas em geral, ele faz parte de uma seleta casta de homens de imprensa que, ao lado do trabalho s\u00e9rio, procuram avidamente o novo, a cria\u00e7\u00e3o. Sem se satisfazer com o pr\u00e9-estabelecido, de forma alguma.<\/p>\n<p>Para o p\u00fablico em geral, no entanto, ele \u00e9 apenas um nome a mais, sem muito significado. (Isso faz parte de sua filosofia: o fato deve ser conhecido, n\u00e3o o jornalista). Com certeza, voc\u00eas j\u00e1 devem ter lido algo transcrito por sua Olivetti. Nas p\u00e1ginas da Quatro Rodas, do Jornal da Tarde, da Veja ou da Isto \u00e9. Foi ele quem as criou.<\/p>\n<p>Os rep\u00f3rteres Clovis Naconecy de Souza e Rodolfo Carlos Martino, do Jornal da Mooca, conversaram durante uma hora e meia com esse pioneiro das rotativas. Esse papo, que por raz\u00f5es de espa\u00e7o continuar\u00e1 no pr\u00f3ximo n\u00famero, merece ser lido:<\/p>\n<p>JM \u2013 Como surgiu seu interesse por jornalismo e por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Mino- Meu pai era jornalista, e eu comecei logo a ouvir a conversa em torno de jornalismo. Naturalmente porque os jornalistas costumam muito conversar sobre a atividade, talvez mais do que outros profissionais. Eu comecei desde menino a ouvir falar de jornalismo, fato este ali\u00e1s que me levou inicialmente a pensar que eu jamais seria jornalista, eu n\u00e3o queria ser jornalista. De mais a mais, impressionado pelas brigas que caracterizavam a vida familiar, nas quais a minha m\u00e3e recriminava o meu pai pelos hor\u00e1rios malucos que tinha, voltas para casa de madrugada, etc, etc, etc. E eu no fundo, no fundo, teria desejado uma vida mais mansa do que meu pai, de tal sorte que o meu come\u00e7o \u00e9 realmente de pensamentos voltados para outra atividade que n\u00e3o o jornalismo. Depois, por volta de 1950, quando eu tinha 15 anos, aconteceu no Brasil o campeonato mundial de futebol, e eu tive a chance de entrar numa equipe que ia cobrir este campeonato. Entrei nela fascinado pela perspectiva de ganhar algum dinheiro. Ai, logo surgiram possibilidades de colabora\u00e7\u00e3o em alguns jornais e revistas, sempre em fun\u00e7\u00e3o da perspectiva de ganhar algum dinheiro, sendo que eu, afoito e infeliz, evidentemente pretendia casar-me cedo (id\u00e9ias malucas t\u00edpicas da juventude de vinte ou trinta anos atr\u00e1s) a\u00ed eu comecei a topar essas colabora\u00e7\u00f5es e coisa e tal. Aos poucos, eu fui deslizando para a profiss\u00e3o. L\u00e1 pelos 18, 19 anos j\u00e1 estava trabalhando com jornalismo.<\/p>\n<p>JM \u2013 Qual sua conceitua\u00e7\u00e3o de jornalismo moderno?<\/p>\n<p>MC \u2013 Eu n\u00e3o acredito que exista, ah, eu tenho certa implic\u00e2ncia com a palavra moderna porque n\u00e3o sei precisamente o que significa. Acho que jornalismo \u00e9 um fen\u00f4meno sociol\u00f3gico, como enfim todas as manifesta\u00e7\u00f5es humanas. Ele corresponde a um est\u00e1gio cultural, \u00e9 t\u00e9cnico num determinado momento, num determinado pa\u00eds. Eu acho que a gente est\u00e1 praticando um jornalismo atualizado \u2013 n\u00e3o chegamos ainda aos n\u00edveis de tecnologia aplicada ao jornalismo que os norte-americanos atingiram por exemplo; mesmo em rela\u00e7\u00e3o a Europa talvez estejamos um pouco atrasado tecnicamente, mas no fundo, no fundo, estamos vivendo no nosso tempo , em termos t\u00e9cnicos. Os nossos problemas s\u00e3o de outro g\u00eanero, s\u00e3o problemas pol\u00edticos e limita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. S\u00e3o os mesmos problemas que, de uma forma ou de outra, assoberbam este pa\u00eds hoje.<\/p>\n<p>JM \u2013 Cada lan\u00e7amento lhe revele suma carga inovadora, seja na apresenta\u00e7\u00e3o da not\u00edcia, ou na maneira de se expor o conte\u00fado. O moderno foi colocado nesse sentido?<\/p>\n<p>MC \u2013 Olha, eu n\u00e3o sei. Acho que tive sorte de n\u00e3o cair jamais dentro do t\u00e9dio na profiss\u00e3o, porque desde 1960 eu sou chamado a dirigir equipes que v\u00e3o criar um \u00f3rg\u00e3o de imprensa novo, quer dizer, n\u00e3o me ocorreu de ter que dirigir alguma coisa que j\u00e1 existisse antes de mim. Sempre dirigi \u00f3rg\u00e3os que n\u00e3o existiam antes de mim e, portanto, tinham de ser criados. Por isso, eu repito: \u00e9 uma sorte. As circunstancias da vida fizeram com que isso acontecesse. Isso naturalmente, em todas as ocasi\u00f5es, desde 1960 quando eu fui chamado para dirigir uma revista que se chamaria 4 rodas. Depois, em 1964, quando fui chamado para dirigir a Edi\u00e7\u00e3o de Esportes de O Estado. Em 1966, quando dirigi a equipe lan\u00e7adora da revista Veja, e agora na Isto \u00c9 eu sempre fui espica\u00e7ado por uma situa\u00e7\u00e3o nova, por algo que tinha que ser criado. Isto, acredito, deve ser muito estimulante. Ent\u00e3o voc\u00ea, efetivamente, tem de necessariamente sair com uma f\u00f3rmula diferente. Veja o caso de Isto \u00c9 que \u00e9 muito exemplar e sintom\u00e1tico. Eu dirigi a primeira equipe de Veja. Na Editora Abril eu tinha recebido a incumb\u00eancia de fazer uma revista que se inspirasse num modelo norte-americano de revista semanal de informa\u00e7\u00e3o. Aludo, evidentemente ao Time e ao Newsweek. A id\u00e9ia de revista semanal \u00e9 realmente fascinante. Ent\u00e3o, quando eu acabei de sair de Veja, eu levei comigo esta id\u00e9ia \u2013 fazer outra revista semanal de informa\u00e7\u00e3o. Evidentemente, n\u00e3o poderia fazer algo igual \u00e0 Veja por uma s\u00e9rie de infind\u00e1vel de raz\u00f5es. Embora ficando dentro dos limites da revista semanal de informa\u00e7\u00f5es, eu teria \u2013 eu e a equipe que dirijo \u2013 n\u00f3s ter\u00edamos de criar uma revista nova, uma forma nova \u2013 se quis\u00e9ssemos vingar. Ent\u00e3o, digamos, Isto \u00c9 \u00e9 diferente realmente de Veja, mas isso em fun\u00e7\u00e3o da necessidade de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>JM \u2013 Dessas experi\u00eancias com o Jornal da Tarde, com a Veja, agora com a Isto \u00c9, qual foi a mais compensadora?<\/p>\n<p>MC &#8211; No Jornal da Tarde eu tenho uma autonomia t\u00e9cnica total, uma autonomia pol\u00edtica m\u00ednima \u2013 praticamente nada. Ent\u00e3o acho que o Jornal da Tarde, de alguma forma, exprime o meu tempo. Eu diria que exprime at\u00e9 hoje esta situa\u00e7\u00e3o. Eu acho que o Jornal da Tarde foi inovador em termos de forma. Ent\u00e3o eu acredito que ele tenha inovado do ponto de vista da pagina\u00e7\u00e3o, do ponto de vista da forma do texto. Agora, em termos de conte\u00fado, o Jornal da Tarde n\u00e3o difere do Estad\u00e3o, a linha pol\u00edtica do Jornal \u00e9 a mesma. No caso da Veja, eu recebi uma autonomia tecnicamente menor no sentido de que eu tinha que seguir um modelo pr\u00e9-estabelecido que \u00e9 o modelo norte-americano da revista semanal de informa\u00e7\u00e3o, que era o pedido expresso, desejo deliberado da empresa \u2013 por\u00e9m tinha uma autonomia politicamente ilimitada, ent\u00e3o isso me levou a cuidar mais do conte\u00fado da Revista Veja do que da forma embora ela possa ter tido tamb\u00e9m experi\u00eancias formais interessantes. Ent\u00e3o a experi\u00eancia com o Jornal da Tarde foi boa mas de alguma forma mais limitada do que a experi\u00eancia em Veja, que em outros jornais o conte\u00fado \u00e9 mais importante do que a forma. Agora, eu diria que a experi\u00eancia de longe mais interessante \u00e9 de Isto \u00c9. N\u00e3o digo porque estou fazendo no momento, estou vivendo esta experi\u00eancia. Eu falo realmente no caso de termos objetivos, a experi\u00eancia que me custa muito mais esfor\u00e7o, somos uma equipe m\u00ednima e trabalha-se brutalmente. Aqui estou trabalhando mais do que em Veja , mais do que no Jornal da Tarde. Tive que dar uma dedica\u00e7\u00e3o a Isto \u00c9 muito maior.<\/p>\n<p>Ocorre por\u00e9m que Isto \u00c9 tem a enorme vantagem de ser uma revista nossa. Pela primeira vez na minha vida profissional eu n\u00e3o tenho um dono. Ent\u00e3o, realmente eu n\u00e3o tenho de dar satisfa\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m. A \u00fanica satisfa\u00e7\u00e3o que temos de dar \u00e9 a nossa consci\u00eancia. Isso num ponto de vista. Num outro ponto de vista, o que n\u00f3s estamos fazendo, e eu n\u00e3o tenho a menor d\u00favida de isso acabar\u00e1 aparecendo com clareza rigorosamente solar, estamos fazendo uma revista de informa\u00e7\u00e3o brasileira, no sentido de que embora haja um modelo que \u00e9 a revista semanal de informa\u00e7\u00e3o, estamos fazendo uma coisa que n\u00e3o tem semelhan\u00e7a com nada. A revista Veja \u00e9 uma mistura de Time com Newsweek, adaptadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es brasileiras, falando com grande destaque evidentemente da nossa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas ela \u00e9 rigorosamente uma c\u00f3pia, talvez bem feita, da Time e de Newsweek. Uma mistura. Graficamente, ela \u00e9 igual a Newsweek.Voc\u00ea praticamente n\u00e3o v\u00ea diferen\u00e7as. E em termos de texto ela realmente acompanha essa id\u00e9ia americana de que o texto de ser pasteurizado, ele tem que parecer ser escrito pela mesma pessoa de fio a pavio. A primeira \u00e0 \u00faltima nota, com exce\u00e7\u00f5es talvez do Millor Fernandes ou dos cr\u00edticos de arte, literatura, etc e tal que assinala as mat\u00e9rias. O resto parece escrito e tem de parecer escrito \u2013 esse \u00e9 o prop\u00f3sito \u2013 pela mesma pessoa. N\u00f3s estamos fazendo uma revista que n\u00e3o se compara a nenhuma, pode ser melhor ou pior, mas ela \u00e9 realmente uma experi\u00eancia nossa, e portanto brasileira. Em termos formais, todas as mat\u00e9rias assinadas, cada um tem seu estilo, cada um tem sua opini\u00e3o, e tem direito a ela inclusive em termos de conte\u00fado.<\/p>\n<p>JM \u2013 No in\u00edcio existiram cr\u00edticas \u00e0 Isto \u00c9 mensal, identificando semelhan\u00e7as com a Esquire americana. Houve proced\u00eancia?<\/p>\n<p>MC- Realmente, Isto \u00c9 mensal era muito menos independente com rela\u00e7\u00e3o a modelos j\u00e1 consagrados do que Isto \u00c9 semanal. Mas isso \u00e9 normal. N\u00f3s achamos que convinha antes fazer uma experi\u00eancia mensal por uma s\u00e9rie longa de raz\u00f5es. E a mensal, no fundo estava mais ligadas a alguns modelos, n\u00e3o apenas a Esquire que j\u00e1 tem larga aceita\u00e7\u00e3o em muitos pa\u00edses do que a Isto \u00c9 semanal.<br \/>\nA Isto \u00c9 semanal realmente \u00e9 muito dif\u00edcil de se comparar a algo que j\u00e1 existe. Talvez voc\u00ea possa, de alguma forma, encontrar algum parentesco mais com revistas europ\u00e9ias que com revistas americanas.<\/p>\n<p>JM \u2013 Onde se difere os objetivos da Isto \u00e9 mensal e da semanal?<\/p>\n<p>MC- Eu acho que os objetivos de uma revista se dividem basicamente em duas \u00e1reas. H\u00e1 os objetivos pol\u00edticos, que levam em conta, o prop\u00f3sito de contribuir para um esclarecimento da opini\u00e3o p\u00fablica. O outro objetivo diz respeito \u00e0 necessidade de se sobreviver, tornar o neg\u00f3cio rent\u00e1vel. Pelo menos, de equilibra-lo. Agora, para n\u00f3s a Isto \u00c9 semanal \u00e9 muito mais satisfat\u00f3ria exatamente porque ela pode mais rapidamente realizar os seus objetivos do que a mensal , l\u00f3gico. Agora, a\u00ed, sei l\u00e1, tem um papo sobre qual \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do jornalismo. Eu acho que a fun\u00e7\u00e3o primeira do jornalismo \u2013 existem a\u00ed algumas defini\u00e7\u00f5es que o jornalismo deve informar e formar ou informar formando, estas coisas, claro, s\u00e3o mais ou menos \u00f3bvias. Eu diria que o fundamental na tarefa jornal\u00edstica \u00e9 exercer realmente um papel cr\u00edtico e fiscalizador. Isso, para mim, \u00e9 a base de tudo. E nesse sentido, realmente, prestar um esclarecimento vital \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica e contribuir para que a verdade seja preservada. A\u00ed talvez a gente acabe enveredando pela filosofia, uma discuss\u00e3o em torno do \u00e9 a verdade. \u00c9 uma discuss\u00e3o complexa.<\/p>\n<p>JM- Como conseguiu montar a equipe que hoje forma a Isto \u00e9? S\u00e3o somente, digamos assim, dissidentes da Veja?<\/p>\n<p>MC \u2013 Bem, h\u00e1 aqui v\u00e1rias pessoas que sa\u00edram da Veja no mesmo momento em que eu sai; em sinal de protesto contra uma prepot\u00eancia que estava sendo praticada contra minha pessoa. \u00c9 verdade que fui colocado numa situa\u00e7\u00e3o&#8230; fui chamado pelos donos da casa para demitir Pl\u00ednio Marcos. Eu n\u00e3o quis demitir Pl\u00ednio Marcos, e&#8230;<\/p>\n<p>(Continua no pr\u00f3ximo n\u00famero)<\/p>\n<p>* texto publicado no Jornal da Mooca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na opini\u00e3o do publicit\u00e1rio Neil Ferreira, ele \u00e9 um dos mais l\u00facidos c\u00e9rebros de nosso tempo. 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